‘Mad Men’ finaliza quarta temporada buscando um novo caminho para o futuro sombrio

Quando a idade começa a pesar, não se pode perder tempo…

Uma das cenas mais emblemáticas desta quarta temporada de Mad Men, que teve seu último episódio exibido neste domingo pela HBO Brasil, é uma em que o protagonista Don Draper (Jon Hamm) está praticando sua corriqueira natação em um clube. Ao nadar percebe que ao seu lado surge um jovem que está no mesmo ritmo que o seu, então, Don querendo mostrar vitalidade e assim ganhar a “corrida” até o outro lado, acelera o nado e finalmente passa o jovem, porém, quando para cansado e tossindo, o jovem já deu meia volta e continuou nadando. Cenas como essas, intensificam o tom que predominou em toda essa temporada: o tempo está passando, as idades começam a pesar e é hora de tomar decisões para fugir do destino sombrio.

Esta temporada de Mad Men representou uma transição da trama para mostrar um plano em que a sociedade caminhava para uma certa estabilidade. O Vietnã era uma pedra no sapato dos americanos, mas é a gravidez de Joan (Christina Hendricks), da qual, ela evitou interromper, que revela os bons tempos que estão por vir, isso pelo menos, se a verdade não surgir à tona (momento paradoxal da reflexão). As mulheres que sempre são muito bem retratadas condizendo com o tempo na trama, ganharam um espaço muito maior. Uma das cenas no meio da temporada que confidenciam tal característica, está no final do episódio que termina numa mesa de reunião, da qual, Joan está sentada no centro com os sócios em volta, como se ela fosse a ferramente principal que faz o negócio acontecer; em outro episódio, três mulheres, Peggy (Elisabeth Moss), Joan e Faye (Cara Buono), dividem o mesmo elevador e transpareciam uma coisa em comum: estavam lutando pela independência naquele lugar machista e arrogante.

Joan e Peggy, que são as principais em um escritório masculino, fazem a diferença e abrem as portas ao novo tempo. A primeira teve um momento de fraqueza ao voltar se relacionar com Roger, e apenas quando a gravidez a coloca em uma sala à espera do aborto junto de uma mãe desesperada e acompanhando a filha, que percebe o seu lugar no tempo. A mãe a pergunta quantos anos tem a “sua filha”, e Joan tem um momento de reflexão. Peggy já vivia o dilema da mulher moderna. Conciliar trabalho com a vida pessoa começa a pesar e, para mulher, a cobrança é bem mais pesada quando sua família a pressiona por ela seguir um modelo tradicional de dona de casa. Para piorar ela ainda passa por problemas ligados ao preconceito dentro do próprio ambiente de trabalho.

Essa mudança é basicamente um arco que começou no início da temporada, quando uma das secretárias é alvo de assédio moral por Don. Na cena final desta temporada, o diálogo de Joan e Peggy é especial e fecha o ciclo. Don escolhe a nova secretária, Megan Calvet (Jessica Paré), para casar e causa um conflito em ambas. Mostra que apesar de tudo que elas fazem pela agência, a postura social delas na hierarquia é a mesma que uma secretária pedida em casamento por um dos sócios. Elas servem como um mero objeto sexual ou apenas para serem esposas (a secretária sendo amável com as crianças foi o momento em que Don a escolheu, afinal, preferiu a secretária ao invés da bem sucedida Fayer, que provavelmente dividiria o mesmo espaço que ele na sociedade — fica implícito aqui também que Fayer errou ao achar que o problema de Don era o passado, o casamento, enquanto tudo estava relacionado ao futuro incerto). Essas mudanças ocorreram sutilmente, mas o mundo machista não dava valor.

Esta temporada trabalhou também a evolução de cada personagem. Vimos um Pete Campbell (Vincent Kartheiser) seguindo os passos de seus sócios mais velhos, em especial de Don, mas sem deixar de lado sua família; Roger (John Slattery) e sua constante crise de meia idade — o episódio que mostra como Don entrou na agência devido à uma ressaca sua, foi genial (aqui entra a questão do abuso de drogas da época); Sally (Kiernan Shipka), filha de Don e Betty (January Jones), conheceu um vizinho que aos olhos da mãe era uma má influência, o problema é que a mãe é o próprio vínculo com problemas que atrapalha o crescimento da filha; e a própria Betty que foi o lado mais fragilizado do divórcio, já que continua mimada e ainda não conseguiu desvencilhar do ex-marido, guardando suas angustias em momentos de solidão literal — a cena neste episódio final, da qual, eles se encontram na cozinha, é possível ver como ela está mal e ele parece ter superado o que eles passaram.

Outro tema abordado com clareza e que foi um divisor de águas, foram as grandes empresas de cigarro que abandonaram a empresa e geraram todos problemas possíveis. Por outro lado, já era possível ver uma base engajada do governo buscando uma forma de alertar sobre os perigos do cigarro — o problema é o controversa do discurso, já que todos da sala se diziam fumantes. Nesse período fica claro que as agências de publicidade eram financiadas pelas gigantes do setor, mas mesmo assim, também começavam a dar sinais de decadência. Resta esperar se o seriado vai chegar neste momento nada glamuroso da profissão.

Melancolia, personagens complexos e humanos. Mad Men fez uma temporada primorosa assim como foram as outras três. Um seriado que o impactante está nas cenas que retratam e captam bem uma época cheia de contrastes e uma imensa mudança de valores. É possível atrelar tais semelhanças ao nosso tempo e programas de época semelhantes, mas o glamour, o universo construído dentro da mente sombria de Don Draper são garantia dos momentos mais introspectivos da TV. Em Mad Men, os tempos estão mudando e a sociedade evoluindo, mas dentro dos personagens só há uma questão que prevalece: o importante não é vencer a corrida contra o tempo e a idade e sim continuar nadando, mesmo sendo ultrapassado, pois a solidão e o vazio existêncial latente se apoderam de qualquer corpo parado no tempo. Draper olha pela janela e reflete, mais uma vez, sobre seus atos e o futuro.


Originally published at projectmonkeys.blogspot.com.br on June 28, 2011.

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