Uma lista de questionamentos.

O caso do morador do Beco do Grafite que decide pintar o muro de sua própria casa de cinza, apagando assim os grafites, levanta questões sobre comunicação e o exercício da retórica individual, dois problemas urgentes nas relações contemporâneas, na minha opinião - problemas esses, que aquele polêmico filme, A Chegada, tratou de forma monumental. Lendo a fala do morador, parece que não houve esforço de comunicação por parte dos grafiteiros (não tenho os dados, pode ser que eles tenham tentado, sim). A comunicação, neste caso, poderia ter evitado o apagamento precipitado do que, na retórica de alguns, se chama de arte (claramente não na retórica do morador). Por outro lado, condená-lo, na forma do pixo que amanheceu no muro recém pintado, é seguir impondo um ponto de vista, uma fala. Ele não acha que é arte. Ele se incomoda. O que mais sabemos sobre ele, além disso?

Isso me fez lembrar de outro caso, o da interação Sheherazade versus Sílvio Santos no Troféu Imprensa, que algumas de nós, neste caso, considerou uma pura demonstração de machismo. Mas, e ela, como interpretou? Sua expressão foi de constrangimento, mas será que ela atribuiu a atitude do chefe ao machismo, como nós imediatamente fizemos? Pode ser que o feminismo como solução não se aplique, na visão dela.

Na mesma entoada, como se sentiram as pessoas próximas ao menino morto por linchamento, de onde Sheherazade reafirmou a sentença: bandido bom, é bandido morto?

Sem querer concluir nada, escrevo apenas porque os casos acima relatados, me levaram de volta a um texto do filósofo italiano Giacomo Marramao, num livro chamado Críticas do Contemporâneo, de 2007. Entre outras coisas complicadas, ele diz:

“Por um lado, a esfera pública política não pode ser considerada simplesmente como o espaço de um consenso imbricado que funciona na negociação das regras procedimentais da justiça que põe entre parêntesis o conflito das ‘noções globais’ do bem. Por outro lado, também não pode ser entendida, a priori, como uma mera troca comunicacional de argumentos racionais de valor (…); pelo contrário, tem de ser entendido como um encontro-confronto de ‘narrativas’ que se relacionam com a organização da sociedade global e têm a sua origem em diferentes contextos de experiência e de mundo vivenciais”.

Enfim, entendo que, nessa lógica, todos deveríamos ter espaço para criticar o morador do Beco ou o Silvio Santos, mas, ao lado disso, também precisaríamos devolver a ambos, e à Sheherazade, no meu exemplo, ou à menina do BBB, que não se sentiu abusada, a oportunidade de tecer argumentos e reflexões, a partir de suas próprias retóricas​ e experiências​ individuais — sem imputar outra fala à fala deles, no caso, a nossa.

O que é necessário para convencer Emilly do abuso que sofreu? A informação (facebuquiana e televisiva ou mesmo erudita) é suficiente para substituir a experiência individual? A compreensão individual do episódio não seria um dos elementos fundamentais no devir-mulher de Emilly, para retomar Beauvoir?

Ainda de acordo com Marramao:

“O espaço Cosmopolita, da cidade global, tem de estender os direitos de cidadania — transgredindo a interdição de Platão — também à retórica, à narração na primeira pessoa, à experiência das vozes que narram. (…) Na mistura inevitável de razão e experiência, argumentação e narração, que marca as relações entre os diferentes grupos humanos no seio do mundo ‘glocalizado’, uma esfera pública democrática pode efetivamente aceitar a retórica. Contudo, (…) na condição de se tratar de uma retórica com provas, e não de uma retórica sem provas.”

De onde decorre que: aceitar a retórica não significa apenas inocentar, isentar ou incriminar os sujeitos desse teatro virtual. A compreensão e aceitação de um encontro-confronto de narrativas faria muito bem ao tribunal que se estabelece no Facebook.

Finalmente, não pretendo delinear novos modos de interação social a partir da leitura de Marramao, até porque não sei se consigo compreendê-lo na práxis — nem ele saiba, talvez, como operacionalizar a afirmação de que “teremos de escrever universalidade com uma mão e diferença com a outra”.

O que me incomoda são as análises apressadas, as frases prontas, as hashtags, consequência desse ambiente relacional-virtual dinâmico, efêmero, flutuante, imaterial. A notícia surge, com todos os recortes, os destaques, as escolhas do veículo/do jornalista. A partir da escolha pelo melhor veículo — que é sumariamente individual, é necessário posicionar-se rapidamente, redigir uma pequena fala, declarar de que lado se samba, definir de quem se discorda (geralmente, para todo o sempre), agora, imediatamente, antes que surja a nova notícia, e o processo — efêmero, superficial, pouco complexo, apressado — recomece.

Ao mesmo tempo, notícias, verdades & pós-verdades, opiniões, julgamentos se misturam e se confundem, enquanto se amplificam: nas redes sociais, tudo parece maior. Um simples like ou comentário se tornam o estopim de uma onda de acolhimento ou rechaço, ou pior: transformam-se em um movimento, na defesa de uma causa. A multiplicidade de vozes é preterida em relação à polaridade de discursos antagônicos (mas, de fato, antagônicos em que medida da vida “real”?).

Em algum momento do texto, Marramao pergunta: “Qual é o papel da filosofia hoje?” Eu, que não sou filósofa, apenas exerço neste espaço autoconcebido, minhas possibilidades retóricas e de pensamento, a partir de minhas experiências individuais como mulher branca, brasileira de classe média, moradora de uma grande metrópole etc. Obviamente, ainda que me inclua em grupos sociais, — o das mulheres, o das mulheres brancas — e seja influenciada por eles, o limite da experiência não deixa de ser individual.

Em outras palavras: por que insistimos em falar pelos outros?

Não tenho as respostas, mas imagino que filosofar, por exemplo, passe ao largo da curta reflexão necessária para a elaboração de um post de Facebook, assim como o ato de pensar de forma complexa, encontra-se em um lugar bem distinto da conclusão apressada e rasa de um texto de 144 caracteres. Por outro lado, um melhor uso da ferramenta, talvez pudesse nos proporcionar o aceite das redes sociais como uma arena de vozes múltiplas e não consensuais que constituem a sociedade contemporânea, e que são, ao contrário, erigidas na individualidade.

Só assim, seríamos capazes de tornar o confronto, um encontro de retóricas, sem a elas se conformar de forma tácita, como alguém incapaz de dialogar, ou aturdida, como alguém que se recusa à compreensão.

Para ler Marramao:

MARRAMAO, G. (et al.). Criticism of Contemporary issues. Conferências internacionais: Serralves, 2007

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