No Brasil, discordar é quase tentativa de homicídio.


No Brasil, discordar é quase tentativa de homicídio.

De simples diálogos na fila do banco até audiências forenses, passando por dúvidas levantadas por alunos em sala de aula, abordagens policiais truculentas, disputa sobre uma vaga no estacionamento, dúvida sobre o troco do café no boteco ou o pedido de devolução de um livro emprestado a um colega, por todos os lados é incrível a gigantesca intolerância e incapacidade do brasileiro de discordar civilizadamente e de modo não ameaçador, arbitrário e violento, num diálogo ou num debate público ou privado. As sombras de uma sociedade amordaçada pela censura militar (que existia a menos de 30 anos atrás) somada com os interesses do capitalismo financeiro internacional (grandes bancos e indústrias) e de um povo doutrinado a ser tratado como gado, leva a um senso crítico zumbi e à idiotização sistêmica, no qual as pessoas não sentem interesse nenhum em participar de qualquer debate de forma imparcial e impessoal, e quando participam, fazem-no para impor cabalmente o seu ponto de vista e/ou seu poder econômico, e quando não conseguem, levantam-se da mesa e vão embora. No Brasil, divergir, discordar ou expressar o seu ponto de vista pessoal é quase uma tentativa de homicídio, uma heresia, um absurdo, um ultraje, um motivo para ser ridicularizado e segregado dos círculos sociais, familiares, acadêmicos, religiosos e/ou profissionais. Nota-se claramente essa característica também nos períodos eleitorais, nos quais os candidatos abrem mão de uma disputa transparente, respeitosa, impessoal e justa, que privilegie o bom senso e o respeito pela pessoa, dignidade e história do adversário, em favor de violentíssimos e bárbaros ataques pessoais à pessoa e até à família do concorrente, num verdadeiro exorcismo político, com finalidade exclusiva de atingir a meta de se alcançar o poder. Assim, a ética do debate se tornou a ética do mercado, ou seja: nenhuma. O que importa é vencer ou con(vencer) os mais ingênuos. No mundo acadêmico, esvazia-se o conteúdo conceitual do debate e se agiganta a retórica vazia e burra, que nada mais é do que simples pirofagia cultural, com citações inócuas que vão de poesia barroca à relatividade geral, passando por Fernando Pessoa e dados históricos derramados ao acaso. É fundamental lembrar que o exercício pleno dos direitos políticos num ambiente democrático e republicano deve passar pelo debate livre e tolerante, de tantos quantos queiram participar e se manifestar sobre qualquer assunto: empresários, funcionários públicos, militares, políticos, artistas, professores, donas de casa, presidiários, cientistas e filósofos. Enquanto discordar ou externar um ponto de vista for automaticamente “caso de polícia”, “caso de fórum”, “caso de indenização por danos morais”, caso de rompimento de amizade ou de exclusão de um círculo social, a Democracia será só uma palavrinha bonita inventada pelos gregos há mais de dois mil anos e sobre a qual apenas se faz trabalho de escola no ensino fundamental. Parece que ser intolerante é ser chic…

http://ivannizer.blogspot.com.br/2012/08/no-brasil-discordar-e-quase-tentativa.html

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