Bel Pesce e o empreendedorismo de palco: porque a Menina do Vale não vale tanto assim

[ ADENDO ] Fiz um vídeo sobre essa coisa toda. Toma.

Quando fiz meu vídeo sobre o hilariante fiasco da campanha de crowdfunding da “hamburgueria” Zebeleo (sim, ainda tenho um implicância quase irracional com esse termo desnecessariamente gourmetizado), fui duramente criticado por reduzir a tal Bel Pesce a “um desses playboys aí” com o que muitos julgaram ser um ar de desmerecimento.

O vídeo da presepada dos três foi tirado ao ar, mas a internet jamais nos priva dessas coisas. Aqui está o reupload:

Eu jamais tinha ouvido falar na moça, pra surpresa de muitos, e minha suposição é que ela era apenas mais um rosto entre essa turminha de hipstersmillenials descoladinhos e cosmopolitas que orbitam o mundo marketeiro brasileiro enquanto repetem jargões da propaganda. Você sabe, aquela galera que está sempre inovando o mindset 2.0 do paradigma com sinergias do brand pra agregar ao engajamento do upcycling de um job e coisa assim.

Ledo engano. Fui informado que, em vez disso, a garota é uma wunderkind brasileira sem paralelos. Formada pelo célebre MIT, a menina passou por pelas mais consagradas instituições do mundo da tecnologia — Microsoft e Google –, e até meteu o dedo no sistema bancário. Não parando por aí, ela também fundou várias empresas (uma delas que, seguindo a cartilha de sucesso no Vale do Silício, foi posteriormente vendida por milhões).

E após todo esse sucesso que não deixa a desejar perante as biografias dos grandes luminários da tecnologia como Bill Gates, Steve Jobs ou Elon Musk, Bel Pesce voltou ao Brasil pra injetar uma necessária dose de empreendedorismo na nossa combalida economia.

Em outras palavras: eu sou um perdedor imbecil invejoso e a garota é um prodígio promissor que trouxe reconhecimento e o espírito empreendedor ao Brasil.

Da mesma forma que minha falta de respeito com os respeitáveis louros da garota provocou incômodo em muitos, houve um outro tipo de chateação no vetor oposto — alguns inscritos se revoltaram com a oportunidade que eu perdi de expor a moça que, de acordo com eles, é uma charlatã do emergente (e lucrativo) mundo do chamado “empreendedorismo de palco”. A mulher é uma fraude, insistiam alguns, e quando ouviram seu nome saindo de minha boca, eles esperavam que o foco do meu vídeo seria desmantelar a fachada de sucesso que a garota montou à base de palestras de auto-ajuda vazia salpicada com clichês requentados do tipo “acredite no seu sonho” e “cada derrota é uma lição aprendida”.

Esses detratores fizeram a moça soar como um Robert Kiyosaki de saias, isso é: um suposto empreendedor que é referenciado e reverenciado exclusivamente por gente iludida com promessas de riqueza e glória através de esquemas furados. Da mesma forma como o Kiyosaki é um profeta da galera das pirâmides financeiras, a Pesce seria da turminha com gana de “empreender”.

Incerto de qual dessas versões de Bel Pesce seria mais fiel à realidade (e já antecipando que a verdade estaria mais ou menos na intersecção das duas, o que é geralmente o caso), fiz o que fui ensinado a fazer dois mil anos atrás nas minhas aulas de Metodologia Científica na UFMA — observei sistematicamente, verifiquei a veracidade dos fatos propostos, e elaborei uma hipótese passiva da revisão por pares.

E a hipótese em que cheguei, lastreada nos fatos que discutirei nesse texto, é a terceira etapa do processo. Sejam meus pares e digam-me aí vocês o que pensam.

Então. Pra entender melhor a biografia da moça, fiz o mesmo que faço quando a solução de um puzzle num videogame me escapa: recorri ao Google.

Fui levado ao seu site em inglês, onde é declarado que:

She studied at the Massachusetts Institute of Technology (MIT), where she got Majors in Electrical Engineering & Computer Science and Management Science, and got Minors in Economics and Mathematics.

Eu franzi a testa. É uma forma particularmente curiosa falar qual a sua formação acadêmica dizendo que tem “majors em X” e “minors em Y”, e pra entender porque, preciso explicar como funciona a educação superior gringa.

Nos EUA/Canadá, o processo de formação acadêmica permite que as disciplinas eletivas (ou seja, aquelas que não são diretamente fundamentais para o seu diploma) se agreguem de forma que você pode ser dito um mini-especialista num determinado assunto que foge da sua área principal, mas é também do seu interesse. Por exemplo: tenho um amigo que é formado em Biologia (ou seja, esse é o seu “major”; ele é biólogo, essa é a área de enfoque da sua carreira acadêmica e seu título), com um “minor” em Psicologia. Ele não é um psicólogo e nem pode se meter a diagosticar ninguém; ele tem apenas conhecimento superficial dos fundamentos da psicologia.

Que fique claro: o objetivo do minor é puramente saciar um interesse leve duma disciplina. Academicamente falando, é pouca coisa acima de ler artigos na Wikipédia sobre um assunto. Não é vantagem que se conte.

