Existe machismo no futebol?

Época de estaduais, Libertadores no comecinho e o Brasil já encara sua primeira grande polêmica do ano no futebol. Esta semana o clube Atlético Mineiro, em parceria com a fabricante DryWorld, realizou um evento de lançamento da nova linha de uniformes do time de futebol.

Aproveitaram a oportunidade para exaltar a contratação de Robinho, mas o que era para ser celebrado se tornou alvo de debate na torcida atleticana e no país como um todo. Tudo isso porque no desfile das novas peças, a DryWorld optou por vestir com o traje completo apenas os modelos masculinos. As modelos femininas subiram na passarela vestindo apenas a camisa do Galo e por baixo uma peça íntima, sem bermuda, calça ou qualquer coisa do tipo. Um eficiente reforço do processo de objetificação do corpo feminino dentro do ambiente futebolístico.

Antes de qualquer coisa, vamos deixar algo bem claro: essas modelos mulheres estavam fazendo seu trabalho, elas ganham para isso e possuem liberdade o suficiente para escolher o que e como vestem. Só que ao mesmo tempo — e donas da mesma liberdade -, muitas das torcedoras atleticanas (e de outras equipes brasileiras) se sentiram ofendidas e desvalorizadas com o conceito apresentado no evento. Afinal de contas, por que só as mulheres desfilaram seminuas? O uniforme feminino não possui bermuda e meião? Qual ideia de consumo e sociedade o Galo e a DryWorld quiseram passar aos torcedores atleticanos com essa atitude?

O que para muitos parece ser um caso isolado e pouco merecedor de atenção, para mim é mais uma prova incontestável de que assim como toda a nossa sociedade, o futebol no Brasil também está impregnado de machismo. O que para muitos é “apenas um desfile, não tem nada demais e as modelos estavam lindas”, para mim é mais um golpe diário de uma ordem social que nos reduz (mulheres) a um corpo somente. E que muitas vezes, exatamente por isso, encaramos situações de risco, à vida e à nossa dignidade, por causa dessa condição de desigualdade e falta de respeito, dentro e fora das arquibancadas.

E a gente sabe que isso acontece, todos os dias alguém nos lembra sobre isso. A mulher brasileira que ama futebol passa por muitas fases e situações difíceis para poder torcer pelo time do coração. Não acredita? Então passe a reparar nas mulheres ao seu redor. Elas sofrem assédio ao pisar num estádio, assim como são assediadas quando escolhem ver um jogo no bar. Elas também não contam com o mesmo apoio, visibilidade e estrutura dos times masculinos se quiserem jogar, estão relegadas a sobreviver com patrocínios paupérrimos e condições surreais de trabalho. E se decidirem ser árbitras, elas terão que ralar o dobro e provar de todas as formas possíveis que seu gênero não as fazem entender menos ou mais de futebol que os demais juízes e assistentes homens.

Mesmo assim, seguimos na ordem machista e recebemos de bandeja uma visão objetificadora da mulher em um evento oficial de um grande e respeitado time brasileiro. Isso sem contar na retaliação machista, violenta e agressiva que um grupo de torcedoras atleticanas vem sofrendo após terem se pronunciado abertamente contra o conceito do evento desta semana. É um contexto muito real e cruel para que o ocorrido passe despercebido. Nós temos que falar sobre isso.

Todos os dias, mulheres das mais variadas idades, classes sociais, crenças e ideais lutam por um espaço que é delas de direito, mas que desde que o mundo é mundo, lhes foi negado. Feministas declaradas ou não, essas mulheres merecem um mundo mais justo, igualitário e seguro. Um mundo no qual torcer por um time de futebol que te respeita e te enxerga, não apenas como torcedora e consumidora, mas principalmente como pessoa, seja algo possível e verdadeiro.

É só não esquecer daquilo que Jorge nos disse certa vez, sobre torcer pelas moças bonitas. Tudo bem torcer por elas, mas a música, antes de tudo, começava torcendo pela paz. E a paz tem vários nomes, o que eu mais gosto se chama IGUALDADE.
***
Izabela Costa, jornalista, feminista e torcedora

texto originalmente publicado na página do Facebook Existe Bobo no Futebol? no dia 17 de fevereiro de 2016. Acesse em: https://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=746274948840655&id=644250142376470&pnref=story

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.