Crítica: mesmo mudo, ‘O Artista’ tem muito à dizer

Francês, sem falas, preto e branco… e apaixonante

A indústria cinematográfica, em especial Hollywood, vive um momento de impasse. A queda nas bilheterias, a pirataria, o abuso do 3D — que muitas vezes só serve para cobrar ingressos mais caros -, fazem da experiência histórica da sétima arte se perder em outras formas de entretenimento. Num momento onde um filme consegue facilmente ultrapassar a barreira de U$ 1 bilhão arrecadados, esses números só servem para maquiar o número decadente de público e outros diversos fracassos. Porém, pelo mundo, tudo ocorre de forma mais lenta, e em alguns países, o números são até otimistas. Não é a toa que Hollywood tem procurado locações de âmbito global para explorar em seus blockbusters, fazendo o máximo para agradar continentes diversos e angariar mais dólares desta maneira. Vale até comprar filmes prontos de outros lugares.

O sucesso dos críticos com o francês (olha aí… assim como O Discurso do Rei, inglês, se sobressaiu) O Artista (The Artist, 2011) revela um sentimento nostálgico que tomou conta deste novo século. No inicio do século passado, as coisas fossem mais fáceis para a indústria, e a novidade deixava o cinema e suas estrelas em primeiro plano. O glamour, a inocência da platéia fazia tudo ficar mais emocionante. O longa se passa entre 1927 e 1932 e o cinema mudo dava seus últimos suspiros, enquanto astros revelados por ele saiam de cena. O protagonista é George Valentin (Jean Dujardin) um arrogante ator que tem a plateia aos seus pés a cada lançamento. Porém, com a tecnologia do cinema falado, os executivos preferem afastar esses astros que “lutavam com as câmeras em cada cena para serem entendidos” — como era o pensamento dos mais jovens. Fã do ator, a aspirante à atriz Peppy Miller (Bérénice Bejo), acaba conquistando seu lugar no estúdio, enquanto, aos poucos, ele vai à ruína. É dela a infeliz frase citada.

Essa crise nos bastidores da indústria, trouxe à tona as mesmas questões que hoje são levantadas. Seja na pergunta sobre em qual lugar estão os grandes astros, cada vez tratados com mais indiferença pelas plateias, e até em que ponto a tecnologia pode emocionar tanto quanto uma boa história, uma boa atuação. Afinal, O Artista define muito bem essas respostas e ainda ousa na forma sarcástica que eram as atuações, a estética, de antigamente em contraste no que é hoje em dia. Pode-se dizer até que existe um certo deboche no tratamento e seriedade da mensagem de antes e hoje.

Além disso, tudo é mostrado com maestria. Fotografia exuberante, edição que consegue manipular a platéia com eficiência, guiado por uma trilha sonora grandiosa, que revive até temas clássicos. É no visual que o filme conquista. Mesmo contado com uma estética clássica, em uma cena ele utiliza áudio para elucidar o pesadelo do protagonista que tinha medo do cinema falado; o cachorro Uggie que rouba a cena contracenando até quando não precisa; cenas que exploram a metalinguagem, misturando vida real com o cinema; e os subtítulos que surgem em momentos importantes e até criam suspense quando necessário.

Estrelas para a indústria nos dias atuais são apenas reflexos de épocas anteriores. Atores mais velhos reclamam que Hollywood aos poucos mata suas estrelas, colocando-os em papéis que não condizem com seu nível ou simplesmente os esquecem no fundo do baú — poucos seguem sendo levados a sério. Por outro lado, a tecnologia pode fornecer vozes, ou dar uma experiência única com o 3D, mas no fundo, o que faz um bom filme, seja basicamente para entreter ou fornecer uma mensagem mais artística, ainda é uma boa ideia que vale mais. No final, o que se leva é a união entre a evolução da técnica e o que representa o cinema. E no filme, a resolução para a triste história do ator rejeitado é esta. Adaptação para algo que expanda gradativamente os horizontes desta fábrica de sonhos e reflexões (até sobre ela mesma).


Originally published at projectmonkeys.blogspot.com.br on February 26, 2012.

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