Jopa Velozo (dir.) com seu companheiro de banda João Nogueira

Entrevista | Jopa Velozo e o Acadêmicos de Milton Friedman cantam pela liberdade

Músico fala sobre presente, futuro e liberdade


“Os grandes avanços da civilização, sejam eles na arquitetura ou na pintura, na ciência ou na literatura, na indústria ou na agricultura, nunca vieram de um governo centralizado.” — Milton Friedman

É o economista da frase acima, autor de Capitalismo e Liberdade e vencedor do Prêmio Nobel de Ciências Econômicas em 1976, que empresta seu nome ao grupo liderado por Jopa Velozo e João Nogueira. Misturando um pouco de samba e bossa nova, com letras que unem reflexões políticas e cotidianas com um humor cínico e sagaz, o Acadêmicos de Milton Friedman tem chamado atenção.

As influências vão desde os economistas Frédéric Bastiat e Ludwig von Mises até grandes nomes da música brasileira como João Nogueira, João Bosco, Cartola, Adoniran Barbosa, Elis Regina, Tom Jobim.

Na perspectiva musical, o que surpreende logo ao conhecer o trabalho do grupo é a criatividade e personalidade de cada uma das músicas. As composições de João Nogueira e Jopa Velozo trazem bases solidificadas em suas diversas influências, além de apresentarem algo inovador. Não é por acaso o sucesso repentino, antes mesmo do grupo lançar seu disco de estreia. Outro fato é que o grupo Acadêmicos de Milton Friedman é notoriamente formado por músicos bastante competentes e o que fazem parece ser uma uma tarefa bastante agradável e natural para os músicos da banda.

Nas músicas, criticando o modelo político adotado em muitos países da América Latina, sobram ironias à dinastia da família Kirchner na Argentina. A letra “Por Una Cristina”, reflete a crise do país hermano, enquanto o patrimônio de sua estadista não para de crescer. A Venezuela que foi a fundo no modelo socialista também não é perdoada, como fica explícito na música “Bigodagem Bolivariana”. Em “A Copa das Janelas Quebradas”, o evento esportivo realizado no Brasil é o alvo — “é tanta obra a atrasar e teto desabar”, diz a rima. Outra música, Seu Rouanet, é uma crítica direta à Lei Rouanet que aposta na política de incentivos fiscais para artistas com valores deduzidos no imposto de renda.

O Ative traz uma entrevista, em conexão direta de Boston, EUA, com Jopa Velozo, o guitarrista e arranjador, que fala sobre os planos da banda, como eles estão concretizando o objetivo de gravar um álbum, Copa do Mundo, entre outros assuntos.

Como surgiu o Acadêmicos de Milton Friedman?

Jopa Velozo: Eu e o João nos conhecemos quando nos mudamos para São Paulo para estudar música, mas foi somente aqui em Boston que tivemos mais contato e nos tornamos amigos. O processo até o grupo surgir foi bem natural. Primeiro, começamos a falar sobre política na faculdade, depois o João mudou aqui para casa e morou por um ano. Após isso, ele foi morar em New York, mas não perdemos contato, pois ele continuou frequentando aqui quase todos finais de semana (eu e ele adoramos coentro, então, sempre nos juntamos para cozinhar qualquer coisa com coentro). A gente sempre conversava sobre política, escutava música e foi um destes finais de semana “Jopa, por que a gente não faz um samba libertário?”. A ideia inicial era sacanear um amigo nosso, o Torreão, que é sociólogo e socialista, só que achamos aquilo divertido e resolvemos fazer mais. Então, acho que o grupo é fruto deste gosto que temos pelas ideias liberais, pela música e pelo coentro.

A banda começou como uma brincadeira, mas acabou gerando repercussão pelos temas abordados. A intenção é seguir essa linha?

Jopa Velozo: É meio complicado dizer. Pra gente, que trabalha com música, tudo é uma diversão. É algo que a gente gosta de tocar, mas também é sério. A ideia dos Acadêmicos é se manter nesta linha que estamos seguindo e buscando algo que nos divirta.

Então a intenção é deixar o caminho livre sobre ideias e temas? Mas sem deixar de lado o ideal libertário?

Jopa Velozo: Isso. Focamos em temas ligados às ideias liberais e aos debates que rolam na internet, todas as coisas mais caricatas da internet. O grupo liberalismo [no Facebook] é uma boa inspiração (risadas). E a ideia é rir disso tudo.

Vocês seguem o raciocínio “rir pra não chorar”, afinal, a coisa na América Latina está feia…

Jopa Velozo: O processo de criação das músicas é bastante natural, pois buscamos fazer algo que seja divertido para nós. Então, quando criamos algo, os temas já costumam estar nos nossos papos do dia-a-dia e o estilo das letras é parecido com a forma como conversamos sobre estes assuntos.

Sinceramente, eu fico curioso pra saber qual será o próximo tema!

Jopa Velozo: Estamos tentando organizar o nosso disco, então, demos uma parada na parte de compor. Esperamos lançar em breve nosso projeto para arrecadar dinheiro para gravar, pois não temos recurso algum para viabilizar o disco. Vamos depender do envolvimento das pessoas que curtem nossos vídeos. A ideia é fazer um crowdfunding (financiamento coletivo) que viabilize a gravação e produção do disco. O mais importante é fazer o disco. O lado bom é que estamos nos EUA, fica mais barato uma boa gravação.

A música, em diferentes contextos, influenciou e influencia momentos decisivos e históricos, como a luta contra a censura no Brasil, por exemplo. Como o Acadêmicos se vê nessa lógica? Existe uma intenção de mudar as coisas ou a crítica é apenas um detalhe?

