‘Cisne Negro’: a assustadora fábula moderna contada com maestria

Um dos filmes mais desafiadores dos últimos tempos

No documentário de Sophie Fiennes O Guia Pervertido do Cinema (The Pervert’s Guide to Cinema, Inglaterra, 2006), o psicanalista esloveno Slavoj Žižek faz uma leitura de grandes obras cinematográficas, e apresenta uma série de exemplos de como o cinema não dá ao público o que ele deseja e sim o diz como desejar. Para isso, utiliza de ferramentas que são comuns (consciente ou inconscientemente) ao espectador, como a psicologia complexa de personagens e seus desafios. Dessa forma, despertam o desejo, mas sempre mantendo uma distância segura, fazendo-o aceitável e fácil de degustar. Quanto mais comercial o filme, menos ele abusa dessa complexidade, e quanto mais autoral, maior a dose de uma nova experiência. A obra de Darren Aronofsky, Cisne Negro (Black Swan, EUA, 2010) não é pra qualquer um, assim como outros filmes do diretor, uns podem gostar, mas fará sentido talvez. Não ao menos que se mergulhe profundamente na trama e, mais do que o costume, uma boa bagagem sobre conhecimentos de psicologia podem fazer do filme uma experiência surpreendente.

Aronofsky apresenta uma história que levou dez anos para ser concluída e rejeitada por diversos estúdios. O filme presta uma homenagem ao balé clássico introduzindo uma atmosfera sombria, e retrata a dificuldade de uma artista compor uma personagem quando se é necessário uma dupla interpretação ao mesmo tempo. Em qualquer forma de arte, interpretar diferentes personagens com personalidade opostas é complexo e desgastante, mas isso é intensificado no balé, da qual, é conhecida pela busca da perfeição. Essa característica e também da superação dos limites e até a autodestruição inconsciente são temas constantes no universo de temas do diretor, mas em Cisne Negro ele cria uma fábula moderna ao mesclar a famosa obra bolshoi O Lago do Cisne com o drama de uma jovem reprimida pela mãe e assim insere todos ingredientes já utilizados anteriormente. Em O Lutador, o protagonista era refém do que lhe dava prazer e do que preenchia sua vida, em Réquiem Para o Sonho, os personagens desiludidos por não alcançarem seus sonhos, cometem a autodestruição nas drogas. Até mesmo em obras menos autorais como A Fonte da Vida, é perceptível esses assuntos.

A trama conta a história de Nina Sayers (Natalie Portman, com atuação irretocável) uma delicada e esforçada jovem, bailarina há anos em uma companhia de balé de Nova York, que tem a chance da sua vida quando o diretor artístico Thomas Leroy (Vincent Cassel) anuncia a encenação de O Lago dos Cisnes. Com a principal bailarina Beth MacIntyre (Winona Ryder) se afastando por ser considerada velha para o papel, Nina e uma novata, Lily (Mila Kunis), vão disputar o posto. Nina sai na frente. Entretanto, O Lago dos Cisnes exige que a protagonista interprete dois papéis: a princesa Odette, o Cisne Branco, que tem a característica de ser frágil, vulnerável e graciosa e Odile, o Cisne Negro, que representa o lado oposto com malícia, segurança e sensualidade. Nina é perfeita como Cisne Branco, mas sua rival, se encaixa perfeitamente como a face negra do Cisne. Com a pressão do treinador Leroy, a jovem é levada a exteriorizar seus sentimentos mais sombrios e assim conseguir a interpretação perfeita para Odile, mesmo que seduzido por Lily para ela viver o papel.

O que poderia ser um trabalho difícil, mas compensador para qualquer artista, no entanto se torna um pesadelo para Nina. A jovem jamais exerceu uma liberdade significativa em sua vida. Sua mãe Erica (Barbara Hershey), uma ex-bailarina que largou o ofício para cuidar da filha, ao mesmo tempo que apóia o talento artístico da filha — pode-se questionar se ela realmente queria seguir o caminho ou foi obrigada -, a trata com um sufocante controle, sem deixar a jovem desenvolver com liberdade seus instintos naturais, como a sexualidade ou a raiva — a falsa liberdade está sintetizada no papel de parede do quarto, com borboletas estampadas, em contraponto da voz estremecida da moça. Nina é cárcere da mãe, uma mulher que teve a vida interrompida e condicionou o resto do seu tempo para ser perfeita com a filha, tanto que não demonstra qualquer sentimento oposto na frente dela, expressando sua desilusão em tentativas repetitivas de pinturas escondidas em um quarto. É aí que Lily se torna para Nina, não apenas alguém para rivalizar, e sim uma opção para buscar o lado jamais explorado, principalmente da sexualidade, sempre de forma inconsciente e assim criando uma tensão e mexendo com a sua lucidez.

