A depressão e a esperança duelam em ‘Melancolia’

Os níveis que esse “estado de espírito” podem levar o ser humano num momento apocalíptico

No dicionário, melancolia resume-se assim: 1 Psicose maníaco-depressiva. 2 Estado de humor caracterizado por uma tristeza vaga e persistente. Já melancolismo é descrito como: Opinião ou sistema de quem vê tudo sob o prisma da tristeza. Na imagem, ambas palavras poderiam muito bem serem definidas em apenas uma obra cinematográfica: Melancolia (Melancholia, 2011), do diretor dinamarquês Lars von Trier. O longa traduz um sentimento tão bem esclarecido para alguns e que é tabu para outros, mas que no fim, muitos se sentem assim em determinados momentos. O equilíbrio para domar tal sensação se encontra em medicamentos, família, entre outros. Porém, nada como o fim do mundo para bagunçar com as diretrizes.

O filme narra com maestria um apocalipse prestes a acontecer: o choque de uma planeta, recém descoberto no sistema solar, com a Terra. Nomeado poeticamente de Melancolia, o temor do que poderá acontecer desperta nos protagonistas uma agonia sem fim que os levarão aos limites. São duas óticas: da jovem Justine (Kirsten Dunst) e de sua irmã mais velha Claire (Charlotte Gainsbourg). A primeira está se casando. Vivendo um conto de fadas moderno com direito a uma festa arrebatadora organizada pela irmã. Mas quando tudo caminha para a perfeição, eis que ela questiona: que estrela vermelha é aquela no céu? Por mais que corriqueira seja tal pergunta, já que seu cunhado é interessado a astronomia, esse é o primeiro sinal que a melancolia está se aproximando — seja o planeta ou o sentimento. A partir daí o casório é levado as custas pela família, afinal a moça começa a perder toda a vontade de estar ali, se deixando levar pela introspecção da vida e a tristeza. Começa a agir por impulsos e finalmente toda a tentativa de fazer o dia ser inesquecível e feliz, cai por terra.

A outra ótica começa com Justine chegando ao ápice de sua consternação, debilitada, e sendo amparada pela irmã Claire, uma mulher casada e que vive em equilíbrio com o marido e o filho. Fica claro então que toda a festa e o exagero foram uma forma de fazer Justine sair de sua constante inclinação à escuridão. Mas a aproximação de Melancolia, começa então a mexer com os temores também de Claire. Lentamente, apenas com ele cada vez mais perto é possível desequilibrar aquilo que há tempos parecia inatingível. Claire passa a ficar pessimista. Apesar do marido apoiar-se na fé científica para dizer que há chances de nada de pior acontecer, ela não consegue aceitar. Enquanto isso, Justine tem um momento de passagem, assim como o planeta. Ela aceita sua condição, sua tristeza e passa a seguir adiante. Mais do que isso, ela literalmente se banha com a luz oriunda do misterioso planeta.

Se Claire começa a perder o equilíbrio, é no suicídio do marido — depois de perceber que a sua fé falhou nos cálculos, revelando a fraqueza dos “esclarecidos” — que ela, então, cai em desgraça. A cartase do que fazer quando tudo parece perdido não poderia vir com pessoa melhor: Justine questiona se os meios de se conquistar a tal felicidade estão ali com a música, a dança e a bebida alcoólica, como na festança do dia anterior. O diretor então parte para um surpreendente desfecho, da qual, coloca as duas de frente ao único que não compreende a gravidade do que está preste ao que vai acontecer: a criança. E a única pessoa que um ser humano não buscaria uma palavra de esperança, Justine, pega todos de surpresa: constrói um abrigo dizendo ser mágico, fazendo o menino manter-se calmo, de forma que os protege de toda dor e crueldade do momento. Enquanto Claire fica perturbada.

A obra, apesar de difícil, reflete num contexto autoral do diretor que passava por uma difícil depressão. Sabe-se que ele viveu por maus bocados antes de produzir o filme — deve-se aí o nascimento do difícil Anticristo — e ele desenha aí a sua reflexão, encontrando e mostrando uma esperança quando tudo é poeticamente obscuro. Nada como viver e entender o momento para assim dá a volta por cima. Melancolia é uma obra prima sensível. Abusa de efeitos visuais belíssimos na intenção de fazer um fim do mundo com aparência de uma pintura renascentista. Utiliza de forma estridente a trilha sonora, quando quer explorar as diferentes vertentes da aproximação da(e) melancolia, a fotografia é excelente. Dá uma visão única aos detalhes e ao olhar perdido das protagonistas. E o resultado é excepcional (mesmo que demasiado longo), mas que se palavras descrevem o significado de melancolia, o filme completa de forma irretocável o seu verdadeiro sentido, da qual, nem atitudes reconfortantes e otimistas conseguem mudar o final.


Originally published at projectmonkeys.blogspot.com.br on August 21, 2011.

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