Jopa Velozo: Se alguém nos levar a sério, a gente tenta influenciar, senão, a gente tenta divertir. A intenção de mudar algo depende mais do alcance que se tem. No momento, sabemos dos nossos limites, mas, se amanhã temos mais alcance, também podemos influenciar mais. Claro que é legal saber que você está passando uma ideia, mas também existe o foco em fazer algo que seja divertido. No fim, uma coisa soma a outra. Se for chato e ninguém se interessar, não passaremos ideia alguma. Mas somos músicos, então, apesar de eu já ter participado e ajudado muitos projetos e sites liberais, o lado musical ainda é o lado principal.

Como você vê o cenário musical hoje em dia no sentido mercadológico e ideológico?

Jopa Velozo: É bastante complicado, tanto no Brasil, quanto nos EUA. Não tem mágica. Aqui existe mais espaço para tocar sua própria música. No Brasil existe mais a obrigação de tocar cover. Mas não to dizendo que dê dinheiro tocar sua própria música. A diferença é que no Brasil, até para ganhar quase nada você faz mais cover. Aqui existem mais oportunidades, se você quebra a primeira barreira. Mesmo assim, tem muita coisa em comum. Músico ganha dinheiro tocando em baile, casamento, eventos, faz um troco em restaurante e dá aula. É um cenário que se parece, mas aqui ainda tem muitas vantagens, pela qualidade de vida que se tem, mesmo no aperto. Do ponto ideológico, no lado liberal relacionado a música, me surpreende que não exista quase nada nem mesmo aqui.

Curiosamente, o Renato Russo se proclamou um capitalista em uma entrevista e sempre foi um crítico, questionador dos problemas da política nacional… Talvez muitos não falem sobre, deixam sua música falar por si.

Jopa Velozo: Sim, acho o mais adequado. Fazer uma banda para ficar falando sobre livre mercado, individualismo metodológico, sistema de preços e tudo mais é uma chatice. A gente só pode falar destas coisas nos Acadêmicos exatamente através do devido uso da zoeira. Então, qualquer banda que queira algo liberal e mais sério, precisa saber dosar e fazer uma abordagem interessante, mais focada no lado “espiritual” e humano das ideias ideias liberais e menos em teorias econômicas.

Existe uma falta de vontade dentro do mercado tomado pela esquerda? Financiados pelos incentivos de governos?

Jopa Velozo: Eu estava pensando mais nos EUA mesmo. Acho que no Brasil é mais difícil ainda fazer isso. Mas em qualquer lugar, se você não tem dinheiro, nem ninguém para investir e dar alcance ao seu trabalho, o processo começa em fazer a coisa acontecer: gravar demos, fazer EP, disco, shows. Neste nível, ninguém, inicialmente, ganha dinheiro ou vive de uma banda, nem aqui, nem aí. O lado da esquerda ganha porque soube encaixar seu discurso dentro do problema das pessoas e no que elas sentem. Resta aos liberais fazerem algo assim. Os incentivos são lamentáveis, mas não é possível dizer que a música brasileira tá cheia de esquerdistas por causa disso, embora seja possível afirmar que muitos destes artistas hoje vivam disso.

Agora com o resultado desastroso em todos os sentidos, “Copa das Janelas Quebradas” é a música que melhor definiu a Copa do Mundo 2014?

Jopa Velozo: Eu espero que sim (risos). Não conheço muitas sobre a Copa e tenho que puxar a sardinha para o nosso lado (risos). Se você viu a taça que aparece na nossa montagem [em referência a uma caneca de lata], acho que estamos ganhando bem aquela taça mesmo.

Achei que vocês até previram a tragédia que foi a queda do viaduto em Minas Gerais.

Jopa Velozo: Pensei que ia ter mais pancadaria, mas a polícia agiu bem rápido para mostrar que está tudo em paz no Brasil. Claro que se você for assaltado, só se tiver muita sorte vai receber da polícia um serviço que preste, mas quando é interesse do governo, eles trabalham melhor. (No Brasil) estas fronteiras fechadas também, sinceramente, são uma coisa que me revoltam. O povo já é ferrado, pobre e é proibido de comprar até mesmo aquilo que poderia ter.

Aí nos EUA, o que você acha da política do Obama? Tem alguma música nascendo depois de tantos escândalos envolvendo espionagem e afins?

Jopa Velozo: O Obama é um cara que está decepcionando muitos dos que apoiaram ele. Dizem que ele bate recordes de deportações, mas eu não sei exatamente quanto disso é responsabilidade do governo federal, pois as policiais locais e estaduais influenciam muito nesta questão.

Outros projetos além do Acadêmicos? Fale sobre.

Jopa Velozo: Sim, estou com um projeto com o Dennis D’Angelo, que se chama The Plan of the Plain e vamos fazer as músicas aproveitando que temos muitos amigos que são músicos competentes e entusiasmados para gravarmos e explorarmos diferentes possibilidades. É um projecto de rock e iremos explorar alguns temas liberais quando acharmos interessante. Gravamos somente uma música até o momento. Ela se chama Spontaneous Order e está disponível no nosso ReverbNation e na nossa fan page do grupo no Facebook. Nesta primeira gravação, nas guitarras estamos eu, o Dennis e o Vinny da Silva. No violão está o Eduardo Marson, que é um baita violonista e apareceu aqui em Boston, por acaso, bem quando estávamos gravando. O baixo foi gravado por mim e pelo Dennis. O baterista é o Thadeu Lenza, que é um cara incrível e arrebenta em todos os estilos.