A sensação de fim do mundo

Na ausência de um centro real de poder, que nas democracias é dado pelo voto, o Brasil vai de crise em crise, de confronto em confronto

Sérgio Cabral, o ex-governador do Rio de Janeiro, na prisão: parece ladrão, mas precisa ser julgado

Imagino que muitos estão como eu, pasmos com o que acontece no Brasil. Para cada lado que olho, só enxergo confusão, descalabro, regressão social e ameaças à democracia. Não são apenas os fascistas invadindo o plenário da Câmara ou o estado do Rio de Janeiro se decompondo e falindo. O pais parece estar desmoronando, às vésperas de uma explosão. É a sensação de fim do mundo.

Por trás dela, vejo uma explicação simples: o golpe de Estado parlamentar aplicado contra a Dilma arrebentou a estrutura de representação e diálogo da vida pública brasileira. Em lugar de uma presidente impopular que tinha legitimidade, colocou-se no governo um grupo sem autoridade para mediar conflitos e encaminhar soluções para a crise.

Temer só obtém apoio em troca da promessa de vantagens materiais. Em vez de pacificar o país, esse regime de barganha permanente faz com que os embates se multipliquem em todos os níveis, com violência cada vez maior. Na ausência de um centro real de poder, que nas democracias é dado pelo voto, cada pedaço da sociedade com alguma força sente que pode puxar a corda para o seu lado, esgarçando o tecido social. Vamos de crise em crise, de confronto em confronto. A ruptura pode estar ali na esquina. Quem apoiou a queda de Dilma não imaginava esse desfecho.

A essa crise política se soma a crise econômica.

O governo empossado pelo golpe abraçou as teses mais simplistas do mercado, apostando tudo num choque neoliberal. O resultado está à nossa volta: o desemprego cresce, o crescimento não vem, a desorganização produtiva se aprofunda e a crise social se instala nas esquinas das grandes cidades, na forma de seres humanos abandonados. O que Temer oferece a desvalidos e ameaçados é corte de gastos, privatizações e juros estratosféricos, na esperança de que a transferência de renda para os ricos se transforme em espetáculo de investimentos. Mas qual investimento, se não há poder de consumo e nem perspectiva de crescimento? Essa é a armadilha em que patinam os europeus desde a crise de 2008, e que abriu espaço na política para os racistas de extrema direita.

Depois do golpe, com as ruas vazias e um Executivo emparedado por denúncias, o Brasil que não cresce e não cria empregos virou palco da disputa entre dois grupos antagônicos, nenhum dos quais oferece uma visão de futuro para o país.

De um lado, há o sistema político tradicional, que parece ter perdido a capacidade de se auto regenerar. É o Partido do Congresso, cujo interesse essencial consiste na manutenção do status quo — isso significa, essencialmente, um sistema de poder corrupto, que serve aos interesses de seus participantes e de seus patrocinadores econômicos, com garantia de impunidade para todos. Esse foi o grupo que elegeu Temer pelo impeachment de Dilma e constitui a base parlamentar de seu governo — como já constituía, aliás, a base de governo do PT.

Do outro lado, em oposição aos políticos, estão os fazedores de justiça, grupo que há 10 anos aumenta sua influência com a promessa de restaurar a ordem e salvar o país, dando fim a corrupção. É o Partido do Judiciário. O resultado do seu trabalho pôde ser visto na sexta-feira, quando o ministro da Cultura se demitiu, acusando outro ministro, Geddel Vieira, homem de confiança de Temer, de pressioná-lo para aprovar uma obra imobiliária irregular em Salvador.

Quer dizer: depois de Mensalão, Petrolão e impeachment, em pleno regime de exceção jurídica não declarada, a corrupção continua instalada no Palácio do Planalto, ao lado do gabinete que um dia foi ocupado por Dilma. A troca da democracia e do estado de direito pela esperança de probidade arrebentou a vida política e a economia do pais, mas não serviu nem para inibir a patifaria ao lado da Presidência.

