Parte I

O cara chegou pra consertar o computador. Marcela não sabia muito bem o que esperar. O moço falava bem, conjugava verbos e flexionava plurais. Era baixo pro tamanho dela, usava jeans com camisa social enfiada dentro da calça e cinto de couro preto. Quando chegou, encontrou Marcela sentada de frente pra tela azul com dezenas de caixinhas cinza. ERROR. Camisetão, cabelão, calça larga. Marcela não tinha mais como se esconder no meio de tanta roupa, tanto cabelo, tanta franja na cara.

Vamos ver aqui o que aconteceu, ele disse sério, e já se abaixando pra alcançar o teclado.

Marcela logo sentiu o cheiro que saía de dentro da camisa. Um cheiro adocicado, meio de ontem. Cheiro de cabelo no travesseiro. Shampoo com hálito amanhecido. Sentiu uma coisa formigar no meio das pernas. Vontade de abraçar o técnico, beijar a orelha, esfregar o nariz no pescoço dele. Perguntou mentalmente mil vezes: que perfume é esse?, enquanto o técnico teclava bastante, batia nas teclas, tirava e colocava disquetes de programas, e reiniciava o computador. Como quem precisasse pensar, o cara pediu licença e saiu pra fumar um cigarro.

Marcela o observou de dentro da sala. O cheiro do cigarro entrou forte pela porta.

De repente, entendeu. Era cheiro de cigarro misturado com perfume. Não, não, era cheiro de pele, mais o cigarro e o perfume. Era um tipo de essência, um tipo de alma, um cheiro masculino, hormonal, era um cheiro viciante, como o cigarro. Era um cheiro compulsivo. Perguntou mentalmente mil vezes: Quantos cigarros você fuma por dia? Não teria como comprar o cheiro. Era o cheiro do cara.

O cara então voltou, pediu licença mais uma vez, e sentou-se na cadeira. Bateu mais algumas vezes nas teclas e conseguiu consertar o computador. Recebeu o pagamento, despediu-se e foi embora, deixando Marcela submersa naquela rotina de secretaria-aprendiz, entre o chat do Terra e a máquina de fax. O cheiro do cara perambulou a tarde toda no escritório.

Anos depois, quando beijou a boca do namorado no fim da noite, lembrou do cheiro do técnico de informática. Só que o cheiro do namorado era um cheiro mais metropolitano, moderno. Tinha festa, tinha banco de táxi, tinha banheiro de bar, tinha muito álcool, cocaína e cigarro, tudo misturado com o perfume de doze horas antes, dele e de várias pessoas.

Enquanto ainda o beijava, finalmente entendeu o formigamento que lhe subiu pelo meio das pernas, naquela tarde quente de 1998. O namorado tinha mais em comum com o pai do que apenas os móveis que de vez em quando voavam pela janela da casa.