‘Prometheus’ se complica no excesso de símbolos e referências

O retorno de Ridley Scott ao universo de ‘Alien’ ainda assim é bem-vindo

Em Contato, obra do renomado astrônomo Carl Sagan (1934–1996), lançado em 1985, a protagonista Ellie Arroway é uma astrônoma apaixonada pela ciência, da qual, cria uma certa obsessão em cruzar a fronteira do desconhecido e fazer contato com seres de outro planeta — ou seu falecido pai. Sua incansável busca acaba tendo um resultado promissor e isso a levará à uma jornada em que a fé e a ciência se duelam sobre a necessidade de conhecer os segredos que cercam a vida. No fim, ela se vê presa entre a razão e a fé quando é colocada numa situação em que passa a ser desacreditada (o longa de 1997, dirigido por Robert Zemeckis intensifica a questão). Não deve ser coincidência que a protagonista de Prometheus (EUA, 2012) se chame Elizabeth, mas todos se referem à ela como Ellie. E também David, o único robô da nave tenha o mesmo nome do robozinho sentimental de A.I. Inteligência Artificial (EUA, 2001), obra de Steven Spielberg baseado em um conto de Brian Aldiss. Muito em Prometheus é referência, desde o nome, passando por sua existência oriunda do filme Alien e por aí vai.

E a história de Ridley Scott capricha nesse sentido. A história tem a premissa da busca pela origem da vida, feita por uma equipe de exploradores rumo à uma lua que, desde milhares de anos, tem sido sinalizada como a casa dos seres que moldaram a história da humanidade. O embate entre a fé e a ciência não se limita em flashbacks sobre como a protagonista se tornou religiosa, porém, cientista, ou em mostrar simbolismos cristãos nos demais personagens — tatuagens, crucifixos, árvore de natal, a idade de Cristo em paralelo à existência da espécie que chamam de “engenheiros”.

O nome da nave — que dá origem ao título — vem da mitologia grega partindo da lenda do titã Prometeus, defensor da humanidade e responsável por roubar o fogo de Zeus e o dar aos mortais. Como castigo, punido-o por este crime, Zeus deixa-o amarrado a uma rocha por toda a eternidade enquanto uma grande águia comia todo dia seu fígado — que crescia novamente no dia seguinte. Então, o nome vai ter sentido com o contexto da história. O sacrifício que é repetido inúmeras vezes em prol de alguma espécie. Seja no personagem infectado que aceita ser queimado para não por em risco a nave; no fim do filme o ato suicida do comandante de jogar a nave contra a outra alienígena; no início do filme quando o engenheiro aceita tomar o veneno e assim começar a vida em algum mundo (não fica claro e pouco importa se é a terra); a criação do Alien, saindo das entranhas (analogia literal) dos corpos que servem como hospedeiros (sacrificando-os) para o novo ser, entre outros.

Mais simbolismos se encontram na importância dada a sexualidade. A heroína infértil, a coadjuvante frígida e orgulhosa (Charlize Theron), os engenheiros com traços de humanóides do sexo masculino, o ato sexual em si, o parto, as primeiras criaturas que lembram formatos fálicos. Mas nada chega perto do tom bíblico por trás de outra interpretação. Deixando sub entendido que Jesus (mais sacrifício) poderia ser um salvador vindo do espaço, até sobrepor que o Alien nada mais é que fruto do pecado quando experimentado — seja na prova do veneno que mata o engenheiro e cria o que poderia ser os humanos, até o sexo que de forma indesejada dá vida à uma criatura que logo quando misturado com o branco engenheiro, cria o temeroso e destrutivo Alien. Afinal, os humanos do filme também são pecadores. A busca pela vaidade (a eternidade), a luxúria, o egoísmo, a inveja, a ira, a preguiça e o orgulho. Em algum momento a perfeita harmonia da nave só é desfeita com os atos incontroláveis desses humanos. Seria o Alien filho dessa união entre o orgulho de uma espécie pura com o pecado dos humanos? E o sexo entre eles, de forma indireta, foi a conexão de seu nascimento?

Filme como filme

Todas essas interpretações e questões são o que salvam o filme dele mesmo. Graças a obsessão de fãs de ficção científica e da série Alien, o longa tem sobrevida em críticas e fórum de discussões entre os seguidores. Afinal, apesar de um roteiro que dá margem à diversas interpretações, ele é falho como cinema. Problemas de continuidade, pouco aprofundamento nos personagens, poucas cenas de suspense. Na verdade, Prometheus acaba soando como Alien, o Oitavo Passageiro, que em 1979 trouxe uma história, e engrenou uma bem sucedida série, mas não é um grande filme além do gênero. A ação do filme e seus personagens também são tratados da mesma maneira agora. Apesar de explicar algo, o longa espera que respostas sejam mostradas em continuações. Só que, o que faz o filme de 79 marcante é essa interrogação que da origem de tudo. Na hora de explicar, o pouco cuidado com Prometheus quase joga fora a oportunidade de ouro de abrir ainda mais os horizontes de uma nova franquia e explicar a antiga.

Junto com o ponto positivo que está na inteligência do espectador em tentar ligar os pontos, estão os efeitos visuais deslumbrantes — desde o design dos planetas e luas mostrados, até as naves e veículos terrestres. A fotografia, a trilha sonora estão afiadas. Mas o que se destaca está a performance certeira de Michael Fassbender como David. Sendo debochado, irônico e leal a quem realmente manda nele (uma boa explicação sobre suas ações questionáveis). Os outros fazem um trabalho sem grandes destaques, sendo que Noomi Rapace tem muito que aprender com Sigourney Weaver — uma das mais marcantes e viris heroínas do cinema.

Deixando de lado tanta complexidade do roteiro, confundido ainda mais com os percalços. Prometheus pelo menos cumpre com cuidado sua função em explicar a criação dos Aliens. Mesmo pecando na forma de não conectar os dois filmes (as luas não são as mesmas, dando mais um nó na cabeça dos fãs), quando o filme faz referências ao universo já mostrado quatro vezes no cinema, o trabalho mostrado é gratificante. Seja no parto horripilante do ser, ou todas as caraterísticas que a vida Alien está brotando por ali.

Felizmente, mesmo escrito em linhas tortas, Prometheus é um bom filme. Entretém com visual fantástico, história interessante e atuações na média. Infelizmente, os excessos de pontas soltas sem explicação deixa o espectador com uma estranha sensação ao final. Não um sentimento de deslumbre como em fitas intrigantes, da qual, foram Cisne Negro e A Origem, mas uma pequena decepção que tudo tomou um rumo tão “bíblico” e mal explicado. Sorte que as referências acabaram deixando o longa com qualidades, e se a Ellie de Contato decidiu acreditar que a busca estava no começo, a Ellie de Prometheus quer desbravar esse universo à qualquer custo, sem pensar nas consequência — que se mostraram perigosas a cada passo dado, mas é isso que os fãs gostam, mais desafios e, inevitavelmente, perguntas a seguir.


Originally published at projectmonkeys.blogspot.com.br on June 17, 2012.

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