Crítica: ‘Girls’ traz realidade crua ao retratar o início da fase adulta

Seriado é excepcional quando na TV tudo é bonitinho e os dramas pouco reais

Muito se falou nesse projeto da HBO que tentava resgatar uma visão feminina do mundo que se perdeu na programação do canal desde o final de Sex and The City. Entretanto, Girls termina uma temporada com uma visão mais realista, melancólica e trágica do cotidiano pré adulto nos dias de hoje — em contraste com a temática glamourizada do seriado clássico. Junto com uma ousadia aos moldes da inglesa Skins que trabalhava em cima do sexo, drogas e festas de adolescentes numa erupção de sentimentos, Girls traz o conjunto de sentimentos dentro de uma protagonista mais retraída, porém, que usa uma certa rebeldia e uma auto vitimização para viver sua vida.

O seriado começa quando Hannah (Lana Dunham), gordinha e neurótica, tem a notícia que seus pais não vão mais sustentá-la e cortando de vez o cordão umbilical numa referência à sua entrada na vida adulta que requer responsabilidades e independência. Ela mora em Nova Iorque com sua melhor amiga Marnie (Allison Williams), que trabalha numa galeria de arte — enquanto Hannah é estagiária não remunerada num escritório. Com o sonho de ser escritora, a jovem vive dedicada ao seu livro e busca experiência para transpor para as as páginas de seu livro.

O contraponto masculino vem na forma de Adam (Adam Driver), jovem narcisista que vive ao encontro com Hannah apenas para sexo (muitas vezes de maneira não convencional). Hannah durante a temporada passa a cobrar mais do rapaz, e ele revela suas intenções reais com ela. O sexo sem compromisso passa de uma relação mais séria, quando, em uma viagem para sua terra natal, Hannah percebe o quanto poderia se conformar com o que o destino iria sugerir para ela, à exemplo de sua mãe. Um casamento sólido e de sexo comum numa entediante cidade pequena. Mas a Nova Iorque funciona como o melhor caminho para Hannah e essa relação com Adam é bem o que se espera do local. Ela aceita isso sem pestanear.

Essa complexidade entre ter de escolher o que é o certo e o duvidoso, é que fazem de Girls uma série interessante, mesmo que não original. Ela busca intensificar essa visão da nova geração de jovens que estão dispostos à desafios impostos pela vida e sem deixar de lado sua personalidade. Hannah é uma antítese de Carrie. Enquanto uma sabia o que queria, a outra está solta na selva da cidade grande buscando um objetivo, cercada de tecnologia, solidão. Como no fim do primeiro episódio, da qual, ela sai do hotel em que estão seus pais e parte para o labirinto entre prédios e ruas, no final da temporada, ela se perde (literalmente) — depois de dormir no trem do metro e ser roubada — e acorda sem rumo, partindo para o lugar mais aconchegante e comum que poderia ir: à praia; e com uma única vontade: de comer. Nada mais realista do que é a nova geração de hoje: é a vítima de suas próprias escolhas, como se houvessem apenas duas opções.


Originally published at projectmonkeys.blogspot.com.br on September 30, 2012.

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