Um belo olhar do vazio humano em ‘Um Lugar Qualquer’

Sofia Coppola faz filme interessante e entediante — como deve ser

O culto a celebridade é algo que tem cada vez mais tomando conta das ferramentas midiáticas de uma maneira bem violenta. Hoje em dia, é difícil ligar a TV e não se deparar com celebridades instantâneas ou novelas, reality shows e seriados que buscam o novo ídolo, ou tem como protagonista ele próprio. A cultura do sonho americano de ser rico e famoso é vendido para crianças e jovens de forma que toma proporções globais. O último grande sucesso de bilheterias traz a lenda Coelhinho da Páscoa como um personagem faminto por ser um astro do rock. Enquanto esse vendaval de futilidade e encenação não acaba, do outro lado, sobra para os muitos tablóides sensacionalistas cobrirem a sujeira de astros decadentes, envolvidos com excesso de drogas, comportamento violento e problemas familiares. O cinema já mostrou essa faceta de diversos nomes famosos que foram despedaçados, mas ninguém sabe contar sobre esse ostracismo proveniente da fama e do poder como Sofia Coppola.

Um Lugar Qualquer (Somewhere, 2010) é um filme entediante. Do começo ao fim, nos leva numa rotina banal de um ator hollywoodiano, que vive sua pacata vida em Los Angeles, cercado de mulheres, o luxo e ao mesmo tempo, o nada. Somos convidados a vê-lo fumando, bebendo, assistindo shows particulares de gêmeas que fazem uma particular dança sensual. Mas isso é tão comum que dá até sono nele. Esse é Johnny Marcos (Stephen Dorff), que viu sua carreira chegar ao topo de forma meteórica e agora vive do que a fama traz de bom e melhor — é o que disseram à ele. Menos, claro, uma definição de quem afinal é ele mesmo. Mas Sofia não é pessimista e incorpora uma personagem bem vinda e que ajuda a guiar no entendimento da narrativa. A filha dele (interpretada por Ellen Fanning, irmã de Dakota) aparece em cena, e traz problemas para ele resolver. Que problemas? Preencher o tempo que esteve ausente, sempre e viajando e gravando filmes.

Conferimos uma partida de Guitar Hero entre os dois, uma viagem à Milão — onde ele vai receber um prêmio internacional -, o café da manhã, um banho de piscina, uma viagem à Las Vegas, e alguns momentos angustiados da jovem que sente falta da mãe. No momento de voltar à sua solidão e a rotina de sexo e drogas (nada além de bebidas e cigarro), é que Johnny tem um crise existêncial e liga para a companheira de seu último trabalho, provavelmente, da qual, ele fez sexo sem compromisso como de costume. Mas ele se abre e diz que é um “nada”. Neste momento, ouve-se a frase que todos esperavam e identifica toda a mensagem do filme. É apenas quando a filha vai embora, um momento familiar e de alguma forma o fez sentir importante e que faça alguma diferença para alguém, que a realidade destrutiva vem à tona. No telefone, a atriz diz para ele se voluntariar, mas não é isso que ele quer. Imagine se Sean Penn não gastasse sua energia ajudando vítimas das tragédias naturais? O passo de Johnny poderia muito bem se revelar como um Charlie Cheen ou um Nicolas Cage. Mas no final temos uma surpresa. A mudança vem do desapego e da procura de algo desafiador.

O clímax talvez não seja à altura da mensagem que é muito maior, mas são essas “pequenas” mudanças na rotina que nos fazem sentir vivos e se não nos derem uma razão de viver, pelo menos nos leva à um lugar diferente onde a busca continua. Quem nunca se sentiu aliviado ao chegar em casa e tirar o relógio ou ao menos desligar o celular? Um Lugar Qualquer é o olhar particular de uma diretora que viveu isso nos seus momentos como modelo e que mostra, mais uma vez, a face ignorada pela mídia. O mesmo tipo de estórias que vemos em A Rede Social (The Social Network, 2010), O Lutador (The Wrestler, 2009) ou Coração Louco (Crazy Heart, 2009). Ser bilionário jovem passando por cima dos amigos, não se aceitar da forma que é, ou aceitar a fama sem se deixar levar pelo tédio. Sofia tratou com maestria o vazio, que os protagonistas deses três filmes carregam entre sim. Do mesmo jeito como fez em Maria Antonieta (Marie Antoinette, 2006) e a hierarquia sufocante de uma jovem rainha que acaba esbanjando de forma irresponsável, ou as adolescentes de classe média que não sabem o que é liberdade em As Virgens Suicidas (The Virgin Suicides, 2000). Não chega ser um trabalho tão poético quanto Encontros e Desencontros (Lost in Translation, 2003), mas que no atual sentido da indústria cultural voltada pro lucro e com a mentalidade do culto à celebridade, Um Lugar Qualquer se sobressai, sem medo de provocar tédio no espectador.


Originally published at projectmonkeys.blogspot.com.br on April 22, 2011.

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