A Origem do Dogma.


Há muito tempo que tenho refletido sobre a raiz dos fundamentalismos, e notei que a base de todos os fundamentalismos são os dogmas sobre os quais se sustentam as mais diversas crenças. O dogma é como um muro gigantesco do material mais resistente que existe, de altura e espessuras imensas, diante do raciocínio lógico e da evidência empírica. Se os dogmas sustentam as crenças, e as crenças procuram justificar comportamentos, costumes, instituições, hierarquias, culturas e até a realidade material, pergunta-se: como e por que surgem os dogmas ? A minha explicação é bem simples: os dogmas existem para tentar fundamentar 1) comportamentos e decisões irracionais, e os 2) privilégios de alguns indivíduos em relação aos demais. Com base nesses dois parâmetros, pode-se pensar nos mais variados dogmas que sustentam todas as crenças: a indiscutibilidade da validade das leis jurídicas, da existência e infalibilidade de Deus e deuses, dos costumes das comunidades, da hierarquia social e institucional, do uso da força física. Assim, a fórmula fundamental do dogma é “dogma = privilégio + decisão irracional”. Isso ocorre porque a racionalidade não pode conviver com uma decisão irracional servindo a um privilégio. Assim, por exemplo, a existência de Deus a partir da fé fundamenta o PRIVILÉGIO esperado dos que acreditam em Deus a partir da total ausência de evidência (DECISÃO IRRACIONAL). Outro exemplo: a infalibilidade da validade da lei jurídica fundamenta o PRIVILÉGIO da coletividade sobre o indivíduo mesmo em situações irracionais, como regalias a autoridades estatais ou desapropriações (DECISÃO IRRACIONAL). Outro exemplo: a imposição de um costume pela força fundamenta o PRIVILÉGIO dos adeptos desse costume mesmo diante de outras opções de costumes (DECISÃO IRRACIONAL). Ou seja, o dogma é a força que protege o privilégio tem decisão irracional. Mais que isso: a existência do dogma passa a ser um indício da irracionalidade de uma decisão, pois qualquer decisão racional tem que ser explicada pela lógica racional (baseada em evidências). É por esta razão que, por exemplo, toda argumentação baseada em “livros sagrados” como a bíblia é desprovida de racionalidade lógica, mas apenas de racionalidade argumentativa, pois o fundamento de validade do “livro sagrado” é o DOGMA da origem divina das escrituras ( = PRIVILÉGIO prometidos aos crentes + DECISÃO IRRACIONAL de reputar real uma estória de ficção). Por exemplo, é possível ARGUMENTAR se Jesus era humano ou não, é possível ARGUMENTAR se MOISÉS abriu o mar com os mãos ou com um cajado, é possível ARGUMENTAR se o demônio pode assumir ou não a forma humana, é possível ARGUMENTAR se o Gandalf Branco é muito mais poderoso que o Gandalf Cinza, é possível ARGUMENTAR se uma pessoa inteligente é resultado da encarnação de outras pessoas inteligentes em vidas passadas, é possível ARGUMENTAR se o Hulk pode controlar a sua raiva, mas não se pode ARGUMENTAR LOGICAMENTE sobre essas coisas, porque são baseadas em dogmas (e não em EVIDÊNCIAS), e portanto no privilégio da satisfação pessoal que esses assuntos podem causar e na decisão irracional de reputar real algo fictício (sem existência física ou empírica). Daqui há dois mil anos, o livro “Senhor dos Anéis” pode ser considerado divino, e portanto os personagens e situações lá descritas passariam a ser verdades indiscutíveis, com base no dogma. O grave para a racionalidade é se reputar científico e racionalmente lógico o que de fato é um dogma (ficção). Por exemplo, os filhos respeitam os pais pelo simples fato dos pais exercerem força física e econômica (e alguns casos, morais) sobre os filhos. Qualquer outra explicação é dogma (modo de PRIVILEGIAR o poder dos pais em relação aos filhos de forma IRRACIONAL). O dogma é uma ficção que se pretende real e indiscutível.

http://ivannizer.blogspot.com.br/2014/03/dogma.html

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