“Meridiano de Sangue” de Cormac McCarthy, uma análise amadora.

Demorei a escrever algo sobre esse livro. Ao terminá-lo, soube que precisava de um tempo, de outras leituras e imersões. Meridiano de Sangue é do tipo que mexe com sua cabeça, seus valores e sua construção histórica.

Precisei de tempo pra aprender tudo isso.

Em suma, é sobre a vida e os percalços do personagem ‘kid’ em meados de 1900, num Estados Unidos confuso entre a peculiaridade da selvageria de uma terra ainda não explorada e a pesada e errática mão cristã daqueles tempos.

A narrativa em si é algo único, flutuante. Kid, no decorrer de sua jornada, se alia a um grupo de caçadores de escalpos indígenas que acaba tomado pela tirania de suas figuras de liderança, Glanton e o Juíz, e se encontra extrapolando os próprios rasos valores, promovendo chacinas com quaisquer pessoas que cruzassem seu caminho. É nas noites de acampamento ou nos longos diálogos que fica claro que o ponto de vista se alterna entre esses três personagens tão ricos: kid, Glanton e o Juiz.

Me chama atenção principalmente como kid é desenvolvido às surras e tiroteios. O estereótipo da coragem masculina punçado num garoto que se vê sem medo de matar e ser morto. As chacinas narradas, pela visão dele, tornam-se quase pinturas (e aqui explode o ‘duosentimentalismo’ da escrita de McCarthy): são belas cenas num contexto horripilante. Quadros feitos com palavras de um rapaz que não viu e nem viveu muito da vida. Os piores momentos, para mim, eram aqueles que antecediam as batalhas. A descrição aterradora dos índios em cavalgada, seus berros, suas figuras ante o sol do crepúsculo.

Glanton e o Juiz merecem análises à parte. O primeiro, um líder nato que perde as estribeiras de sua sanidade. O segundo… Bom, o que é o Juiz? Para quem viu Apocalypse Now, o Juiz tem certa proximidade com o Coronel Kurtz (Marlon Brando), que inclusive, pela descrição dada, sempre me fez imaginá-lo como o Kurtz de Brando. Na verdade, numa análise rasa, é possível mesmo ligar Glanton a Willard em certos pontos.

Nunca quis tornar esse texto algo analítico no sentindo científico da palavra. Não tenho bagagem moral para criticar tal obra, apenas contemplar. O que McCarthy fez foi ir da alegoria western ao mais puro sentimento apocalíptico do homem. Uma história de corações das trevas onde não há o bom e o mau, mas a crueldade desmedida e o cheiro do sangue sob o sol escaldante, onde nenhuma pessoa termina do jeito que começou.

Sequer termina.

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