Kurt Cobain — Retrato de uma Ausência | A lenda e seus demônios

Documentário sobre um dos maiores ícones de uma geração é uma terapia em grupo

*Publicado em 28 de Agosto de 2009

Surpreendente, Kurt Cobain - Retrato de uma Ausência funciona muito mais que um simples documentário com falas de parentes e amigos sobre o lendário vocalista da banda grunge Nirvana. O que poderia ser mais um em muitos filmes de lendas, misturando polêmicas e elogios, acaba sendo um rico relato do próprio protagonista sobre sua vida. Uma entrevista que ele diz muito mais sobre si próprio, completando sua fala com uma visão pessoal (e pessimista) do presente e futuro. Uma poderosa jornada de auto conhecimento.

O documentário é feito com uma entrevista em off, que serve de base para fotografias sobre os locais em que viveu. Kurt começa com a frase “Ninguém precisa saber tudo sobre mim”, dando o tom inicial, que se alastra durante toda produção — o medo de se expor, mas ao mesmo tempo solta suas frustrações. Conhecemos sua infância, suas dores, seus fantasmas. Vamos crescendo com o músico. Sua desistência em cursar artes na faculdade e seguir com sua banda. Sua opinião sobre os integrantes da banda e a explosiva relação com Courtney Love.

Anti-social, depressivo… Kurt Cobain revela que nunca quis chamar atenção de ninguém. Ele nunca conseguiu lidar com a fama. Demonstra seu ódio pelos jornalistas e ainda escâncara a realidade do mundo do rock. Para ele, os jovens ouvem cada vez menos rock e afirma que agora tudo se transformou em moda. Mesmo nos anos 90, ele já profetizava uma “overdose de realidade virtual” que muitos teriam com o avanço da tecnologia.

Esteticamente o filme foge de todos os clichês de outros documentários voltados para ícones do rock. Não se baseia em imagens raras ou músicas jamais lançadas, mas sim se apoia em um visual limpo e poético. Kurt nem sequer é visto, apenas ouvido — o que ele sempre achou melhor. É como uma terapia, que no lugar de glamorizar o personagem, oferece para o espectador uma forma de se identificar com sua visão pessoal, os temores e desejos do músico.

Transformado pela mídia como uma figura melancólica, triste e rebelde, Cobain mostra quem ele realmente é: um ser humano que teve seus problemas, dilacerado pela fama e o sistema que o levou ao trágico fim. ****