Aquarius: a resistência que enfurece e envergonha

Por que um filme que nem é exatamente político provoca ódio e merece aplausos

Kleber Mendonça Filho e Sônia Braga em entrevista no Festival de Toronto, onde Aquarius foi exibido

Em tudo de bom e ruim que se se escreveu sobre Aquarius, ainda não achei uma explicação convincente para a capacidade do filme de mobilizar as emoções que se vive no Brasil de 2016.

É fácil atribuir a simpatia das plateias — e a raiva dos desafetos — ao posicionamento político assumido pela equipe do filme. Atores e diretor denunciaram o golpe contra Dilma no festival de cinema de Cannes e conseguiram enorme repercussão para o assunto, dentro e fora do Brasil.

Mas esse fato, embora importante, não explica sozinho que as sessões de Aquarius se encerrem aos gritos de Fora Temer, nem que reacionários notórios dediquem tempo e espaço a tentar destruir o filme comercialmente.

As razões para a catarse política de um lado e de outro têm de ser buscadas no interior do filme de Kleber Mendonça Filho — e elas são menos óbvias do que parecem.

Aquarius não é um filme panfletário. Não é sequer um filme político no sentido restrito da palavra. Sua personagem principal é uma escritora de 65 anos que vive num apartamento à beira mar. Ela nada tem de militante. Passou a juventude sob a ditadura, mas envolvida consigo mesma e com a sua família. No presente, lida com os problemas de ser mulher, idosa, viúva e solitária, numa sociedade assombrada pela violência.

A tensão que exala do filme é a do cotidiano nas metrópoles brasileiras, sempre a um passo da catástrofe. Desde O som ao redor, ninguém captura melhor do que Mendonça Filho a sensação de cerco e alarme que virou parte da rotina da classe média.

Aquarius poderia ser perfeitamente definido como um filme de amor e de teimosia. Amor pelo passado, pelas lembranças essenciais que ele traz, e teimosia em defendê-lo de um presente árido e alheio. Há algo delicadamente reacionário nessa nostalgia, amplificada por uma trilha sonora dos anos 1970 que faz gente daquele tempo ter vontade de chorar.

Pode ser dito também, sem medo de errar, que Aquarius é um filme feminino e feminista. Mendonça Filho é de uma sensibilidade mediúnica para descrever as pequenas aflições e alegrias de uma mulher madura. Sua personagem corajosa e autossuficiente inflará de orgulho o peito das garotas que marcham contra a cultura do estupro.

Mas o que define Aquarius como o filme do momento não é nada disso, e nem mesmo a soma disso tudo. O carisma do filme encontra-se na palavra resistência.

Numa situação completamente adversa, incompreendida por quase todos à sua volta, a protagonista da trama resiste ao avanço local do capitalismo. O filme tem óbvia simpatia pela causa, mas, ainda assim, põe em cena uma situação claramente sem saída — e até mesmo de mérito discutível. É correto que o senso de justiça de uma única pessoa prejudique os interesses de tantas outras?

Clara, a escritora interpretada de forma discreta e majestosa por Sônia Braga, se isola em sua determinação de fazer o que deseja e acredita ser correto. Ela não é uma revolucionária. É uma individualista radical, que resiste e ataca. Sua coragem reverbera em nós, que achamos razões para concordar com tudo que nos é imposto.

Olhando assim, fica fácil entender por que Aquarius virou o sucesso político da temporada. Por acidente — ou por genial antecipação dos fatos — Mendonça Filho criou uma metáfora perfeita da atmosfera política deixada no Brasil pelo afastamento de Dilma. Os que marcham contra o golpe viraram Claras. Combatem o aparentemente inevitável sob o olhar consternado ou furioso dos que estão em volta.

A minoria que se apossou artificialmente do governo se esforça para criar um clima de normalidade no país, com apoio dos interesses poderosos que ajudaram a tornar o golpe possível. Não há motivo de insatisfação, dizem. Agora tudo vai ficar bem. Rendam-se. Desistam. Acomodem-se à nova situação. Saiam das ruas, parem os protestos e todos ficaremos felizes. A vida precisa andar. O país precisa voltar ao normal.

Assim como a personagem de Sônia Braga, os insatisfeitos com Temer são chamados a ignorar a injustiça essencial da situação e a brutalidade com que ela foi e continua sendo conduzida. Seus interlocutores admitem que as coisas foram esquisitas, mas pedem que os indignados olhem para o futuro e percebam o lado bom da situação. A economia vai melhorar, garantem, com um brilho de incerteza nos olhos. As pessoas engolem os escrúpulos e vão arrumando razões para aderir, preocupadas consigo mesmas e com suas famílias.

A resistência em Aquarius pode ser inútil e perigosa. No Brasil de Temer, também.

É evidente que um filme com esse conteúdo provocaria a ira dos porta-vozes do novo status quo. Não à toa, uma comissão oficialista, engrossada por um jornalista que atacou Mendonça Filho com mentiras, anunciou ontem que Aquarius não será o candidato do Brasil ao Oscar. Escolheu-se um filme que ninguém no Brasil viu, e que a crítica definiu como medíocre.

Mas faz sentido, não? Imaginem se Mendonça Filho e sua turma levassem ao tapete vermelho de Hollywood os mesmos protestos encenados em Cannes. Imagem se a imprensa mundial tomasse o filme como mote para explicar de novo que Dilma foi deposta por um bando de corruptos e substituída por um suspeito de corrupção. Imaginem, Deus nos livre, se alguém erguesse um cartaz de Fora Temer durante a cerimônia mais assistida do mundo. Não, algo havia que ser feito para evitar esse atentado contra a pátria!

A resistência ao golpe envergonha e incomoda os defensores da nova ordem. Para um regime fabricado e sem legitimidade, nada pior do que milhares de jovens e intelectuais exigindo eleições antecipadas. Eles parecem indiferentes às supostas vantagens econômicas do impeachment, têm acesso aos novos meios de comunicação e são capazes de gritar — insistentemente — que o rei não é rei, e está pelado em praça pública.

A energia de 2013 não se dissipou e ninguém sabe quando uma fagulha será capaz de relançar nas ruas a multidão furiosa. A PM que bate, cega, prende e humilha está brincando com o fogo.

Como em Aquarius, o que acontece no Brasil não é uma disputa entre despossuídos e poderosos. Ainda. Todos que fazem parte do debate estão no grupo dos informados e gozam de alguma forma de proteção social. Os Temer e os Fora Temer moram na mesma vizinhança, senão no mesmo edifício. A discussão no Brasil de 2016 é sobre justiça, princípios e democracia. Temer, sua turma e seus apoiadores não têm nada a oferecer neste debate. Aquarius tem muito.