Desejo e Reparação | O arrependimento, o amor e a guerra
Uma das mais lindas e tristes histórias de amor já feitas
*Publicado originalmente em 16 de Abril de 2009
Segurar as lágrimas ao fim da obra Desejo e Reparação não é tarefa fácil. Uma das mais belas histórias dos últimos tempos consegue de maneira completa marcar o coração até mesmo dos menos sensíveis. Com direção caprichada de Joe Wright, diretor de Orgulho e Preconceito, a adaptação da obra de Ian McEwan possui atuações impecáveis e estética primorosa, sendo difícil encontrar um defeito na jornada épica que mistura arrependimento, amor e guerra.
A história é contada de maneira clássica, subjetiva, com várias cenas que mostram diversos pontos de vista e dividida em três atos. Primeiro a inocência corrompida pelo ciúme. Segundo, vem o arrependimento e, por fim, a reparação.
O filme narra a história de Brioni Tallis (Saoirse Ronan no primeiro ato), uma jovem inteligente que ama escrever. Tudo que vê, é filtrado pela sua mente fantasiosa. No verão de 1935, ainda adolescente, ela deixa aflorar dentro de si um amor platônico pelo filho da empregada de sua casa, Robbie Turner (James McVoy), mais velho que ela. Esse por sua vez é apaixonado pela sua irmã, Cecilia (Keira Knightley). Eis o mote que desencadeia uma jornada cheia de emoção. Brioni cria uma fantasia imensa e um vacilo põe tudo a perder jogando os personagens num caminho sem volta.
O filme introduz um segundo ato impecável. A Segunda Guerra Mundial está em seu auge e o jovem Robbie vê coisas que não imaginaria jamais presenciar. Em uma das mais primorosas cenas que o cinema proporciona, ele caminha numa praia onde o caos da guerra acontece. Sem cortes, ele anda em meio a destruição. São minutos poéticos, porém tristes, de fazer perder o fôlego. O que dizer do coral de soldados? E o beijo cinematográfico ao fundo dentro da sala de projeção, onde ele vai parar? Obra-prima.
Tudo isso é conduzido pela trilha sonora do mestre Dario Marianelli, que também é parte fundamental para a unificação da obra como um todo. Ainda nesse ato, vê-se Brione já crescida e tentando de todas as formas reparar o grave erro que cometeu com as pessoas que ama. Ela se castiga, como se fosse corroída pelo arrependimento. Mergulha nos bastidores do terror da guerra, ferida, buscando sua redenção ajudando como pode. Entre feridos e mortos, ela busca limpar sua consciência.
O filme termina com uma grande cartada, fazendo a história continuar no imaginário das pessoas. Até onde você iria para reparar um grave erro? É possível repará-lo? A mensagem tocante faz lembrar que apesar de sempre estarmos julgando as pessoas, o gesto de perdoar só existe se mudarmos o ponto de vista. É nele que vem a graça de compreender o injusto e o injustiçado.
Elenco de primeira, com destaque a personagem principal Brioni, que é interpretada por três atrizes que mostram muito bem a mudança de caráter da personagem e em nenhum momento deixa a história ficar mal contada. Keira Knightley como já havia provado, continua sendo a melhor escolha para filmes do gênero, possuindo características particulares incríveis, em um momento romântica e, em outro, determinada. James McAvoy consegue ser os nossos olhos diante do que é o caos, destruição… Sonhador, injustiçado… apaixonado.
O arrependimento, talvez, nunca será tão bem refletido nos cinemas. E nem precisa. Desejo e Reparação já fez isso de forma excepcional. *****