Pai

Há um mês procura emprego. Há um mês que não consegue olhar para seus pequenos quando pedem doce. Fazia balas em casa até semana passada, quando ainda tinha um botijão de gás. Aquecia água com açúcar e colocava um pouco de canela para dar sabor. Esperava chegar no ponto e colocava o açúcar caramelizado em água fria, tomando o cuidado de deixar as colheradas que tirava da caneca separadas umas das outras para não grudarem. Era momento de alegria quando suas crianças contentavam-se com somente aquele doce feito com tanto carinho. Estava construindo ali lembranças que nunca mais seriam esquecidas pelos infantes. Miséria e carinho. Era um pai amoroso. Quando teve seu caçula, o país avançava na economia. Com muito custo, conseguiu formar-se no ginásio e arranjou o emprego de gari. Se as pessoas fossem educadas, ele nunca teria conseguido aquele emprego. Agradecia por isso. Vida sofrida. Trabalhava durante o dia, percorria mais de 40 km atrás do caminhão fedido. Nos quinze minutos que tinha de folga entre o trabalho e a escola tomava um banho apressado, jantava qualquer coisa e dava um beijo nas crianças. Entristecia-se com aquela situação. Passava o dia todo a pensar naquelas crianças. Cabelos sujos e desarrumados, narizes remelentos e descalços. Eram suas crianças. Recebiam-se com um sorriso que fazia-o esquecer do trabalho árduo e todo o desrespeito com que sua profissão era tratada. Aqueles sorrisos cariados eram seu pagamento mais alto. Era gritaria quando chegava ao portão e assobiava. Quando não encontrava um brinquedo em bom estado que fora jogado, comprava um pacote de salgadinho para dividirem depois da janta. Aquelas crianças não sabiam o que era riqueza, conheciam apenas a alegria de ver seu pai chegar do trabalho com um embrulho nas mãos. Embrulho para elas. E não era carne moída, eram presentes! A esposa sorria pelas crianças. A vida era boa, havia melhorado. Iria melhorar ainda mais, com fé em Deus e trabalho. As crianças todas quando pulavam sobre o pai mirrado, o deixavam sem fôlego. Era uma para cada membro de seu corpo cansado. Dormiam amontoadas, eram muito ligadas. Depois que o menino mais velho morreu de meningite, uniram-se mais. Os pais não conseguiam esconder a tristeza depois que as crianças iam para a cama. Um filho não substitui o outro. A família tinha mais meia dúzia deles e não esqueciam do que havia ido embora. A foto da pobre criatura permanecia fixada junto com as das outras crianças. Único dia que conseguiram dar banho em todas as crianças no mesmo dia foi quando o fotógrafo apareceu na cidade. Era sucesso de público. A cidade festejava. Todos os garis da cidade ganharam os cupons com direito a uma fotografia a cores da família toda. Foi a única com todos eles ainda vivos. O menino que se foi, estava em seus últimos dias de vida quando tiraram aquela fotografia. Mal sabiam que aquele jovenzinho serelepe definharia tão rapidamente. Mas havia as outras crianças que preenchiam um pouco do vazio. As aulas não pararam, mas o emprego secou. A prefeitura precisou cortar gastos. A limpeza foi a última delas. A cidade fedia com o lixo acumulado nas calçadas e não fazia distinção de classes. Fedia em calçada de bacana e de pobre. O pai chegou em casa sem embrulho. Cenho baixo e o sorriso faltava-lhe. As crianças ignoravam a face do pai, mas não esqueciam dos presentes. Cadê paiê, perguntavam os pequenos. A desculpa do dia era que a casa de doces estava fechada, que amanhã traria sem falta. E amanhã chegava e dizia que havia esquecido. No outro dia, nenhuma boa alma havia deixado brinquedos em seus sacos de lixo. Não sabia o que fazer com suas crianças. Não tinha forças para encará-los ao chegar em casa. Saia muito cedo, todos os dias, e voltava tarde, quando as crianças já estavam na cama. A esposa não sabia o que fazer. Com as crianças tão pequenas, não havia como conseguir trabalho fora de casa. Era uma boa dona de casa. Fazia o que podia para cuidar da prole. Inventava brincadeiras para manter as crianças distraídas e esquecer da fome de três dias. Às cinco da manhã, o jovem marido saia novamente de casa em busca de esperança. Em cada esquina a mesma desolação de dentro de sua própria casa. Drogados pedindo trocados para mais um trago. Prostitutas também passavam fome. Os antigos colegas do caminhão de lixo passavam ao longe. Sentia falta do fedor e de encontrar brinquedos para seus pequenos. O peito doía mais do que seu estômago vazio. Doía ver ser filhos tão pequenos e mirrados, chorando de fome. Um saco de farinha seria benção divina, o maná da salvação. Uma pequena mercearia levantava suas portas junto com o sol. O velho dono tinha dificuldades com o peso do metal que rangia. O marido passou pela porta entreaberta três vezes, na última, agachou-se e entrou. Havia garantido o lanche do dia. Aquelas duas maçãs serviriam para um milagre. Veria novamente o brilho nos olhos dos pequenos. Em casa as crianças ficaram com a polpa das frutas, os pais, com as cascas e com as sementes. Que sorte ter encontrado aquelas maçãs dando sopa. Sentia muita saudades dos filhos e aquelas frutas permitiram que ele os visse ainda acordados. No dia seguinte, tentaria conseguir alguns pães, mas hoje só queria curtir a criançada. A mercearia, que novamente abria-se com o sol, ganhou um marido de vigia. Ele passava algumas vezes pela porta e entrava em qualquer momento de distração do velho. Queria os pães secos de ontem, o que suas mãos cansadas conseguiram foi uma cebola e um tomate. Teriam sopa hoje. Às custas de um velho cego, aquele pai conseguira o sustento de seus filhos. Não conseguia imaginá-los chorando e pedindo o que comer.
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