Além disso, dentro da cultura norte-americana, a linguagem do “tenho um major em X” é típica de alguém que cursou algo, não completou, mas quer ainda usar este fato para imbuir-se de autoridade acadêmica num determinado assunto, levando o interlocutor a concluir que está falando com um especialista formado naquela area.

Seria como eu querer usar o fato de que “cursei Física!” pra soar erudito e detentor da razão num assunto científico, omitindo o fato de que não me formei e que foi há tanto tempo atrás que não lembro mais de quase nada do curso.

Isso talvez se deva, naturalmente, a uma certa de falta de familiaridade da garota com a cultura e a língua (ou não, já que ela morou lá por sete anos), mas me deixou com várias pulgas atrás da orelha. A sintaxe mais comum seria dizer algo como “I have a degree in X”; informar major e minor é desnecessário.

…exceto, é claro, caso você queira pintar-se como um super-especialista que domina inúmeros campos diferentes. Ao longo da minha “investigação”, descobri que parece recorrente o hábito da empreendedora de exagerar seus feitos usando palavreado vago.

A impressão que acabei tendo da Bel Pesce é, talvez mais do que os “Electrical Engineering & Computer Science and Management Science, Economics and Mathematics” que seu site enumera, a área em que ela é realmente expert é aumentar seu capital social aparente inflando seus feitos através de uma linguagem cirurgicamente específica que, embora evite entrar descaradamente na mentira, tem um claro design de induzir o interlocutor ao engano em relação às suas realizações.

Sabe o cara que descreve seu trabalho de caixa no McDonalds como “analista responsável pelo fluxo de capital operacional de uma grande empresa multinacional”? É nesse território em que estamos, e eu acho que posso provar isso de forma inegável.

Foi por isso que a moça parecia ter diplomas de Schrodinger — o número de canudos dela sempre variava entre 4 e 6 dependendo de quem estava escrevendo a matéria em português, um sintoma perceptível da dificuldade brasileira em compreender o que diabo seriam os “majors” e “minors”. “Bota aí que ela tem seis ‘diplomas’ mesmo, porra”, consigo ouvir mentalmente o redator preguiçoso ordenando alguém a simplificar a coisa.

E se a Bel Pesce se incomodava em publicarem erroneamente que ela era uma multi-profissional especialista em tudo e um pouco mais, ela não fez grandes esforços pra esclarecer isso.

Esse detalhe de “major/minors” (ao mesmo tempo que parce deliberadamente evitar se identificar como formada) foi justamente o proverbial “onde tem fumaça, tem fogo” que desencadeou meu interesse em verificar as supostas conquistas da moça. Se a moça tivesse dito desde o começo “sou formada em X e Y, ponto”, eu não precisaria ter que escrever 10 parágrafos explicando isso, porque ninguém estaria pensando que a mulher tem um número surreal de formações e usando isso como argumento de que ela não pode estar errada. Como falei, fazer acreditarem que ela é uma profissional com múltiplas áreas de expertise não foi acidente — foi por desígnio.

Olha até a porra da UNICAMP falando que a mulher “se formou simultaneamente em cinco faculdades: engenharia elétrica, ciência da Computação, administração, matemática e economia“.

Em seu site em português, ela diz com todas as letras que se formou em cinco disciplinas. Ela também omite, mas é óbvio, que “Electrical Engineering and Computer Science” é um curso só no MIT,e não dois como ela obviamente tenta fazer parecer.

Diga-se de passagem, através do link aí do OpenCourseWare você pode literalmente assistir todas as aulas, acompanhar todos os exercícios do curso, fazer as provas e tudo. Espantoso!

Voltando às lorotas da Bel. Essa forma estranhamente inflada de descrever sua formação, somado a sites gringos dizendo explicitamente que ela “dropped out of MIT” (ou seja, “largou o MIT”), me faz pensar que nem formada ela é. Não estou dizendo que ela não é — estou dizendo que ela usa linguagem típica de quem não é, e que isso é… estranho. Uma formanda do MIT não deveria precisar desse tipo de palavreado pra inflar seu currículo.

O que ela está tentando esconder…?

[ Adendo ] Ficou mais claro agora que o “dropped out” se refere ao mestrado, e não ao bacharelado. O que não a impediu de listar o mestrado no seu LinkedIn, o que me parece impróprio. Não há nenhuma admissão lá de que o mestrado é incompleto (de fato, não sei nem por que colocar um mestrado incompleto no LinkedIn).

Na verdade eu sei — pra induzir o leitor a concluir que ela tem mestrado. Não há outra explicação, e é um comportamento harmônico com os outros que esse texto revela.

[ Adendo ] Surgiu agora a evidência que ela tem, sim, uma formação no MIT. Por que ela achou necessário inflar uma pra cinco (já que uma formação no MIT é por si só um estupendo mérito), é intrigante.

Esse ponto foi a única questão que confundiu alguns leitores, pelo jeito. Vou trocar em miúdos: Em inglês, Bel diz ter X majors e Y minors. Em portugues, ela diz ter X+Y diplomas. Só que major/minor e diploma não é a mesma coisa; alguém (com intenção de aumentar seus próprios feitos) pode dizer ter “majored in X” sem necessariamente ter se formado, visto que você declara o major antes de se formar.

