Jante-se

O exercício de conviver com meus pensamentos se assemelha a preparar um jantar que só vai ver a minha boca. Chego de um dia de trabalho, estudo, séries acumuladas, que seja, e paro em frente à bancada da cozinha. Abro a geladeira e, se estiver com sorte, ainda dá pra escolher alguns ingredientes perdidos nas gavetas. Eu, que não sou excelente no fogão, me arrisco a imaginar se um funciona bem com o outro. Corto em cubos, coloco água pra ferver, lavo folhas de alface. Entre um preparo e outro, a cabeça bate asas e voa. Reencontra ideias ultrapassadas, recicla as que pareciam inutilizáveis, joga fora lixos que por vezes insisto em guardar.

A panela de pressão chia, coloco uma música, esquento a frigideira pra fritar o bife. Mesmo que não tenha ninguém pra agradar além de mim, quando o cheiro da manteiga misturada na cebola sobe, a expectativa cresce, a responsabilidade também.

Melhor ficar de olho aqui porque se queimar…

Meus jantares pra mim mesma são assim. Depois do prato devorado, a noite cai e o ouvido encosta no travesseiro. Estou ali de novo, sozinha. Minha cabeça se joga em mais um voo. Eu deveria, sim, poder escolher os ingredientes da minha vida e utilizá-los de forma a me preencher de satisfação , mas às vezes abro o armário e só tem miojo do mês passado. Faço ainda assim. Coloco um sorriso no rosto, um tempero diferente e como do mesmo jeito. Nem sempre é filé mignon.

Quando bato de cara comigo, naquela rua sem saída que tento e tento evitar, percebo que me agradar deveria ser mais simples e fácil, mas falta. Falta aquela ida à feira ou ao supermercado para comprar o que nem sei direito o que é. Basta ir, experimentar. Criar novos sabores. Deixar um problema um pouco de molho, cozinhando em fogo baixo. Vai que evapora ou que você arruma uma solução.

Preciso jantar minhas entranhas por um longo tempo. Os mesmos ingredientes todos os dias, pratos diferentes. Se o arroz queimar, a culpa é minha, mas o perdão também só cabe a mim. Assim, eu me reinvento de uma forma que me reconheço mais a cada garfada. E vou me entendendo e me amando, uma pitada de sal por vez.