Nos bastidores, Thomas força a jovem revelar esse lado reprimido de diversas formas, inclusive ultrapassando os limites com abuso moral e sexual. Ele parece ter o controle do que faz, mas não sabe que isso desencadeia em Nina, uma obscuridade intensificada pela extrema inocência infantil que ela desenvolveu. A transformação em Cisne Negro, vem de forma violenta, cercando-a de ilusões, angustia e medo. Cria-se um alter-ego dentro da mente da personagem, já que ela precisa das características de Lily e assim chegar à perfeição, mas logo é assombrada por ele. Aos poucos, o público vai entrando junto com a personagem num mundo cheio de paranóia, segue a transformação literal e assustadora dela como um Cisne e, ao mesmo tempo, briga com esse alter ego pelo controle do corpo. É nesse sentido, que o diretor capricha nos efeitos visuais e deixa claro que toda fantasia criada pela personagem torna o filme uma fábula cinematográfica moderna. Utiliza a boa trilha sonora mais uma vez criada pelo parceiro de Aronofsky Clint Mansell que mescla com a trilha da obra original assinada por Tchaikovsky, a fotografia que aos poucos esbarra no gênero terror e a edição que faz o público sentir na pele o esforço das dançarinas em cada movimento. Todos os detalhes são muito bem mostrados, desde a rotina das bailarinas, até a pressão que é ser uma estrela perfeita e o lado negativo disso.

Mas nenhum dos artifícios utilizados por Aronofsky, foi tratado com tanta maestria como a utilização dos espelhos em diversas cenas. Sabe-se que o significado deles em termos psicanalistas representa a busca pela identidade através da subjetividade da imagem refletida, o que o ser humano deseja para ele ou a construção de uma realidade. A realização das fantasias e até mesmo o detector de erros. No mundo do balé, ele é uma peça fundamental quando tudo é voltado pela busca pela perfeição. A vontade de Nina ser uma nova Beth, a obsessão pela perfeição, a distorção entre suas personalidades, e a criação do alter ego, são sempre mostradas através dos espelhos. São diversas cenas que estratégicamente ele aparece para nos revelar em que ela está se transformando até chegar ao clímax também em frente ao espelho, em uma luta consigo mesma. Ela é devorada por ele. É no reflexo da janela no metrô, que Nina pela primeira vez vê Lily, e ali já percebe que a jovem é o contraste ideal dela. É também pelo espelho que o alter-ego é criado na cabeça de Nina.

Até que por fim, é no mesmo espelho que quando fragmentado, o alter ego mata o Cisne Branco libertando-se e Nina realiza uma cena cheia de segurança e dança de forma espetacular como nunca antes foi visto durante o longa. E é na volta do real, depois da fantasia perfeita, é no espelho que ela descobre que foi vítima de si própria, e assim como na história que o Cisne Branco — sua verdadeira face — se sucumbiu as características do Cisne Negro, e se feriu — e ainda se aproveitando do estilhaço do mesmo espelho, denotando a morte pela perfeição. É interessante observar também nesse climax, como a trilha sonora, sai dos palcos e é transposta para os bastidores, fechando a modernização da fábula, sem que ninguém esteja assistindo, apenas o público do cinema.

O sucesso de Cisne Negro como obra intensa, interessante, original e sedutora vem com várias características que mexem com os desejos do espectador — o desafiando em cada cena, em cada detalhe. E assim como Slavoj no documentário citou as obras de Michael Powell (Os Sapatinhos Vermelhos), de Alfred Hitchcock (Psicose e Um Corpo que Cai) e diversos outros, que abusam da psicologia para prender o público e tornar-sem memoráveis, Cisne Negro tem uma base sobre psicologia que dá pano para diversas discussões e análises e ainda se sai como obra prima do cinema moderno: é tão perfeito quanto a beleza e a poesia de cisne em um lago — um cisne negro, claro.


Originally published at projectmonkeys.blogspot.com.br on February 10, 2011.

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