Crítica: ‘Histórias Cruzadas’ emociona com roteiro simples

Questão de discriminação racial focado em mulheres

Em 1985, Steven Spielberg lançou A Cor Púrpura, um épico envolvente, bem dirigido, com atuações extraordinárias e uma produção indiscutivelmente certeira. A história tratava de preconceito “racial” e de sexo. A iniciativa do diretor, que antes era conhecido pelos seus blockbusters, fez a Academia engolir seco ao ver o emocionante drama e lhe indicou para onze estatuetas do Oscar. O resultado todos já sabem, com uma produção constituída de negros, o filme não ganhou nada, tornando se um dos filmes mais injustiçados da história! O diretor que não fora indicado, provou uma coisa: Hollywood apresentava traços racistas.

Cerca de 25 anos depois, diversas produções abordaram o assunto, Whoopi Goldberg — uma das vozes mais ativas em torno do assunto — ganhou seu Oscar, e atores negros são tratados igualmente na premiação máxima do cinema. Eis que surge um novo filme abordando o tema e se aproxima bem perto do que foi visto no longa de Spielberg. Histórias Cruzadas, dirigido por Tate Taylor, fecha o foco no drama da relação entre empregadas domésticas e suas patroas, mas nem por isso deixa de ser especial.

O filme se baseia no romance homônimo de Kathryn Stockett The Help, e conta a história de uma jovem (Emma Stone) que com a ambição de se tornar jornalista no anos 60, começa escrever um livro sobre a cidade Jackson, Mississippi, no auge da definição dos Direitos Civis. O racismo era vigor, ao ponto de empregadas domésticas terem de usar o banheiro fora de casa — no entanto, elas eram mais mães dos filhos dos patrões do que a própria mãe biológica. Tal hipocrisia, as levavam serem alvo de humilhações e destratamento dos empregadores. A jovem busca nessas vozes contrariadas as fontes ideais para o livro, conseguindo histórias de Aibileen Clark (Viola Davis) e Minny Jackson (Octavia Spencer).

Contado de forma leve e com humor, diferente de dramas pesados como Preciosa, a narrativa é singela, sem chegar a surpreender, mas ainda assim prende e emociona quando deve. As atuações são o maior trunfo, desde a espirituosa Jessica Chastain (indicada como atriz coadjuvante) até as mais densas como o caso de Viola Davis e Octavia Spencer — ambas indicadas, sendo que Spencer venceu o Globo de Ouro. A protagonista Emma Stone, até cumpre bem o seu papel, e parece tomar o caminho que seria de Lindsay Lohan — se esta não se perdesse depois de Meninas Malvadas.

Se vai ou não ganhar o Oscar — está indicado ao prêmio de melhor filme -, pouco importa. O retrato foi feito e serve para lembrar que faz poucos cinquenta anos que o mundo ainda emergia claramente um preconceito inexplicável. E mais do que isso, faz apenas 25 anos que ainda era discutível para executivos ligados a indústria premiarem profissionais apenas por sua cor. Pena que até hoje ainda cometam injustiças, mas agora por outros motivos…


Originally published at projectmonkeys.blogspot.com.br on February 7, 2012.