De memórias, de tempo e de religiosidade
Ao imaginar o desencadear de eventos que determinaram cada parte da história de minha vida, gosto de imaginar um quadro abstrato que se assemelhe a um fluxo de redes neurais, um enredamento de conexões e desconexões, no qual os pontos de distância ficam entrelaçados, e a recordação de uma memória e a percepção de tempo da mesma sempre desvia das experiências objetivas e adentram completamente o espaço do subjetivo.
Desde tempos imemoriais estas conexões e desconexões se apresentaram nas experiências objetivas e subjetivas, seguindo trilhas perceptivas e sensoriais ou imagens e visualizações.
De fato, os achados relacionados à neurociência apontam nesta direção, indicando que as experiências que alteram o fluxo de informações neurais não são apenas objetivas, mas também subjetivas. Estudos evidenciam que a visualização é uma importante ferramenta para geração de alterações neurofisiológicas (Williamson et al, 2001; Rainville, Hofbauer, Bushnell, Duncan, & Price, 2002).
Sempre que um comportamento é emitido, ativamos e desativamos simultaneamente redes neurais, e milhares de sinapses excitatórias e inibitórias ocorrem nesse processo. O SNC manifesta ainda o sofisticado fenômeno da Plasticidade Neural, recurso que dispomos para modificar, compensar, gerar e ajustar funções neurais fundamentais à nossa vida, como o aprendizado e a memória (Squire & Kandel, 2003).
Meu interesse neste artigo é o de correlacionar estes processos, ponderando sobre teorias de integração que seguissem a ideia de fluxo enredado abarcando memórias, percepção de tempo, de religiosidade, como uma pintura da qual vamos desvendando e entendendo no percurso de nossas vidas.
Seguindo a trilha das experiências objetivas para as subjetivas, podemos apontar as raízes destes aspectos, retornando as origens dos mesmos relembrando seus conceitos.
Na origem da palavra religião temos o termo “religare” que significa atar ou ligar. E para a ideia de religiosidade, de acordo com a visão de Jung (1938/1990, p. 10), a atitude particular de uma consciência transformada pela experiência do numinoso (conceito de sagrado).
Pela palavra tempo, usando as descrições do professor Gabriel Perissé, pesquisador etimológico, encontra-se a origem no latin “tempus”, derivado do grego “témno”, que significa “cortar em pedaços”, “dividir”, e que de seu diminutivo “templum” (templo) indica a ideia de “um pequeno espaço que “cortamos” para dedicar ao sagrado. E por isso damos um pouco do nosso tempo para o divino (que existe para além do tempo), ao entrarmos em algum templo”.
Seguindo a linha de pensamento dos estudiosos da etimologia, desta vez considerando a palavra memória, encontramos as considerações do professor doutor Antônio Jardim, em sua tese “Música, vigência do pensar poético” (1997: 152):
“A palavra memória provém do grego que diz, mais imediatamente, ação de lembrar, o lembrar ele mesmo, aquilo que permanece no espírito /…/ pode-se entender memória como instância de inventar, meditar, refletir e velar, no sentido de cuidar, a unidade.”
Daqui podemos retomar a trilha das experiências objetivas, apontando as correlações entre a etimologia da palavra memória e o fenômeno da plasticidade neural, sendo ambos em certo aspecto direcionados para o objetivo de preservação. Para tanto podemos citar outro achado da neurociência, no qual bancos de memórias, constituídos mediante experiências objetivas e subjetivas são referências fundamentais à capacidade humana de gerar comportamentos adaptativos (Baddeley et al, 2000).
Voltando ao trecho citado do professor Antônio Jardim sobre a memória, o mesmo é citado pela doutora em teoria literária Alessandra Garrido Sotero da Silva, no artigo “Os caminhos da memória e o inconsciente coletivo”. Neste artigo, ela aponta outro trecho de Antônio Jardim, mencionando que devido à concepção ontológica, a memória pode ser vista como um fator constituidor da tentativa de imortalização. Logo, podemos dizer que nessa primeira visão relatada à memória tem o sentido de vir à tona o que estava submerso no espírito, com o efeito de cuidar, imortalizar.
A partir destes conhecimentos, percebemos na origem da atitude contemplativa a proximidade com os aspectos da religiosidade, sendo uma experiência subjetiva que se correlaciona e se integra com as experiências objetivas. Podemos concluir que os movimentos voltados para meditação e contemplação parecem ser ressignificações, mas com um direcionamento bem semelhante ao sentido de um resgate do sagrado.
Para isto vou citar o autor David E. Zimerman, que descreve em seu livro “Etimologia de Termos Psicanalíticos”:
“[…] raiz de templum se origina de tam, do primitivo idioma sânscrito, com a significação de cortar, dividir, […] com o significado de espaço delimitado, sobretudo o espaço sagrado, para nele serem feitos os augúrios (presságios) no templo. Isso demandava olhar atentamente para todos os lados, à maneira do “augure” que investigava o espaço em suas atividades divinatórias. Daí se originou o verbo contemplar, com um significado equivalente ao de meditar, considerar e especular.”
Pensando sobre as origens destes aspectos e suas correlações, imagino que nos dias atuais é esta atitude contemplativa que pinta o tal quadro abstrato, e que do qual poderia permitir uma espécie de conexão do ponto de vista interno. Da mesma maneira que o toque seria a conexão sensorial, a religiosidade seria o toque subjetivo.
Textos e referências:
http://www.ciencialit.letras.ufrj.br/garrafa11/v1/alessandragarrido.html
http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1808-56872005000200003
Texto publicado originalmente no meu blog: http://viajemcalada-blog-blog.tumblr.com/post/166711321824/de-memórias-de-tempo-e-de-religiosidade