Essa incongruência me deixou curioso e foi o pontapé da pesquisa.

Aliás, com uma busca rápida você vê que é comum falar que “majored” em algo sem necessariamente ter se formado.

Tá mais claro? As minúncias do que realmente significa um major e como equivaler isso no contexto acadêmico brasileiro são indiferentes na questão. O ponto de contenção de alguns críticos do post é que pra dizer que “majored” em alguma coisa precisa SIM ser formado (o que é objetivamente errado), mas o que eu estou tentando dizer é que ela estava alegando duas coisas fundamentalmente irreconciliáveis nas duas páginas.

Que é, como eu falei, um prenúncio do resto do currículo dela.

Tá mais claro? O propósito não era “provar” que ela não era formada (isso é literalmente impossível, metodologicamente falando), e sim, explicar de onde surgiu minha desconfiança no resto dos relatos dela.

[ Adendo ] O usuário Guilherme Verri (@gvrri) foi além e fez o que eu deveria ter feito: entrou em contato com o MIT diretamente, e conseguiu confirmação oficial, inegável, de que a Bel Pesce se formou em dois cursos na universidade: Electrical Engineering and Computer Science, e Management Science.

(Além de me dar uma comida de rabo por não ter verificado isso mais afundo e insinuado que a garota não tinha formação alguma — o que não era meu ponto, mas a crítica dele tem mérito)

Eu incluiria aqui imagem que ele me mandou da carta oficial do MIT afirmando isso, mas temo que possa ser considerado doxxing pelo Medium.

Conclusão: ela tem dois diploma. Não cinco. Sendo dois diploma do MIT uma incrível realização, não entendo por que esse palavreado vago pra insinuar ter mais canudos.

[ Adendo ] Aparentemente, advogados do diabo estão tentando obscurecer o ponto central da história com essa interminável discussão sobre a equivalência de “major” e “minor” no contexto educacional brasileiro. Vamos lá, MAIS UMA VEZ, tentar explicar.

Eu não falei que “ninguém jamais identifica uma formação falando que é major”, o espantalho que eu mais tive que responder nas últimas 72 horas. Eu moro no Canadá há 13 anos, eu SEI que às vezes, sim, a pessoa descreve seu diploma como “I majored in X”.

ENTRETANTO, e aqui está a parte importante, SER MAJOR E TER UM DIPLOMA NÃO SÃO SINÔNIMOS. Embora seja culturalmente um atalho semântico, NÃO É A MESMA COISA.

“Majoring” é um processo que ocorre ANTES DA GRADUAÇÃO. Ao “declarar o major”, você é automaticamente um major naquela disciplina. Alunos que ainda estão cursando, não se formaram, mas já declaram majors, já são tecnicamente majors.

Leia a thread abaixo num fórum de física.

https://www.physicsforums.com/threads/when-someone-says-im-a-math-major-does-that-mean-she-is-a-student-or.466397/

Os usuários estão discutindo o significado de “major”. Note o que um usuário apontou:

“Of course, the person who says “I was a math major” might have changed majors since or might never have graduated

Este é e-x-a-t-a-m-e-n-t-e o meu ponto. Alguém pode, por inocência, ou desonestidade, se declarar “I was a math major” SEM TER SE FORMADO.

Bel se formou. Tem dois diplomas. Mas a linguagem que ela usou não deixa isso claro, visto que alguém poderia dizer exatamente a mesma coisa que ela falou, SEM TER SE FORMADO. Farei mais uma vez a comparação: é como dizer “cursei direito”. Você tem diploma de direito? Talvez sim. Talvez não. A frase “cursei direito”, sozinha, não é conclusiva. É vaga.

Pode ser usada para enganar, e frequentemente é.

Voltando ao fórum acima. Quando isso é explicado, o sujeito que iniciou o tópico pergunta qual a melhor maneira (a mais direta, mais específica, que menos deixa a interpretação) de dizer que se formou em matemática. Olha a resposta:

Notaram que o “major in” foi abandonado quando o objetivo é ser direto? Isso é porque MAJOR NÃO SIGNIFICA NECESSARIAMENTE FORMADO.

NESTA OUTRA THREAD, acompanhe a definição de major:

“A math major is someone who has or is obtaining a bachelor’s degree in mathematics.”

OR IS OBTAINING. Tá vendo como pode significar duas coisas? Como não é especificamente “formada”? Como pode ser usado pra induzir ao erro?

Quantas vezes eu preciso explicar isso? MAJOR NÃO É SINÔNIMO DE GRADUAÇÃO. Eu não estou dizendo que ela não é formanda — ELA É! Eu mesmo adicionei isso no texto! Estou dizendo que essa linguagem meio vaga foi o estopim da pesquisa. Caramba, eu já tive que explicar isso MIL VEZES!

Me sinto um papagaio, mas lá vai de novo porque pelo jeito vocês precisam da repetição pra entender: você declara o major ANTES DE SE FORMAR. Por causa disso, existe gente que diz que “majored in” sem se formar. Isso pode ser feito na inocência ou por desonestidade, no intuito de se imbuir de autoridade acadêmica sem ter.

