Breaking Bad

Séries em 2014: as vinte melhores temporadas

E o ano que vi clássicos

A era de ouro da TV continuou trilhando sua excelente fase (não sei bem se devemos usar mais “TV” para identificar seriados, afinal, ela virou apenas uma plataforma qualquer, após a chegada triunfal dos sites Netflix e Amazon, entre outros, na jogada). O importante é que a qualidade se manteve alta, mesmo com alguns shows terminando o seu ciclo.

Continuo evitando a programação de emissoras abertas (principalmente do Brasil) porque é raro encontrar uma produção estável e que também consiga sair da primeira temporada. Dupla Identidade, da Rede Globo, parecia ser uma aposta certa, mas o que se viu foi uma tentativa instável de seguir um modelo estrangeiro, sem ousar — mesmo que o gênero policial esteja surpreendendo com séries como The Killing, The Fall e Broadchurch.

Apesar disso, a Rede Globo também apresentou ao público minisséries de impacto como Amores Roubados e O Rebu. A primeira não assisti, mas a segunda acompanhei e, apesar da ousadia da narrativa pouco convencional, não convenceu como prometia. No Estados Unidos, a TV aberta tem se esforçado para melhorar a qualidade, até mesmo preferindo diminuir algumas séries e apresentar 13 episódios sólidos, assim como é em outras mídias.

Por outro lado, a TV a cabo brasileira tem exibido uma programação de séries nacionais de qualidade. A HBO Brasil veio com Psi e mais uma temporada de O Negócio (sucesso de audiência); o GNT com novas séries, além das já consagradas 3 Teresas e Sessão de Terapia; e outras emissoras como a FOX também estão investindo no estilo.

O ano 2014 foi um ano importante no meu estudo (e também lazer) relacionados aos seriados porque assisti, graças às reprises, uma das séries mais cultuadas da década passada: Six Feet Under (A Sete Palmos). Foi uma grata surpresa, com um roteiro rico em metáforas, reflexões, humor e dramas. As atuações também se destacam em meio uma narrativa surpreendente, bem original.

Também foi o ano que assisti a primeira temporada de The Sopranos (Família Soprano), em reprise no Cinemax. O seriado sobre máfia vai além do estereótipo e não perde o respeito pelas obras que ela reflete como O Poderoso Chefão. Elenco afiado, roteiro inteligente e envolvente. Sem dúvidas merece tudo o que conquistou. Ambas são produções da HBO.

Outra que conheci esse ano foi Doctor Who, da BBC, uma série que existe há 50 anos, mas teve sua produção retomada em meados dos anos 2000. Misturando ficção científica e fantasia, a série é leve, com efeitos duvidosos, mas evoluiu durantes as oito temporadas realizadas após o reinício da produção. Vale a pena conhecer!

Mas vamos ao que interessa, essas são as 20 melhores temporadas que escolhi para preencher uma lista que visa qualidade e relevância. Estão escolhidos apenas programas que foram exibidos de forma legal no Brasil:

20 — The Knick (Cinemax, 1ª temporada) — Essa série de época com produção de Steven Soderbergh mostra as desventuras de um hospital nos primórdios da medicina moderna, no início do século 20. Estão lá o racismo, a falta de infra estrutura, drogas, interesses por todos os lados, religião… Clive Owen segura a estreia, apesar de episódios fracos.

19 — Looking (HBO Brasil — HBO, 1ª temporada) — O seriado que vem na cola de Girls, muda a forma como os gays são tratados na TV, mostrando que apesar de alguns estereótipos se confirmarem, eles são melancolicamente humanos como qualquer outro. Bem dirigida e com uma trilha fenomenal.

18 — Boardwalk Empire (HBO Brasil — HBO, 5ª temporada — Final) — A série de Martin Scorsese é de uma qualidade impressionante. Talvez uma das produções de época mais bem realizadas dos últimos tempos. Apesar disso, ela se despediu deixando uma impressão que faltou algo nessa jornada de poderosos marginais no período da Lei Seca. A sede pelo poder foi interrompida não pela justiça de leis e regras, mas sim por um erro do passado. Erro esse, que mais humano é impossível.

