Trajetória gelada

Pistache, morte e estilo nos dias muito quietos de uma cidade que não consigo entender

Foi um comediante que disse: não existe dignidade na morte. Concordo, já que ninguém nunca se vestiu apropriadamente pra ocasião. Se tudo correr bem, provavelmente na hora será um pijama de algodão. Se tudo der muito certo, algo com material mais nobre. Tenho certeza que Hugh Hefner morreu com roupão de seda.

Os imperadores egípcios eram mumificados e enterrados com animais para ajudá-los na travessia para o além-mundo, mas isso era algo para depois da morte. Eu tenho apego pela minha jaqueta de couro. Acho que ela me veste bem. Pode parecer precipitado, mas tenho pensado em dormir com ela. Imagino que na minha passagem alguém aparecerá com uma moto e dirá: vai lá. É sua. Defina seu rumo. Vou me lembrar que não sei guiar motocicletas, e que não sei exatamente para onde ir no campo celestial. É bastante provável que surja alguma angústia – e eu, mesmo bem vestido, vou invejar Ramsés, que levou com ele um cavalo, oito pajens, um coiote e mais um monte de coisas que são úteis no além.

O problema é esse vento frio de Londres. Ele me faz lembrar que eu não tenho mais cabelos e constantemente me recorda que não sou mais o mesmo. A calvície é a prova concreta da decadência do corpo, a primeira e mais palpável evidência do fim, já que você toca sua cabeça e não há mais nada ali. Também é um indício de que as piadas se tornarão cada vez piores e que o senso de humor de um piloto de churrasqueira, tão silenciosamente criticado e ridicularizado há 15 ou 20 anos em festas de família, começa a dar o ar da graça.

Caminhadas geladas e meios de transporte alternativos. Não cola tanto com o texto, mas por algum motivo desconhecido esse desenho de Edward Gorey em “A bicicleta epiléptica” saltou na minha cabeça.

Adaptar-se a uma cidade nova passa pelo silêncio. É outro motivo. Sozinho, o cérebro corre solto, em especial durante caminhadas. Ando bastante, evito o ônibus. O trajeto entre meu apartamento e o trabalho dura 40 minutos a pé. Marco Aurélio, ainda em Roma, deve ter caminhado muito pra elaborar todo aquele estoicismo. O problema ali não era viver o presente, como ele dizia, mas sua visão de que não existia realmente futuro. Era também a constatação de que quando morrermos, seremos rapidamente esquecidos.

Se o pensamento de Marco Aurélio permanece até hoje, é porque diz respeito ao presente, que se repete continuamente e, portanto, tem relevância para o agora. O mesmo pode ser dito das elaborações de tantos outros – Einstein, Marguerite Duras, Nusch Éluard, Hitler, Faulkner ou Cumpadi Washington – o que revela a importância da reflexão para superar a irrelevância que a morte traz.

Enquanto estas mentes olhavam e refletiam, eu me presto a pensar em outras coisas. Nestes 40 minutos, passo próximo de um açougue. Penso sobre por que as pessoas são histéricas com mini-porcos. Milhões de dólares gastos em pesquisa e genética para promover uma raça cuja única função é ser fofa. Ou vejo um mendigo que me pede por um trocado. Não gosto de oferecer dinheiro, mas lembro que Jesus Cristo se manifesta de muitas formas e que ele pode bem estar ali, vestido de morador de rua inglês. Desconfiado, com medo de não receber nem um patinete no pós-vida, ofereço 20 centavos, o que claramente é uma média boa: não é um centavo, não é uma libra, mas já é alguma coisa.

Jogadores de tarot e vendedores de seguros de saúde devem se valer muito desta perspectiva sobre a mediocridade que há na maioria de nós. Enquanto um traz o alívio de que o futuro será bom – ou dá indicativos do que não deve ser feito – o outro garante materialmente que mesmo ao não seguir as orientações do plano espiritual, alguém cuidará de nós. Talvez aqui justifique-se a presença dos terapeutas, que deveriam atender com potes de sorvete para ampliar o conforto dos pacientes. Sempre haverá conforto nos sorvetes, com exceção daqueles feitos de pistache, um sabor complexo demais e que confesso não entender a origem.

Também não entendo muito bem Londres, suas pessoas e todo esse silêncio. Só não vou usar a jaqueta de couro para dormir. Não agora. Vou mesmo comprar um chapéu novo, como meu avô fazia, porque a lã e a memória de quem a gente ama esquentam o corpo. Mais precisamente, a careca, que se busca vestir com certa dignidade no presente. É só isso mesmo que resta, talvez.