Às vezes a pessoa diz que majored in mas, na honestidade, adiciona que “dropped out”. A alguns, falta essa honestidade. Aliás, se “majored in” é sinônimo de graduação, como é que “majored in X but dropped out” faria sentido?

Eu estou estupefato de ter que explicar isso tantas vezes. Engraçado que ao explicar aos meus seguidores gringos NINGUÉM levantou essa ressalva, parece coisa de brasileiro que não entende bem da cultura de fora e não chegou a conhecer o tipinho que fala “Oh, I majored in…” fora do contexto acadêmico, o que às vezes é feito pra ludibriar.

[ Adendo ] A história dos cinco diplomas acaba de ficar mais complicada pra moça. Neste tópico no Quora — uma rede social de perguntas e respostas — , postado em 2014, um(a) brasileiro(a) (não vejo o nome do autor da postagem…?) pergunta sobre a carreira acadêmica da Bel Pesce, focando especificamente nos 5 majors/diplomas perguntando “como é que é ser um gênio como ela?”.

A usuária Anne Hunter, que alega ser coordenadora do curso da Bel (alguém com mesmo nome de fato consta no catálogo de responsáveis pelo curso), responde:

Tradução:

“Alguém pode ter até dois majors e dois minors no MIT, e isso ainda conta [apenas] como um diploma. Eu acredito que sei a quem você se refere, e ela é uma pessoa maravilhosa e inspiradora, mas ela NÃO tem 5 diplomas do MIT. Eu não consigo nem acreditar que ela alegaria isso.”

Em seguida, voltei minha atenção à Lemon, uma (finada) empresa de planejamento financeiro que a mídia brasileira reportou que Pesce teria fundado. A página de Economia do UOL diz explicitamente que a brasileira fundou a Lemon, adicionando o floreio poético de que a empresa “nasceu das idéias dela”. A IstoÉ confirma que a autoria da Lemon é de Pesce, dizendo que a moça “montou sua própria empresa”. Nesta outra matéria, o UOL dá crédito de fundadora da empresa à Pesce (além de martelar novamente as supostas 5 formações da garota, num exemplo prático da máxima da “mentira contada mil vezes que se torna verdade”).

A fonte disso, evidentemente, são afirmações da própria Pesce — visto que nada no registro histórico da empresa confirma isso. De acordo com a Wikipédia, o fundador da compania é um empresário chamado Wences Casares.

A propósito, Casares deu em 2012 ao The Next Web esta entevista falando sobre a adição de Bel Pesce ao time. Por que um outro maluco estaria apresentando a suposta fundadora da parada como “uma adição ao time”, eu não sei. Ela não é citada como co-criadora ou nada assim.

Literalmente todas as matérias escritas sobre a Lemon que falam sobre um fundador (que não sejam brasileiras, e portanto usando como fonte a própria Bel) identificam Casares como tal. Aí estão algumas:

http://www.bizjournals.com/phoenix/blog/techflash/2015/08/lifelock-lemon-founder-locked-in-dueling-lawsuits.html

http://www.coindesk.com/lemon-wallet-acquired-lifelock-42-6m/

http://mashable.com/2013/12/12/lifelock-acquires-lemon/#YLeyy1Qj4mqf

http://www.recode.net/2014/3/13/11624538/lemon-digital-wallet-founder-wences-casares-gets-20-million-in

https://aerolab.co/lemon

http://latino.foxnews.com/latino/money/2013/12/20/son-sheep-ranchers-lemon-wallet-co-founder-wences-casares-is-serial/

http://www.forbes.com/sites/brucerogers/2012/08/23/will-wences-casaress-lemon-com-replace-your-wallet/#697a181d43cc

É claro e inegável — A única pessoa alegando que Bel Pesce fundou a Lemon é Bel Pesce. Curiosamente, ela jamais corrigiu os repórteres que atribuiram a empresa a ela (de onde você acha que veio a versão em que ela é a criadora da parada, afinal de contas…?).

Ela trabalhou na empresa, sim, mas exagerou os detalhes de sua atuação, o que é bem similar ao exagero dos quatro ou cinco ou seis diplomas.

Veremos que isso é um padrão no currículo da “empreendedora”.

[ Adendo ] Pra encerrar a especulação, perguntei diretamente ao homem que é creditado na mídia internacional sobre o papel da Bel na Lemon.

Eis a resposta, caso os tweets sejam deletados ou algo assim:

A empresa começou em 2011, ela entrou em 2012. Saiu um ano antes da venda.

Teve o FlikDate, também. O serviço era um site de relacionamentos onde usuários podiam uploadear vídeos de até 90 segundos pra “vender seu peixe” e convencer alguém a sair com eles.

