Por que a indignação com o Supremo, queridos?

Quando o Supremo se omitiu em outras situações recentes, não houve gritaria. Desta vez, com Renan, talvez tenham até agido certo

Onde moravam as pessoas espantadas com a politização do Supremo em março de 2016, durante a gravação ilegal da conversa entre o Lula e a Dilma, cuja divulgação ao arrepio da Lei acabou com o governo dela?

Se não houvesse politização, o juiz Sergio Moro teria sido afastado do caso pelo Supremo, Lula teria ingressado no governo e — com um pouco da luz que lhe faltava — Dilma poderia ter chegado ao final do mandato. Naquela ocasião, no entanto, Gilmar Mendes decidiu que Lula não poderia tomar posse como ministro, Teori Zavascki fez um muxoxo contra o Moro e ninguém “na sociedade” se queixou.

A ilegalidade prevaleceu, por interesse político.

Da mesma forma, o Supremo silenciou em abril do ano passado, quando Teori evitou afastar o Eduardo Cunha, que, recém-indiciado, conduzia a votação do impeachment da Dilma na Câmara. Seria interferência de um poder sobre o outro, se alegou então. O perigoso corrupto deslanchou o impeachment com a benção dos magistrados e não se falou do apodrecimento das instituições. Também não se reclamou depois, quando o Cunha, serviço feito, foi afastado “intempestivamente” pelo mesmo Teori.

Agora, leitores e colunistas reclamam que Renan Calheiros tenha se safado com seu posto de presidente do Senado no Supremo — os mesmos leitores e colunistas que, esquizofrenicamente, não se importam que Michel Temer prossiga na Presidência depois do episódio Marcelo Calero, em que praticou crime evidente de responsabilidade.

Eu não entendo a cabeça das pessoas, não entendo a ética delas. Mas o Supremo eu acho que entendo. Ele vai com a valsa. Interpreta a lei ou se finge de morto ao sabor das correntezas políticas. Rifa o Lula, protege e depois descarta o Cunha, dá fôlego ao Renan, dependendo da balança de poder. Age por conveniência numa sociedade que, definitivamente, não se rege por princípios.

No caso do Renan, talvez o Supremo tenha agido bem. Os jornais e a internet estavam cheios de valentões que exigiam confronto com o Senado. Eles querem que os juízes se imponham aos políticos e fundem uma república de autoritários incorruptíveis, com poder de vida e morte sobre os cidadãos comuns — embora remunerados, muitos deles, com supersalários acima do que determina a lei, mas, por favor, não falemos disso.

Acho essa perspectiva apavorante.

Desde o golpe que derrubou Dilma, em agosto, Judiciário e Legislativo lutam pelo controle do poder, num país em que o Executivo não tem autoridade ou legitimidade. Acho que desse confronto não sairá nada em benefício da maioria dos brasileiros. O que o país precisa, urgentemente, é de um governo legítimo, capaz de restabelecer a ordem e mediar conflitos entre as facções corporativas, cada vez mais exaltadas. O que o país precisa é de eleições diretas e talvez mesmo de uma Assembleia Constituinte, que repactue a convivência no interior de uma sociedade que mudou.

O Brasil do século XXI precisa de de-mo-cra-ci-a. Os salvadores da pátria, já se vê, não nos salvarão.