17 — O Negócio (HBO Brasil, 2ª temporada) — As garotas de programa conseguiram o que queriam, que era colocar a sua marca no mercado de luxo. E agora? Mais que uma série sobre sexo, O Negócio evoluiu para explorar o lado complexo de suas protagonistas. O resultado foi menos gemidos e nudez e mais reflexões. E marketing, claro.

16 — Game of Thrones (HBO Brasil — HBO, 4ª temporada) — Depois de algumas temporadas um tanto confusas, a série medieval e de fantasia tem conseguido se segurar sem recorrer aos excessos. Acontecimentos importantes que deram fôlego à essa saga imperdível. Desta vez, as intrigas no jogo do poder seguraram mais atenção do que o sangue gratuito.

15- Penny Dreadful (HBO Brasil — Show Time, 1ª temporada) — Outra série que veio para confirmar que os seriados estão com a qualidade de cinema. E também seus atores. Eva Green estrela e encanta nessa produção que teve uma primeira temporada um tanto instável, mas deliciosamente interessante. Trata-se de uma produção que une personagens clássicos da literatura de terror que buscam dominar seus desejos e buscam se livrar das maldições que lhes seguem numa época bárbara e sombria.

14- The Walking Dead (FOX Brasil — AMC, 4ª temporada parte 2–5ª temporada parte 1) — Depois de um arco decepcionante (O Governador), a série de zumbis cresceu e explorou ainda mais os protagonistas dessa dolorosa jornada no apocalipse humano. O que parece é que, aos poucos, os sobreviventes vão, nessa busca pela segurança e esperança (sempre tropeçando em diversas outras formas de organizações sociais), perdendo aos poucos o senso de humanidade. Estão se convertendo à brutalidade, insensibilidade e se alimentando do medo. Os que não se adaptam nesse novo mundo, morrem.

13- 3 Teresas (GNT, 2ª temporada) — Passando pelos relacionamentos frustrados, aos desafios da vida e ao luto precoce. 3 Teresas é daquelas séries gostosas de acompanhar por retratar simples histórias com muita sensibilidade e um ótimo roteiro. Esta temporada mostrou que apesar de todos os problemas, essas três mulheres encontram na cumplicidade entre elas uma forma de seguir adiante.

12- House of Cards (Netflix, 2ª temporada) — A obsessão pelo poder guardou mais alguns momentos absurdos nos bastidores da política. E desta vez, o mundo digital esteve presente — e se mostrou também dominado pelos chefões da política. Quem perde, claro, são os que estão na outra ponta da corda. Esses são riscados sem dó nem piedade.

11- Silicon Valley (HBO Brasil — HBO, 1ª temporada) — Era possível imaginar que uma série de nerds do Vale do Silício poderia ser tão engraçada? Com tiradas excelentes e ótimas atuações, Silicon Valley fez uma temporada de estreia estável e prometendo muito para a próxima. Mostrando desde como é a tumultuada briga pra quem consegue ser melhor em novas tecnologias e ideias, até a criação de uma empresa própria, a série vai também explorando a relação entre esses novos gênios que, na realidade, são apenas medrosos com milhões na mão e que podem voar delas a qualquer momento. O mundo da tecnologia precisava dessa sátira.

10- Hannibal (AXN — NBC, 2ª temporada) — Subestimada pelo público e pela crítica, a série do famoso canibal, inteligente e charmoso, chegou à sua segunda temporada com ingredientes a mais. O resultado foi uma sangrenta — e bela — caminhada pelo labirinto da mente dos protagonistas. Esse terror psicológico assusta muito mais.

9- The Killing (AMC/Netflix, 4ª temporada — Final) — Acabou de forma rápida a história dos dois detetives que buscavam muito mais do que pistas de assassinos, mas também desejavam encontrar a redenção de suas almas. Fugir de suas vidas pessoais e evoluir como seres nesse mundo sombrio. E onde encontraram? Na própria amizade entre eles. No fim, ela sorriu, finalmente.