Em 2012, Bel deu uma entrevista a Luis Fernando Moura que apareceu na Revista Gol em agosto. A entrevista foi reproduzida nesta prova da Universidade de Caxias do Sul. Diz a matéria:

“ No mês passado, Bel abriu uma segunda empresa nos mesmos moldes e por ela lançou o Flikdate, um aplicativo de relacionamentos que processa vídeos de 90 segundos para que um usuário possa convencer outro a marcar um encontro”

Entretanto, de acordo com essa matéria do TechCrunch, a empresa que criou o app FlikDate foi fundado na realidade por Dominika Wolski, Crystal Johnson, Lauren Lin and Kimberly Hunt. Bel é citada apenas como uma “advisor”.

Parece-me que a empresa não foi “aberta” por ela, ao contrário do que afirma o entrevistador. É intrigante que TANTAS matérias dêem crédito de fundação das empresas à Bel quando o registro diz algo diferente.

(E eu suspeito que pra explicar esse monte de incongruência, alguém vai gastar algum tempo debatendo a semântica do termo “abrir” ou “fundar”.)

Antes da Lemon, a Bel já era conhecida como uma história de sucesso por “ter trabalhado no Google, Microsoft, e Deutsche Bank”.

Exceto que ela não “trabalhou no Google, Microsoft e Deutsche Bank” da forma que vem em mente quando lê esse currículo, e essa ilusão parece mais uma vez intencional. No seu LinkedIn, ela é atipicamente franca — na verdade, ela fez apenas curtos estágios facilitados por um programa do MIT que envia estudantes pra trabalhar em grandes empresas. A realidade é que não há nada de muito glamuroso nesses estágios — os estudantes geralmente executam afazeres triviais ao redor do escritório e participam em modo “read only” (ou seja, só observando, sem muito input ou autonomia) de alguns projetos paralelos das empresas. Basicamente, pra ver como é que é trabalhar no Vale do Silício.

Diga-se de passagem, o MIT manda aluno a rodo pra ser escraviário em empresa de tecnologia. Não é algo particularmente excepcional ou prestigioso. Vários destes estágios sequer são remunerados.

Somando todo o tempo que ela passou nessas três empresas, dá pouco mais de um ano — 4 meses no Google, 4 no Deutsche Bank, e outros 8 na Microsoft (embora neste vídeo ela diga que só passou 3 meses lá…?). E, novamente, o registro histórico não confirma suas alegações de que ela participou de projetos das empresas.

Por exemplo. No LinkedIn, Pesce diz sobre sua atuação na Microsoft:

[Bel Pesce] was part of a project to develop software that uses a webcam to track users’ actions. The main goal was to create a Multi-Touch interface that would let people interact with computers by only using a webcam and colored objects. The project also included a Software Developer Kit (SDK) that would allow other users to create their own Multi-Touch applications. Bel was part of the day-to-day of the project, documented the SDK, produced a demo to show the power of the SDK, recorded walkthrough videos to teach how to use the SDK.

Só tem um probleminha. Aqui está a lista de coordenadores e desenvolvedores do projeto. Aqui há uma página onde o grupo responsável pelo Touchless presta agradecimentos a membros da comunidade que também os ajudaram. Repare a distinta ausência do nome da Menina do Vale nas duas.

[ ADENDO ] Aparentemente às pressas, o responsável pela página adicionou ONTEM uma referência à Bel:

É estranho que uma página intocada desde 2008 seja atualizada horas pra citar a Bel poucas horas após a publicação desse texto. Não parece ter enganado ninguém, no entanto, se julgarmos pelos comentários da página:

E este é o vídeo da apresentação do SDK do Touchless:

A empreendedora brasileira também não se faz presente nessa apresentação. O que é muitíssimo provável é que em sua curta curta passagem na Microsoft, ela fez nada além de auxiliar o grupo em tarefas triviais de escritório — ou seja: coisa de estagiário mesmo.

Isso não a impediu de, aos 24 minutos deste vídeo, se caraterizar como líder/organizadora do projeto. Michael Wasserman, o real idealizador do Touchless, talvez não gostaria de saber que uma autora brasileira de livro de auto-ajuda está tomando crédito por sua invenção.

Quando fala de seus dois meses no Google, Bel diz que…

Developed a tool that help find bottlenecks in the machine translation code. The tool puts together CPU, RAM and disk usage information, along with periodic code profiles.

Mas que “tool” foi essa? Cadê o nome da ferramenta? Por que omiti-lo…? E a documentação? Referência em algum lugar qualquer? Confirmação externa de seu envolvimento com tal ferramenta?

Não existe.

Em sua outra passagem pela Microsoft, ela atribui a si mesma…

Development of software for Smartphones
Fully experienced Program Manager, Developer and Tester roles during the project:
Program Manager: organize the project as a whole — write specifications, negotiate features, drive meetings, research technologies, design project website
Developer: Write clean and efficient code, making use of the newest technologies to improve coding solutions
Tester: Create smart test cases and debug the software

Que software ela desenvolveu pra smartphones? Estagiária program manager? Como assim? Aliás, é curioso que esta prolífica programadora e “fully experienced program manager” não tem uma página no github, ou uma linha de código sequer atribuída a ela. Como alguém frequentou uma das maiores faculdades de tecnologia e se formou em Ciência da Computação sem ter literalmente UMA LINHA DE CÓDIGO PUBLICADA chega a ser fantástico.

