A cura no tom da nossa voz

Desde que me lembro de gostar de alguma coisa, gosto dessas três: escrever, anúncios de revista e clipes de música. Minha brincadeira favorita na infância era me imaginar sendo a pessoa responsável por idealizar as capas de cd's dos artistas favoritos do meu pai. Depois de um tempo, passei a pensar nas fotos de divulgação das músicas ridículas que eu escrevia naquela época. Aos catorze, quinze anos, qualquer “grande” acontecimento na minha vida virava texto. Mantinha um diário no meu antigo computador com tudo o que sentia e via na minha rotina de escola-internet-ídolos-preocupações banais-paixões platônicas. Quando decidi minha profissão, escolhi a publicidade por acreditar que ela me daria a chance de conviver com tudo o que eu mais gostava. De fato, hoje sou publicitária e trabalho escrevendo, mas poucas vezes me vejo satisfeita com o que sai dos barulhos do teclado. Não por questões de “resultados de vendas” ou qualquer outra razão que cumpra com as expectativas de um mundo capitalista, mas porque falta alguma coisa mesmo, a profissão dá pouco espaço pra propósito.

Em conversa com amigas que também não andam muito felizes com os frutos de suas longas jornadas diárias dentro de um bloco de concreto, reparei em um ponto em comum: uma capacidade criativa incrível sendo esgotada por um trabalho maçante, sem valor social nenhum ou perto disso, o que nos incomoda bastante. Dessas conversas, vejo minhas amigas não desovarem suas criações, ainda que a vontade e a certeza de que precisam fazer isso, e urgente, não falte. Já que nossos trabalhos “reais”, que pagam os boletos e as cervejas dos fins de semana, não nos trazem a felicidade que procuramos, a demanda é clara: precisamos arrumar um tempo e produzir um conteúdo que cumpra esse papel.

Ok. Temos a certeza, a vontade, o domínio da técnica, a capacidade de expressar nossas subjetividades, mas ele sempre vem: o medo em forma de “e se”. É quase que uma unanimidade, todas nós temos medo da exposição, do julgamento. Ainda em conversas, e nessas eu amplio o raio para as que já tive com homens que criam, percebo que em geral esse receio significa nada ou pouca coisa para eles. Podem até ter, mas sabem contornar tudo muito rápido. A coragem masculina vem, mais uma vez, dessa coisa louca que vivemos desde que o mundo é mundo: o homem sempre se sente mais à vontade diante de… tudo. São deles a política, os cargos de chefia, as guerras, a literatura, a música, o jornalismo, a publicidade, as artes plásticas, cênicas, etc.

Amigos meus, e não os julgo, têm a capacidade de elogiar seus próprios trabalhos e bater no peito pra dizer “sou foda mesmo” que muitas amigas minhas, tão maravilhosas quanto, não têm. Quando gosto de algo que fiz na agência, costumo nem comentar sobre. Não quero parecer que estou me achando mais do que sou. O lugar de poder que vem com a criação de algum conteúdo, com a disseminação de alguma ideia, não é de mulher não. Parece que nunca estamos prontas, os projetos — e já tive tantos — nunca são bons o suficiente pra saírem do papel. Conheço várias meninas que mantêm blogs há anos sem ninguém nunca ter lido uma frase sequer dos poemas, contos, crônicas, porque elas nunca tiveram a coragem de falar “isso aqui é meu, ó o que eu sei fazer”. Eu mesma planejo tudo nos mínimos detalhes, reescrevo e reviso mil vezes, acho que está tudo ok e, na hora de apertar o enviar, travo.

Apesar de tudo isso, sinto que minha voz pode ter seu espaço no mundo, que eu posso derramar um pouco das minhas ideias pelas ruas, sim, sem pedir desculpas. Não porque elas possam mudar o curso da humanidade, mas porque o estoque de tudo já guardado está cheio. Acredito que essa energia parada deve fluir e, mais, que a coragem de dizer que alguma coisa cresceu em mim e transbordou é um processo pelo qual preciso passar. Tem coisa que não se sustenta mais só de estar comigo, ainda que não busque sucesso ou validação, mas exatamente porque vejo como um ato de humildade e resistência. A escrita sempre foi parte do meu processo de autoconhecimento, terapia, conversa para acertar os ponteiros comigo mesma. Escrever é poder finalmente respirar fundo e leve depois do ponto final. O sentido talvez venha até depois. O agora é hoje e sempre o que deu pra fazer com o que sobra dos dias exaustivos, dos prazos, das noites mal dormidas.

Se você está lendo esse texto é sinal de que, veja só, ultrapassei algumas barreiras, principalmente a do receio de perceberem que eu não mereço gastar meu tempo em tudo que acredito ou gosto. Obrigada por fazer parte disso. E se você é mulher, pega aquela ideia guardada no fundo da cabeça, aquela que enche seu olho d’água, acelera o coração, e coloca em prática também.

Sei que você entende o que digo. Já não precisamos mais ficar caladas, podemos nos revelar para nós mesmas, mas não só. Se você também sente uma inquietação nesse sentido, manda aquele poema pra revista, organiza sua exposição, publica sua zine, divulga seu medium. O acúmulo em nós sufoca e não tarda em deixar vir à tona seus sintomas, mas a cura vem a cada frase. Deixa ela vir, a calmaria pela transformação do silêncio na voz que tem o tom do nosso jeito de encarar a vida.