‘Skins’ termina boa temporada sobre identidade e aceitação, mas segue com futuro sombrio

Série inglesa finalizou bem apesar da baixa audiência, e se prepara para uma nova — e incerta — era

Saiu de cena há algumas semanas a quinta temporada da polêmica (ainda é?) série inglesa Skins, exibida pelo E4 Channel por lá, e no Brasil pela HBO Plus e VH1 Brasil. Assim como ocorreu outras duas vezes, um novo elenco foi formado, apagando de vez vestígios dos personagens anteriores e dando nova cara aos drama “reais” de jovens ingleses. E depois de tantos anos influenciando diversos outras séries pelo mundo, o seriado aos poucos começa mostrar sinais de desgaste, mesmo amadurecendo e deixando de lado o excesso de cenas de sexo e drogas. A audiência caiu consideravelmente nesta temporada, que finalizou com apenas 600 mil telespectadores contra 1,1 milhão da temporada passada.

Começar dar sinais de desgaste na quinta temporada, hoje em dia, é um privilégio para poucos. No entanto, o caso de Skins é meio perigoso. A ousada atitude de mudar de elenco à cada dois anos, mesmo que um ato para evitar a escassez criativa também, de certa forma, trai a audiência que fica sem saber o destino final dos personagens. Parece um pouco de preguiça dos produtores cortarem as estórias no meio e assim evitar o clímax que é um marco em qualquer série de drama. A ideia de que foi mostrado apenas um frame da vida de um jovem qualquer, cai por terra, já que muito das estórias narradas, são cercadas de absurdos pouco verossímeis. É aguardar pra saber se esse filme que promete contar o que ocorreu nas duas fases anteriores, realmente saia. Mas uma coisa é unânime entre críticos e fãs do seriado: a temporada que apresenta os personagens é, geralmente, a melhor. Na duas fases anteriores, um acidente e uma doença conseguiram segurar o ritmo das respectivas temporadas seguintes, mas não foram episódios tão memoráveis quanto o do conflito entre um amigo muçulmano e um gay, ou um sobre o garoto africano e o choque cultural ao ter de abandonar sua terra, e ter de viver em Bristol, por exemplo.

Nesta quinta temporada conhecemos novos personagens e dramas, mas algumas situações que remetem à outras já usadas antes (segundo sinal do desgaste). Quando falei aqui que o primeiro episódio dessa nova fase foi o melhor, não foi à toa. Se a personalidade e o amadurecimento são de praxe os principais assuntos tratados no roteiro em outras fases, agora, saem os personagens mais seguros e em busca de ultrapassar seus limites e caminhos, e entram àqueles que buscam uma identidade e aceitação. Óbvio que essas duas características já foram utilizadas antes, porém, em tempos de debate sobre bullying, esta temporada começou de maneira surpreendente e finalizou de forma espetacular. Isso graças a personagem de Franky (Dakota Blue Richards), uma jovem insegura, que tem dificuldades em se encontrar. Sexualmente ela é perdida e isso se reflete em sua aparência e atitudes. Enquanto temos os outros pertencentes às suas tribos e buscam aceitação de seus familiares, principalmente, ela se difere e busca sua própria aceitação. Afinal, Franky já tem essa aceitação, não coincidentemente, de pais homossexuais. No final temos tudo para ilustrar que ela está no limite, é ‘induzida’ a ter uma relação homossexual, uma bissexual e até finalmente uma heterossexual. Corre perdida na floresta e termina no melhor estilo do filme À Deriva de Heitor Dhalia que também trata sobre adolescência: fica à beira de um precipício.

Outros temas abordados, conseguiram episódios tão bem feitos e poéticos que até o conto de fadas, da qual, a personagem de Grace (Jessica Sula) vive, foi conduzido com maestria. Ela encontra seu amor no fã de heavy metal, Rich (Alexander Arnold), vive numa masmorra com o pai metódico e diretor do colégio e sua mãe apática. Termina em casamento, pela primeira vez na série e em um castelo. O casamento entre eles ocorre numa maneira simbólica de mostrar o amadurecimento do seriado, mesmo que reiniciando os períodos, e também serviu para selar a vida desta jovem, sempre tratada como uma princesa, mas que finalmente entendeu que devia deixar de ser a coadjuvante e a utópica princesa e estrelar sua própria peça, ou seja, a vida.

O episódio sobre o caipira Alo (Will Merrick) foi um dos marcantes, ao fazê-lo perceber que a tradição de sua família, poderia calar suas aspirações, como ocorreu com seu pai. Caso parecido tivemos com Nick (Sean Teale), irmão do rebelde Matty (Sebastian De Souza). O pai o pressiona a ser perfeito, diferente do irmão, e assim se descontrola, pois todos o vêem como um idiota. A cena dele em campo errando o gol representa bem isso, ele não era perfeito como seu pai o julgava e agora tudo estava uma bagunça. Queimar o que o pai pregava foi o caminho encontrado pelos irmãos, assim como tirar a pesada pedra do caminho, que todos evitavam, no caso de Alo.

Mini (Freya Mavor) também teve um bom episódio sobre ser perfeita e vestir uma identidade que na verdade é de sua mãe, e não sua — perto do final, ela literalmente se veste como a mãe. Nesse episódio ainda teve a temática perda da virgindade contada com capricho e um final bem conduzido, mesmo que uma rosa sendo despedaçada e balanço seja deixado de lado em um playground infantil, pareça clichê. No final, ela segue com sua mãe para casa. Mas sabemos que Mini, mais à frente, demonstra ter mudado, e sua sexualidade e atração por Franky deverá render bons momentos. É esperar para saber como vão lidar com essas questões levantadas. Com a saída de um dos produtores, que diz esgotado seu potencial de desenvolvimento de novas situações e histórias para a série, o futuro de Skins está garantido para mais uma temporada e provavelmente a última.


Originally published at projectmonkeys.blogspot.com.br on April 18, 2011.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.