Já na Ooyala, uma plataforma de vídeo online que ninguém nunca ouviu falar na vida, ela teria “liderado três times de engenheiros”. Aliás a citação é perniciosamente recorrente:

No único registro da Bel trabalhando na Ooyala que pude encontrar, vemos que ela era uma “associate product manager”, seja lá qual exatamente é o nível de liderança que um “associate” exerce, embora sites sobre cultura coorporativa digam que este é um título dado para funcionários de cargo mais baixo do que aqueles que tem títulos sem essa palavra.

De acordo com o texto, há uma distinção importante entre “associate blá blá blá” e o “blá blá blá”, sendo esta de que o primeiro está em um cargo inferior.

E de toda a organização, pelo menos de acordo com o link, ela era a única “associate”. Todo o resto do time tinha um título pleno. Não eram “associate”

Curiosamente, no LinkedIn, ela remove o “associate”, virando assim uma “Product Manager” plena.

Ela só diz que fez e aconteceu, e a mídia acreditou sem pestanejar. Além de aumentar sua contribuição em projetos, essa é a outra marca registrada de Bel Pesce — a estranha ingenuidade que a mídia brasileira tem perante suas alegações facilmente refutáveis.

Além dessas conhecidas empresas em que Bel Pesce teve uma brilhante participação [citation needed], a inovadora também iniciou inúmeras empresas próprias. Quando eu digo “inúmeras” é literalmente porque não consigo enumera-las; quando mais eu pesquisava, mais empresas supostamente criadas pela Bel Pesce apareciam. A garota é uma boneca russa de empreendimento, você abre uma e tem outra empresa dentro.

Por exemplo. Neste artigo, aparentemente escrito por algum tipo de fanboy da garota, aparece a menção do Talenj, uma empresa co-fundada e comandada pela Bel. O site descreve o Talenj como “a company that makes and designs websites”. No Twitter, ela diz que a proposta da Talenj era “conectar consumidores a marcas por meio de competições“. A UNICAMP descreveu o Talenj como uma empresa que “promove aprendizagem por meio de desafios on lines“.

É quase como se ninguém soubesse que porra afinal é o tal Talenj, né?

Hoje eu farei algo que ninguém da mídia fez: vou te mostrar o que é realmente o Talenj.

É disso aí que a garota é CEO. Ou nem isso, já que de acordo com a política de privacidade da “empresa”, o responsável pelo site é um tal de “Alex”.

Voltando ao LinkedIn da moça, vemos que ela foi responsável pelo “business development” de um tal de Krowder.com. A página é defunta, e até o Wayback Machine tem dificuldade de catar seus elementos. Por que ela estaria clamando atuação com título glamuroso numa “empresa” morta, que ninguém jamais ouviu falar, supostamente num estado onde a Bel Pesce nunca morou?

Acho que podemos imaginar.

Ela é também a CEO e fundadora do WhatIf, um site com design que eu esperaria de um adolescente em 1999 e não de uma graduada em ciência da computação pelo MIT. Novamente — página quebrada, defunta, sem qualquer referência a ela como fundadora, e que muito evidentemente não rendeu um centavo qualquer.

Entre 2007 e 2008, Bel também diz ser a CEO e co-fundadora do “WaterAfrica”, engajada no “Development of a solar-powered piping system that enables better water distribution in Africa“.

Achei duas WaterAfrica na internet inteira. Uma foi fundada em 2006 por alguém chamado Bill Savage, e a outra existe desde 2001. Lembre-se disso da próxima vez que um fanboy da empreendedora disser que a menina “gastou tanto de seu tempo com ONGs beneficentes”, como foi o caso nos comentários do meu vídeo. Talvez ele ache que ela DE FATO fundou tais empresas, quando a realidade é que eram devaneios esparsos de uma garota imaginativa.

Isso não a impediu de dar entrevistas detalhando o funcionamento da WaterAfrica, como vemos aqui:

Bel bolou um sistema de tubulações desmontável, que funcionava à base de energia solar, para distribuir água potável dentro de vilarejos de Moçambique.
– Nós criamos o sistema, mas ele era instalado durante o dia e à noite era roubado — lamenta.

O mesmo artigo diz que Bel foi chamada pra trabalhar na Pixar PELO PRÓPRIO JOHN LASSETER, adicionando que…

John Lasseter, CEO da empresa, chegou a criar um cargo exclusivo na companhia para contratá-la, mas uma proposta “melhor” do Google a desviou do sonho.

Recusou um “cargo exclusivo” na Pixar porque preferiu um estágio no Google.

Eu tô suspeitando que isso aqui é o caso clássico da pessoa que contou tanta lorota que começa a se perder. Esse papo de “proposta melhor” do Google faria sentido se ela estivesse sendo oferecida uma posição efetivada, que é justamente o que ela inicialmente insinuava ter lá.

Quando mais tarde deixou escapar o retcon de que era na verdade um estágio de 2 meses, recusar um cargo exclusivo na Pixar para de fazer qualquer sentido.

