Wilco etc.

Essa não é uma resenha. Eu nem sei se isso é um texto bom, mas eu quero falar.

Já foi o tempo em que eu escrevia resenha de shows, sempre esperando fazer a melhor resenha e que o show ajudasse muito nisso. Já foi o tempo também em que um festival não me cansava exaustivamente e era até aceitável ficar em pé vendo uma banda chata pra caralho qualquer para aproveitar a experiência por completo — hoje mesmo eu curto é os puffzinhos da área de descanso, hoje entendo qual a utilidade deles. Mas ontem eu vi o show do Wilco e, de repente, fiz uma ponte entre a pessoa do antes e a pessoa do agora por duas horas, lutando contra as dores nos pés vestidos com botas que não ofereciam o devido conforto (no próximo show vou de tênis de academia para o meu próprio bem, juro), mas esboçando aquele sorriso com o olhar que me fazia esquecer das adversidades.

E o Wilco tocou essa música aqui.

https://www.youtube.com/watch?v=BukL7jqSTJI&feature=share

Vou dizer: essa não é só uma música pra mim, é um mantra. Eu poderia falar também aqui do quanto é foda pra caralho ver o Wilco improvisando, punhetando, fazendo o diabo com aqueles instrumentos (com louvores especiais para o Nels Cline e o Glenn Kotche) etc. etc., isso você pode ler nos sites especializados. Foi realmente incrível. Mas tem aquele momento que você só consegue pensar em “meu Deus, é a minha música”. É a música também de tantos outros que piraram assistindo ao show, beleza, mas aqui, no particular, é a minha música.

Teve uma época em que as coisas não foram nada fáceis pra mim. Eu me apoiava em músicas e discos e um deles foi o “Sky Blue Sky”, do Wilco. Chegava a escutá-lo umas três ou quatro vezes ao dia, várias vezes na semana. Mas é que ele começa com aquela frase: “maybe the sun will shine today, the clouds will blow away”. Aquele disco com um ar antigo falando de sentimentos tão contemporâneos. Aquela frase que eu repetia trezentas mil vezes para lembrar de não cair. E a capa do disco que usei por bons tempos como capa do Facebook: eu me imaginava como aquele pássaro que está voando ao encontro dos outros, mas que ainda não tinha conseguido chegar lá. Viagem pura? Sei lá. Eu me agarrei a isso.

Esse foi o Wilco que eu vi, de pertinho e na pista normal. Se bem que na visão natural eles não estavam embaçados, isso é culpa do meu celular.

Curtir o Wilco, eu curto há um tempinho. Mas foi aí que eu amei o Wilco. E que me motivou a desafiar os limites do meu cartão de crédito assim que liberaram a venda desse show. Essa é a mágica da música: acho incrível ter a alma confortada por uma banda que, no mesmo disco, cantou “eu não confio em nenhuma emoção” quando eu simplesmente não tinha nenhuma.

Ressignificação. Voltamos para 2016. O Wilco então tocava “Either Way” ontem em São Paulo, todo mundo comemorando com gritos e eu só conseguia pensar “não acredito!”. Eu tinha visto o setlist do Rio de Janeiro e já estava aceitando que não iria ver essa música ao vivo. Mas aconteceu, e foi bem na minha vez. As coisas mais calmas, o cara que eu amo vendo aquilo junto comigo, perspectivas um pouco mais esperançosas de um pássaro que, agora, voa junto com o bando. Eu não chorei. Só cantei, com uma grande alegria, aquela letra que eu sabia até de trás pra frente.

Hoje o dia foi preguiçoso, as pernas se recuperam um pouco da dor e o corpo se recupera de chegar três horas da manhã em casa em um dia cansativo. Mas eu vi o Wilco e eles tocaram a minha música.

Obrigada, Wilco.