A ineficiência econômica do conceito jurídico de cidadania.


Gostaria de fazer uma breve análise sobre uma máxima maquiavélica, de conteúdo político e moral. Um dos princípios que surge de “O Príncipe” de Maquiavel é “Aumente a ausência para aumentar o respeito e a honra”. E realmente funciona, é verificável através da experiência empírica. Quanto menos vezes você vê uma pessoa, maior se torna a probabilidade daquela pessoa te procurar ou, ao menos, sentir sua falta, comentando essa saudade com terceiros. Porém, gostaria de analisar essa máxima maquiavélica sob o ângulo da eficiência econômica. Se você se afasta propositadamente do convívio de uma pessoa, você afasta também todo o prazer marginal que você pode proporcionar a essa pessoa: companhia física, prazer sexual, satisfação intelectual, experiência de vida, conhecimentos pessoais e informações relacionadas à sua rotina de vida (que inclui seu trabalho, seu patrimônio, sua alimentação, sua saúde e hábito de atividades físicas, seu círculo de amizade, o local onde você vive e seus planos atuais e futuros de vida). E tudo isso são valores materiais e imateriais retirados do alcance da pessoa com quem você convivia. Assim, conforme mostra a curva decrescente da demanda (procura) da microeconomia, quanto menor a quantidade de um bem (produto) ou serviço, maior será o seu valor no mercado. Considerando que você possa adicionar satisfação pessoal a uma determinada pessoa de um nível social, econômico e educacional parecido com o seu pela sua simples presença, a sua ausência vai resultar numa supervalorização da sua amizade no “mercado de amizades”. Porém, é fundamental que o seu amigo tenha um nível social, econômico, cultural e educacional parecido com o seu (coeteris paribus). Caso contrário, a sua ausência não vai gerar um desequilíbrio relevante para aumentar o valor da sua amizade no “mercado de amizades”, pois, por exemplo, um ator famoso tem mais valor social que você, um multimilionário tem mais valor econômico (patrimônio) que você, ou um ganhador do prêmio Nobel tem mais credibilidade e cultura e conhecimento (a princípio) que você. Então, a sua ausência não desequilibraria a amizade com qualquer uma dessas pessoas, pois já há um desequilíbrio natural (social, patrimonial ou educacional), inclusive para que qualquer daquelas pessoas não tenha interesse (interesse em termos de eficiência econômica) em ser seu amigo. Isso pode ser observado empiricamente na evolução temporal da amizade e relacionamento entre irmãos, que tem (em tese) a mesma origem social (família e amigos da família), patrimonial (biológica e financeira) e educacional (pais e parentes próximos). Se qualquer dos irmãos variar, com relação aos outros irmãos, de forma significativa qualquer um dos três fatores (social, patrimonial ou educacional) ao longo da vida, a assimetria na amizade começa a aparecer. E, se não houver variação social, patrimonial ou educacional, a ausência passa a ser uma forma artificial de desequilibrar a amizade entre os irmãos nesse “mercado de amizades de irmãos”. Logo, quem tem mais educação, dinheiro (patrimônio) e/ou “status” social (famílias tradicionais e/ou ricas) sempre vai ser bem-vindo, porque suas situações pessoais sociais, patrimoniais e/ou educacionais sempre vão poder adicionar mais prazer e suprir as necessidades das pessoas mais carentes em qualquer um dos três fatores (social, patrimonial e educacional), combinados ou não, pois a economia trata de analisar necessidades ilimitadas das pessoas e recursos materiais limitados no mundo. Nesse sentido, a amizade pode ser um recurso economicamente eficiente (melhor custo-benefício = melhor alocação dos seus recursos disponíveis, que são tempo, energia e dinheiro), o significa um aumento da satisfação das necessidades e prazeres (se você tem a ganhar social, patrimonial ou educacionalmente com a amizade), ou um recurso economicamente ineficiente (pior alocação dos seus recursos disponíveis), o que significa uma diminuição da satisfação das necessidades e prazeres (pagar contas de terceiros (patrimonial), social (não aumentar a sua notoriedade social ou não conhecer pessoas novas e interessantes) e/ou educacional (não aprender nada novo, ou em alguns casos até desaprender o que sabia) ). Assim, do ponto de vista da eficiência econômica, imagine uma pessoa idiota (no sentido de não possuir muito conhecimento), pobre (sem patrimônio) e obeso (estigma e preconceito social). Esta pessoa pode aumentar o valor da sua amizade no “mercado de amizades” simplesmente sentando no banco de uma praça e fazendo amizade com qualquer tipo de desconhecido (é o que normalmente ocorre com jovens pobres, que surgem aos bandos; esses jovens se aproximam porque é a única solução mais eficiente para a amizade deles), pois qualquer pessoa, em tese, pode adicionar valor (patrimonial, social e/ou educacional) para a amizade dele. No outro extremo, por exemplo, imagine uma pessoa da mesma idade que a pessoa anterior, mas muito rica (muito patrimônio), que é muito bem relacionada socialmente (família e amigos) e que é muito inteligente (titulação acadêmica-educacional; por exemplo, graduada e pós-graduada em Harvard). Essa última pessoa não tem muitas motivações para sair do conforto da hidromassagem no quintal da mansão dela (localizada dentro de um condomínio de alto padrão) e sentar no banco da praça (como a primeira pessoa), simplesmente porque isso é economicamente ineficiente (não vai adicionar prazer social, econômico e/ou educacional). Considerando que as probabilidades das pessoas se relacionarem e se inter-relacionarem através de amizades (relações) igualitárias dentro da sociedade seja um atributo elementar do conceito jurídico de cidadania, então as possibilidades de relacionamentos (e exercício da cidadania) são pré-estabelecidas pela eficiência econômica das amizades. Essas reflexões me levam a uma conclusão mais geral sobre a cidadania: independentemente de como a lei defina juridicamente a cidadania ou de como a lei estabeleça parâmetros legais para o seu exercício, as condições e possibilidades para o exercício da cidadania são pré-estabelecidas economicamente.

http://ivannizer.blogspot.com.br/2014_04_01_archive.html

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