No mesmo artigo, Bel (que, lembrem-se, era estagiária — um fato que ela mesma deixou escapar aqui e ali ao longo dos meses) alega que…

Na Microsoft, onde criava aplicativos para smartphones, recebia mimos de todos os tipos para permanecer na empresa. Ingressos para cinema e espetáculos na Broadway, jantares nos melhores restaurantes, tratamento de estrela que, garante, não influenciou nas suas escolhas.

Uma summer intern (ou seja, uma estagiária que só fica lá durante o período de férias de verão da faculdade) recebendo mimos de uma empresa pra continuar lá, como se fosse um contratado figurão roubado de uma empresa adversária por uma proposta milionária.

Não existe nenhum universo regido pelas leis da física como conhecemos em que isso teria sido verdade.

Eu paro pra pensar que esse texto seria bem menor e mais fácil de escrever se a Bel não tivesse inventado TANTA história.

Eis a minha hipótese. O mérito real da Bel resume-se a ser aceita e formar-se no MIT. Lá ela tentou entrar na indústria da tecnologia, e aparentemente não obteve muito êxito, porque tudo que ela conseguiu fazer foi estágios curtos e sites mal-acabados sem muito propósito ou sequer usuários. A empresa que ela supostamente fundou foi vendida por US$ 42 milhões e a menina não recebeu um centavo sequer, aparentemente não manteve equidade na empresa, nadica de nada.

Com o visto de estudante expirando e nenhum prospecto trabalhístico concreto que a permitisse estender sua estadia na gringa (em um vídeo que agora não encontro, ela deixa esse detalhe escapar, chegando a brincar que cogitou casar com um americano pra permanecer nos EUA), o jeito foi voltar ao Brasil. Foi aí que ela decidiu reinventar a “Bel Pesce que se formou numa das mais prestigiosas instituições de ensino tecnológico do mundo e que não conseguiu transformar esse diploma em NADA rentável e sequer permanecer nos EUA” pra “Bel Pesce prodígio com cinco formações, quarenta startups de sucesso, posições prestitiosas no Google e na Microsoft, autora de inúmeros produtos e serviços”.

Não importa quão absurda seja a sua lorota — alguém vai cair nela. Tem gente que acredita no Inri Cristo, afinal de contas. Eu não esperava é que a porra do nosso jornalismo nacional (mesmo tão sedento por histórias de brasileiros vencedores) deixasse a peteca cair tão lamentavelmente, repetindo feito papagaio o suposto sucesso da mulher, inquestionavelmente dando respaldo a “empresas” como a Talenj, sem excercer o mínimo de ceticismo responsável, e assim sendo cúmplice em seu processo de finalmente abrir uma empresa de verdade:

Uma empresa que ensina os outros a fundarem as próprias empresas — com cursos ministrados por alguém que nunca fundou uma própria empresa.

Uma ouroboros do empreendimento. Um loop recursivo de “inovação”. E como não falta trouxa nesse mundo, um moto-perpétuo de dinheiro.

Se a história parece inacreditável, se a despeito de todas as provas que você mesmo pode verificar você ainda acha que a mulher DEVE ser tudo que alega ser “porque apareceu na TV, saiu na IstoÉ…”, eu tenho que te informar que você é muito novinho, ou tem memória curta. Não é a primeira vez que um suposto intelectual com mais títulos universitário do que a maioria das pessoas tem bonés foi à TV relatar seus feitos fabulosos, salpicando suas abobrinhas travestidas de sabedoria. Lembram do Omar Khayyám?

Diga-se de passagem, esse negócio de empreendedorismo de palco lembra muito o esoterismo de rituais religiosos. O culto de personalidade em volta dos”líderes” dos quais não se pode falar mal, lendas passadas de boca a boca sobre seus feitos magnânimos, essa histeria de SIGA SEU SONHO REALIZE SEU POTENCIAL… agora tem até videoclipe chifrim semi-gospel declamando as virtudes do estilo de vida empreendedor:

Que negócio brega do caralho. Troque uma ou duas palavras e você pode passar esse vídeo numa reunião de Herbalife ou em culto evangélico.

Esquecemos do Luiz Almeida Marins Filho, outra estrela do circuito de palestras motivacionais, com passagens por liderança de empresas gringas e inúmeras formações (até DOUTOR ele era!) — até o dia em que alguém olhou a fundo e descobriu que boa parte do currículo era aumentado. Já esquecemos do Bernard Madoff, um dos maiores charlatões que o mundo já viu, que abusou de sua influência no mundo finnaceiro pra fraudar investidores por mais de 18 BILHÕES de dólares?

Há uns cinco anos atrás, certamente alguém que tentasse alertar um amigo admirador do Madoff ouviria um “afff mano, ele é bilionário, tá lá em Wall Street e o caralho, apareceu em mil matérias sobre empreendimento, você acha que sabe mais que ele?” Hoje Madoff, que atende por “Prisioneiro #61727–054”, anseia pela data de sua liberação do chilindró: 14 de novembro de 2139 (sério, ele pegou 150 anos de cadeia. Os gringos não passam a mão na cabeça dos 171).