Mesmo assim, os paladinos anticorrupção no Ministério Público e no Judiciário exigem mais poder para si mesmos, com a promessa de que, agora sim, com a aprovação desta ou daquela peça de legislação draconiana, a roubalheira vai acabar e o Brasil será outro, quase por magia. É o lacerdismo, versão brasileira da utopia de direita. Ele não tem base na realidade, mas funciona desde os anos 60 para perseguir a esquerda, destruir a democracia e levar ao governo grupos reacionários como o de Temer — que, naturalmente, nunca acabaram com a corrupção. Combatê-la sempre foi e continua sendo uma justificativa para chegar ao poder sem disputar eleições.

É assustador que no século XXI o Brasil tenha virado às costas aos seus problemas sociais e econômicos e se deixe hipnotizar pelo discurso populista de combate à corrupção. Parece que ela virou o problema mais grave do país. Mas se a corrupção acabasse amanhã, ainda seríamos um pais pobre, ignorante, violento, injusto e desigual, no qual uma casta de políticos e funcionários — muito deles no Judiciário e no Ministério Público — recolhe salários e benefícios obscenos, de forma perfeitamente regular.

O que está quebrando o Estado brasileiro não é a corrupção. São os salários, a Previdência pública e os juros que o governo paga para financiar a sua dívida. Esses três itens abocanham a maior parte do orçamento federal e impedem que se invista em escolas, hospitais, estradas, moradias e segurança. O que tem a dizer sobre isso o procurador Deltan Dallagnol, que vai ao Congresso fazer lobby por medidas que aumentem o poder da sua corporação, tentando barrar medidas que podem estabelecer controle sobre seus atos?

Assim como os políticos, os novos poderosos da República não vão abrir mão de seus salários gordos, de suas aposentadorias integrais e de seus auxílios moradia para restabelecer o equilíbrio das contas públicas. É mais fácil acusar os corruptos de quebrar o país e seguir angariando privilégios corporativos na condição inatacável de salvadores da pátria. Assim, o Brasil continuará sendo um país de pobres que trabalham duro até os 65 anos para sustentar uma casta de funcionários e legisladores ricos.

Na semana passada, com as prisões espetaculares de Anthony Garotinho e Sérgio Cabral — ex-governadores do Rio de Janeiro — o Brasil deu mais um passo na direção da confusão judicial.

Sergio Cabral foi detido porque, diante da crise que vive o Rio, “constituiria afronta permitir que os investigados continuassem fruindo em liberdade do produto milionário de seus crimes”. Essa foi justificativa usada pelo juiz Sergio Moro. A lógica essencialmente política dessa decisão pode ser usada contra qualquer outro acusado — basta que o juiz assim decida e que os formadores de opinião sigam aplaudindo, como têm feito até agora.

Por tudo que se sabe, Cabral e Garotinho parecem ladrões e talvez sejam bandidos. Mas encarcerá-los sem julgamento, com alegações incertas, de olho na arquibancada, parece o caminho mais curto para a destruição do estado de direito e a instalação do fascismo.

Enquanto isso, acusações sólidas contra Temer têm outro tratamento. Na semana passada, Otávio Marques de Azevedo, ex-presidente da construtora Andrade Gutierrez, mudou de água para vinho seu depoimento num caso que fere mortalmente o substituto de Dilma. Azevedo havia dito em setembro que dera um milhão de reais para a chapa PT-PMDB, em troca de favores ilícitos. Quando os advogados de Dilma provaram que, na verdade, ele dera um cheque de um milhão para Temer, o delator voltou atrás: procurou o STJ para, tranquilamente, dizer que se enganara, e que a dinheirama para o vice de Dilma era perfeitamente lícita.

Quem acredita nessa versão de última hora? Quem acha que o Brasil vai se tornar um país melhor com a parcialidade dessa Justiça? Eu olho e só vejo o fim do mundo.