Carta ao amor de longe

Comecei o dia mais cedo em tudo. Enquanto fazia uma coisa e outra, fiquei pensando em estar sozinha e sentir-se sozinha, que são coisas diferentes.

Nessa minha reclusão necessária, o estar sozinha encontrou o sentimento maior de solidão. Não vejo isso como algo triste, porque não me sinto triste agora. Mas é a primeira vez em muito tempo que efetivamente me sinto sozinha, pois sinto sua falta.

Ao mesmo tempo em que gosto de estar sozinha, essa sensação me fez sentir uma saudade enorme tua. Porque posso ver exatamente e com clareza que tipo de companhia eu mais queria ter agora e que tipo de companhia não me faz falta nenhuma.

É fácil perceber que uma conversa boa só precisa ser interessante. Com você, tudo é novo e interessante pra mim. Sei que vou estar sozinha por muito tempo, mas, conversar com você estando tão distante faz com que não me sinta só. Quando você divide seu mundo comigo, me sinto parte dele, me sinto completa de alguma forma e é inevitável pensar que você deveria sim, estar comigo, aqui, porque afinal, quantas pessoas no mundo pra conhecer e justamente te conhecer, nos conhecermos da forma mais improvável possível, e assim, como diz a música da Vanessa da Mata — “Entre tantas pessoas no mundo, que sorte a nossa?” - de gostamos e nos admiramos mesmo sendo tão diferentes.

E sorri muito lembrando das coisas, das loucuras e das conversas. E do quanto você faz falta nas mínimas coisas.

Não é coisa de gente apaixonada, não deixei de ver seus defeitos, não idealizo o ser que você não é, antes que você pense isso. Você faz falta porque é presente em um oceano de distância.

Me lembra muito uma experiência que eu tive quando criança. Fui acompanhar minha mãe em um casamento e fomos só nós duas. Deveria ter uns nove anos de idade e foi a primeira festa de casamento que me lembro ter ido. Chegamos lá, só nós duas e antes de sair de casa minha mãe fez muitas recomendações, que não a envergonhasse, que fosse educada, que não sujasse o vestido novo e o chapéu lindo que me comprou e etc.

Fui feliz, cheia de ansiedade, achei tudo lindo e na hora de servir o jantar, a boca salivou. Fiz meu prato e comi com vontade. Era um jantar delicioso e fiquei com vontade de comer pela segunda vez. Mas, as convenções sociais, a minha mãe ali olhando, o medo do que as pessoas pudessem pensar de mim, de sujar o vestido e outras coisas me fez ficar com vontade imensa.

Eu sabia que seria ainda mais prazeroso comer novamente, no entanto, não fiz. E até hoje lembro disso. É engraçado, mas você me fez lembrar o que é ter uma vontade enorme e não poder ‘repetir o prato pela segunda vez’.

Queria muito lhe dizer isso hoje porque somos tão frágeis, posso estar aqui hoje e não estar mais amanhã… não posso guardar em mim mais nenhum sentimento que valha à pena dizer, pelo risco de nunca poder dizer.

Queria que soubesse: que fez nascer em mim um oceano de saudade.

    Izaíra Thalita Lima

    Written by

    Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
    Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
    Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade