O vaso kintsukuroi
“O que você busca, vem buscando por você” (Sufi Rumi).

Já não era mais problema algum abandonar antigos hábitos e refazer a vida todos os dias. Ao olhar-se no espelho se via de uma outra forma: não era a mesma pessoa, não se vestia como antes, já nem se lembrava das histórias de dor do passado.
Primeiro porque pensava que tinha fé, depois se viu descrente de quase tudo afinal, tanta dor ao redor não poderia haver na presença de Deus. Até que numa aula de um seminário sobre Humanidades ouviu uma professora falar sobre a física quântica e de como toda a energia que circula em torno de todos os seres vivos e abstratos, são invisíveis, mas promovem grandes transformações. Sentiu o coração acelerar e compreendeu que Deus existe, mas não como ela pensava que era antes, um Deus punitivo e vingativo. Deus era energia pura, viva, sentida e presente em tudo o que há. Saiu da sala e sentiu-se mudada com tudo o que havia escutado ali.
“Mude. Mas comece devagar porque a direção é mais importante que a velocidade” lhe disse a foto em poesia estampada com os olhos de Clarice, a poetisa das mais duras e belas verdades da alma feminina. Haviam sinais por toda a parte. Mude, mulher! Nos muros, nas notícias, nos filmes que assistia, nas expressões de gente que passava pela ruas, no palhaço que insiste em ser a quebra da rotina dos outros no trânsito.
Então, percebeu-se mais leve dia após dia. Já não sentia necessidade de ter. “Porque não fazer a viagem dos sonhos, porque não trabalhar menos? Porque não ensinar aos filhos o prazer contido na simplicidade do afeto na presença e não dos brinquedos, das roupas de marca?”, pensava. Era preciso recomeçar de verdade.
Ela não lembra quando deu o start disso tudo, mas começou a fazer. E se lembra exatamente do dia que sentiu uma paz tão plena, como nunca antes havia sentido. Sentou-se na cadeira azul que ficava de frente para um pequeno jardim florido, com uma xícara de chá na mão e em silêncio, agradeceu por toda a dor a que havia passado, pois tudo a havia levado até aquele momento, para aquelas escolhas que agora eram a sua vida presente.
E não estava mais rica, não tinha mais dinheiro, não estava nos padrões de beleza antes tão perseguidos, nem tinha ‘um amor’ do lado. Mas tinha a si mesma e, nossa: como esse encontro havia demorado. Estava orgulhosa de si.

Ela havia superado, havia se recuperado e se sentiu como um vaso Kintsukuroi. Aqueles vasos de porcelana em que os chineses remendam após quebrados, com puro ouro, cujas rachaduras o fazem ainda mais valiosos. “Era isso! Um vaso rachado e consertado com ouro”.
Ela havia feito as pazes com Deus e encontrou-se em si mesma. Estava tudo bem, tudo perfeito na imperfeição.
A diferença é que agora ela percebia tudo o que se passava ao seu redor como pequenos milagres.
(Publicado no livro ‘Por isso não provoque’ — julho de 2017)