8- Nurse Jackie (Studio Universal — Show Time, 6ª temporada) — Jackie passou por tudo o que se esperava finalmente nessa temporada — o fundo do poço e a reabilitação, dessa vez completa. Entretanto, uma vez viciada, pra sempre viciada. Sua filha segue seus passos, enquanto a mãe continua mentindo, traindo, mas ainda guarda um coração cheio de compaixão. E foi essa dualidade que a levou para a cadeia. Então, como será o fim dessa história?

7- Veep (HBO Brasil — HBO, 3ª temporada) — A sátira da política norte-americana entrou no clima das eleições e conseguiu arrancar muitas risadas. Crises diplomáticas, briga entre os assessores, campanha eleitoral… E não é que a Veep agora é presidente?

6- True Detective (HBO Brasil — HBO, 1ª temporada) — A grande estreia que conseguiu prender a atenção do início ao fim e ainda ser aclamada pelo público e crítica — mesmo sendo um pouco confusa nos primeiro episódios. Era difícil a HBO deixar que uma produção tão bem cuidada com atuações de astros de cinema se perder por aí. True Detective estreou mostrando que o tempo não passa de uma ilusão. E são as questões cruciais que enfrentamos que criam o compasso da vida. Para os protagonistas da série, essas questões são pautadas em um caso horroroso e misterioso.

5- Sessão de Terapia (GNT, 3ª temporada) — Essa temporada, que acabou sendo a última, mostrou que Sessão de Terapia chegou longe com sua ousadia em ter como base os dramas cotidianos de um consultório e fazer disso um programa extraordinário. A poderosa figura do psicólogo Théo se diluiu em seus dramas pessoais — divórcio, morte do pai e um filho viciado em drogas — mas ainda, assim, ele conseguiu auxiliar pessoas que precisavam de sua ajuda. Atuações poderosas, direção de primeira e um roteiro tocante. Vai deixar saudade.

4- Girls (HBO Brasil — HBO, 3ª temporada) — Depois de Hannah voltar a ser criança e ser resgatada pelo príncipe encantado no fim da segunda temporada, chegou a hora de mostrar como é depois do final feliz e também de entender como é a morte para essas “jovens adultas” — o assunto pairou em diversos episódios. Aos poucos, as garotas vão tropeçando, caindo e se levantando — ou não. Às vezes, elas preferem ficar no chão rastejando. Mas o tempo está passando e a vida não para.

3- The Good Wife (Universal Channel — CBS, 5ª temporada) — NSA, morte, culpa, intrigas… É tanta coisa acontecendo em The Good Wife que 22 episódios não parece o suficiente. Mas, apesar de tantos acontecimentos, ainda dá tempo para a história ter “casos do dia” incríveis sem perder as histórias individuais de seus protagonistas. Um seriado de alto nível.

2- Mad Men (HBO Brasil — AMC, 7ª temporada parte 1) — Don Draper deu o tempo necessário em seu trabalho e foi buscar por fora uma nova forma de se reencontrar. A jornada desse complexo homem está terminando e ele caminha perdido num mundo em transição. Com o trabalho de volta, resta saber o que é mais importante que a realização profissional. O que é?

1- Breaking Bad (AXN — AMC, 5ª temporada parte 2 — Final) — Como se tornar o maior traficante do país e depois perceber que o caminho percorrido foi errado? O câncer da obsessão foi longe, arruinou pessoas ao redor, interrompeu sonhos e amizades. Entretanto, o maior anti-herói que o mundo das séries já viu encontrou uma saída para conter a doença que se espalhou sem dó nem piedade.

A conclusão de uma das séries mais importantes da história da televisão aconteceu e deixou tudo tão certo que é um alívio saber que essa história está enterrada e merece todo o respeito. Roteiro ágil e inteligente, interpretado por atores excepcionais. Uma história intrigante, complexa e emocionante sobre um indivíduo cansado de viver de forma patética, vê em seu câncer uma desculpa para viver à sua maneira. Porém, mal sabe ele que a doença que o arruinaria, seria essa sede sem fim pelo poder. Descanse em paz, Walter “Heisenberg” Whitman.

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