‘Burlesque’ funciona como diversão sem compromisso (para fãs do gênero)

Clichês e a longa duração quase comprometem filme que apresenta bons números

A empreitada pode soar irrelevante e causar indiferença para a maioria das pessoas, mas aos fãs de música pop ou amantes da cultura pop, a ideia de um musical estrelado por figuras icônicas como Cher e Christina Aguilera, consegue causar um certo grau de ansiosidade ou, pelo menos, curiosidade. Mesmo sem inovar e acrescentar algo no que já foi mostrado, Burlesque (EUA, 2010) cumpre seu papel como entretenimento fácil e sem deixar o ostracismo acabar de vez com o gênero musical nas telonas. Nem de longe é o melhor do gênero da última década, mas consegue se sobressair para o público, da qual, foi destinado.

O filme conta a história de Ali (Aguilera) que abandona o emprego sem perspectivas da pequena cidade natal e embarca para Los Angeles, onde busca realizar o sonho de ser uma cantora e dançarina. Em seu caminho, surge Burlesque, uma casa noturna que apresenta variados shows no estilo burlesco. A determinada moça, se embrenha pelo lugar e vira garçonete. Lá conhece os personagens que aos poucos vão intercalando tramas paralelas em meio a apresentações musicais. O interesse amoroso é o barman Jack (Cam Gigandet), que também é compositor; o rico construtor e frequentador do bar Marcus (Eric Dane) — que repete com mais seriedade o que faz como Dr. McSteamy em Grey’s Anatomy; o figurinista Sean (Stanley Tucci), também repetindo o estereótipo usado em O Diabo Veste Prada; a invejosa e principal estrela Nikki (Kristen Bell) e claro, Tess (Cher) a dona do lugar, com imagem dura, mas que se mostra maternal quando necessário.

Se os personagens já são puro clichê, a o roteiro também não contribui em nada. Além da velha história da moça que sonha pela fama, o Burlesque corre o risco de ser fechado e Tess busca alguma forma para incrementar os shows. É então que Ali é descoberta pelo seu bom potencial de dançarina e logo mais por sua voz. A situação melhora quando a moça passa a ser a estrela principal, mas não é suficiente para salvar a casa. Enquanto isso, Ali vai se envolvendo com Jack, esse comprometido (apesar de que a noiva só aparece pra criar stress), e também com Marcus, que visa comprar o estabelecimento e de quebra ficar com ela. As falhas se estendem por: essas aparições de personagens que servem apenas para criar alguma tensão, as soluções que surgem de forma pouco convincentes e banais, além da própria direção que cai em elementos ultrapassados — alguém ainda aguenta uma cena de transa destacando a chuva na janela?

Todos personagens são mal aprofundados — mesmo que isso pouco importe quando se trata estereótipos já resolvidos em outras produções. Mas, o problema mesmo é a protagonista, que diferente das referências de outros musicais como Chicago (EUA, 2002) e Moulin Rouge! — Amor em Vermelho (EUA, 2001), não consegue criar a simpatia importante de heroína. Isso, sem contar na longa duração que também não ajuda a paciência em encarar os erros — mesmo que incrementando variados números musicais. Afinal, se você sabe o que vai acontecer, pra que esticar as cenas mais banais?

Mas Burlesque se defende com as boas performances e isso o diretor Steve Antin se garante como bom realizador. Christina Aguilera, que se sai bem como atriz (ao considerar seu primeiro papel), fica ainda melhor nos momentos em que precisa cantar e dançar. Os figurinos, a maquiagem, o cenário, a edição de vídeo são de grande qualidade e fazem a produção valer a pena à quem esperava por isso. As músicas são igualmente interessantes, mas sem causar maior comoção ou se tornarem memoráveis como algumas de Moulin Rouge, por exemplo. O lado negativo talvez fique com a Cher e uma canção triste — a atriz pode ser um ícone, mas ela não tem expressão facial necessária, não só nos dois números musicais, como nas cenas mais intensas.

De grande parte, a crítica pode se sentir confusa e envergonhada por encontrar virtudes na atração, mas Burlesque é, assim como outros filmes do gênero, um filme para um público destinado. Tem seus méritos e deméritos, mas é inofensivo. Na escassez de obras desse tipo, vale para dar um estímulo e rever os outros grandes musicais lançados e perceber que no geral, quem é fã do estilo, sabe que são certos elementos que os fazem interessantes. Aqui, é a famosa dupla Aguilera e Cher que segura bem a trama, ou alguém acredita que no lugar delas, artistas como, por exemplo, Madonna e Britney teriam o mesmo resultado satisfatório?


Originally published at projectmonkeys.blogspot.com.br on February 27, 2011.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.