O tempo e o pensamento
Não vivo de maneira melhor ou pior, somente e principalmente, vivo do meu jeito. Diferente. Nem melhor ou pior: Di-fe-ren-te.

Debato desde jovem. Primeiro sozinho, ou quase, na medida em que eram eventos fora de mim que causavam o debate(se você me acha chato precisa conhecer meu superego). Só depois que acreditei um pouco mais em mim passei a debater com outras pessoas. E isso me trouxe foi uma coleção de causos…
A pecha de ignorante, burro e genioso conseguiu ser posta em convivência com a de arrogante, vitimista, cego. Enfim, eu era e sou uma pessoa incomoda para muita gente e acho isso natural. Nem os mais sinceros amigos conseguem se gostar o tempo todo.
O fato de se ocuparem em me rotular sempre me preocupou menos que as questões que me afligiam.
O fato de se ocuparem em me rotular sempre me preocupou menos que as questões que me afligiam. Achei até normal que procurassem rótulos para compreender por que eu não vi como eles viram, não senti como eles sentiram ou amei como eles amaram. E a resposta é até que simples: Eu sou o outro. Não vejo, sinto ou amo equipado pelas mesmas experiências.
Ninguém vive como o outro, por maior que seja seu esforço para mimetizar a coisa toda.
Mas você ai, lendo este artigo, você acredita que eu me acho capaz de questionar as coisas que questiono ou acredita que questiono essas coisas para me tornar capaz de questiona-las?
Vou te ajudar a decidir:
para comecar direto e reto: Eu questiono a existência de Deus. Vai te fuder se você acredita que eu sou capaz de encontrar a resposta certa para isso(sim, coloquei um palavrão e Deus na mesma frase).

Eu ultimamente tenho trabalhado a hipótese de que o ser humano é uma manifestação da vontade de uma população imensa de seres que habitam uma dimensão inacessível(uma mistura mal mal-ajambrada de Schopenhauer com Kardec). Eu nego a existência de espíritos como tentamos acreditar neles, mas não nego que em uma dimensão invisível para os humanos existam outros seres que tocam sua vidinha normal e se dedicam a serem melhores per se. Eles planejam uma experiência e se colocam dentro dela. Não passamos de materializações de experiências de seres que convencionamos chamar de almas, no maior estilo Cocoon versão 2.0.
Eu questiono a validade do uso da palavra social. Toda vez que criamos um espaço de manifestação capaz de compartilhar idéias, transformamos esse espaço em um espaço publicitário. Fizemos isso com os cafés, com as livrarias e com as ruas(em franca recuperação). Eu vejo o Instagram como a vitima online da vez. Marcas e celebridades que sonham ser uma marca se engalfinhando para criar conteúdo a ser mesclado no conteúdo real na esperança de alterar a realidade e se tornarem tão reais quanto. O ciclo que se repete é: Criamos um lugar legal para compartilhar comportamento humano. Enchemos de propaganda. Enchemos de fotos de gatos( que linda relação essa da internet com os gatos. Fidelíssima!) E então, enchemos o saco.
Eu me questiono se devo acreditar ou não que o modelo atual que vivemos torna essa declaração do vídeo valida:
Eu questiono a validade da propaganda em “carro-de-som”. Quando eu ouço um carro de som anunciando algo, me torno automaticamente anti-aquilo. Até esse momento imagino o anunciante como alguém que “acredita que é minha obrigação ouvir o que ele tem a falar. Ciente que é do fato de não existir um filtro sonoro para sua propaganda de rua com carro de som”.
Mas, em contra-partida. De uns tempos para cá venho trabalhando numa teoria sobre os carros equipados com som modernosos e ensurdecedores tocando tardes inteiras e madrugada adentro. É uma manifestação cultural, incluída ai a parte de “ignorar o direito ao silencio, prerrogativa dos outros”. Primeiro que para respeitar algo é necessário reconhecer algo como respeitavel e tanto o direito quanto o silencio são coisas que se fizeram desconhecidas para essas pessoas. E segundo, por que o silêncio público é uma invenção maluca do ser humano.
Eu também questiono a crise, principalmente quando pego fila em restaurante, supermercado e até para cortar o cabelo. Até o momento para mim a crise é de dinheiro internacional que a) já não chegava até o povo mesmo. b) afeta os mercados que fazem dinheiro com dinheiro. c) o sistema financeiro que apoia o modelo de vida é uma crise em si. d) Sussurros também criam verdades.
E por fim, eu questiono os atuais pontos de ônibus de São Paulo. Resultado de um trabalho primoroso de “design” do Guto Indio da Costa. Eu coloquei design entre aspas por que design pra mim — e lá vem outro achismo — é aliar beleza e funcionalidade. Eu uso essa merda de ponto de onibus todos os dias e posso te dizer que ao menos as versões dele que conheço tem varias falhas de usabilidade e não são belas. Eu mandei um e-mail pra Ótima, a empresa premiada pelo “design”, mas eles não responderam. Deve ser por que eu não sou nada de design e nisso eu concordo com eles. Mas como usuário e socio-pagador dessa peça de design premiada eu me sinto, digamos, lesado.

Vê? Questionamentos inúteis.
Eu não consigo desligar isso, você entende. Ou melhor, me desculpe a sinceridade, eu curto essa porra pra caralho!
Eu curto demais essa coisa de questionar e não é a resposta que me move, é a pergunta. Pura e simplesmente a pergunta.
Sem mais delongas:
Eu tenho direito de pensar! Você também!
Eu não vou te taxar de idiota se você preferir fazer outra coisa da sua vida, mas vou te taxar de idiota se você achar que eu deva preferir fazer alguma outra coisa da MINHA vida.
E um último questionamento: Nós, os seres humanos, para ser mais específico, nós cidadãos (já que há quem curta negar os direitos naturais) devemos realmente separar o público do privado?
De Hannah Arendt (o negrito no texto abaixo é meu):
«Com a expressão ‘vita activa’, pretendo designar três actividades humanas fundamentais: labor, trabalho e ação. (…) O labor é a actividade que corresponde ao processo biológico do corpo humano (…). A condição humana do labor é a própria vida. O trabalho é a actividade correspondente ao artificialismo da existência humana (…). O trabalho produz um mundo “artificial” de coisas, nitidamente diferente de qualquer ambiente natural. A condição humana do trabalho é a mundanidade. A acção, única actividade que se exerce directamente entre os homens sem a mediação das coisas ou da matéria, corresponde à condição humana da pluralidade, ao facto de que homens, e não o Homem, vivem na Terra e habitam o mundo. Todos os aspectos da condição humana têm alguma relação com a política; mas esta pluralidade é especificamente ‘a’ condição (…) de toda a vida política.»[20]