Algumas pessoas obtém reconhecimento (merecido ou não) e usam isso pra vender o ilusório. Parece exatamente ser o caso da Bel Pesce — foi aos EUA, frequentou uma instituição prestigiosa, passou (rapidamente) por várias empresas, apareceu em algumas matérias na gringa, o que a conferiu o verniz da legitimidade, e pronto: mesmo sem jamais ter empreendido na vida, faz pose e fala como especialista.

E pior, vende como especialista. Ela não fala muito sobre isso porque talvez ainda esteja explorando a validade do modelo de negócios, mas aparentemente a Bel planeja em breve iniciar franquias da FazINOVA, sua escolinha de empreendimento/auto-ajuda, prevendo tiers de investimento superior a cem mil reais.

Bel Pesce não tem literalmente conteúdo algum. Esta é a verdade inconveniente. Ela é basicamente um equivalente feminino do Tai “Here in my garage in Beverly Hills” Lopez: tem dinheiro, é supostamente um famoso empreendedor, já falou no TED também… mas todo mundo sabe que o cara é um charlatão do caralho, e ele é zoado abertamente por isso.

Ela tentou enturmar-se no Vale do Silício, mas nem a formação no MIT ajudou. Sem sucesso, voltou ao Brasil enaltecendo os próprios feitos na Meca Tecnológica tipo o Alfaiate Valente que anuncia “matei sete!”, omitindo que foram na verdade sete moscas — e como o protagonista da fábula, uma vez que a patuléia acreditou no homicídio séptuplo, manter a fama foi só uma questão de malandragem.

Seus livros são repletos de anedotas que, a julgar pelo sua característica de falta de compromisso com a verdade, tem o valor histórico das estorinhas do Sítio do Picapau Amarelo. Os conselhos de “empreendimento” não chegam nem a ser rebuscados como os dos outros autores de auto-ajuda venerados por piramideiros e outras amebas intelectuais. Eu te digo pra “acreditar nos seus sonhos” e “continuar perseverando” de graça.

As “empresas” atuais de Pesce citadas em suas biografias são a tal FazINOVA, que como mencionei é um cursinho de auto-ajuda que ela tem aspirações de transformar em franquia; a Enkla, uma editora que só publica livros dela, A “Figurinhas”, uma agência de publicidade que nem site tem, e oBeDream, com um site tão vago e piramidesco que eu te DESAFIO a me explicar do que se trata.

A moça não fez nem metade do que é atribuído a ela, e seus “empreendimentos” são transparentemente um veículo pra reafirmar sua habilidade de empreendedora. Empreendedorismo vindo do nada e servindo pra alimentar o próprio empreendedorismo: há algo quasetermodinamicamente errado com essa equação.

E nem precisei ir pro MIT pra perceber isso.

[ Mais um adendo ] Até “sócia do Bill Gates” constava nas descrições da moça, noto agora. Fico curioso de quem teria dito isso ao autor desse texto…

[ Ainda mais um adendo ] Meu santo padre ciço, eu AINDA estou recebendo comentários assim:

Eu literalmente não entendo a dificuldade de vocês de entender esse trecho do artigo. É bizarro, os comentários dessas pessoas me indicam que são gente inteligente, tirando esse lapso de lógica aí.

Eu jamais falei “é absurdo, incomum ou errado informar major/minor ao falar de sua educação acadêmica, ninguém faz isso, é praticamente ilegal de tão estúpido”.

Em momento ALGUM eu falo isso, mas tanta gente me empurram esse espantalho, incessantemente, que eu já tô ficando maluco tendo que explicar isso.

Vou explicar calmamente mais uma vez, espero que pela última — eu falei, acredito que bem claramente, que é ESTRANHO que a Bel Pesce informe só os majors e minors, SEM DIZER EXPLICITAMENTE QUAL É O DEGREE DELA.

Em NENHUM CONTEXTO PROFISSIONAL NORTE AMERICANO (e eu acho que sei bem disso, morando aqui há 13 anos e tal) você verá alguém falando que tem majors e minors SEM FALAR QUAL A SUA FORMAÇÃO. É estranho, soa esquisito, soa incompleto, e é bastante indicativo de gente que cursou, não se formou, mas quer insinuar que tem o cacife intelectual sobre a disciplina.

Essa sintaxe é típica de quem não se formou. O único uso comum desse tipo de linguagem é justamente nesse contexto: fingir ter mais mérito acadêmico do que realmente tem. Ao dizer que “majored” em alguma coisa, o cara que dropped out não está necessariamente mentido, mas está induzindo quem ouve a concluir que ele é formado.

Que é geralmente a intenção.

Eis um exemplo prático:

I have a Bachelors Degree in Mathematics from NYU with a major in Statistics and a minor in Software Engineering” = perfeitamente válido, embora detalhado ao ponto que poucos se interessam. Ninguém realmente se importa pro seu major, e DEFINITIVAMENTE não se importam com seu minor.

(A propósito, cabe aqui um parêntese: essas empresas gringas de tunagem de CV são um golpe que só arrancam grana dos ESLs (pra quem não sabe, “English as Second Language”, ou seja, imigrantes com eu e você) que não tem as manhas gramaticais/de redação, sinto muito te informar. Espero que você não tenha pago muito caro)

Por outro lado…

I have a major in Statistics and a minor in Software Engineering”, que é um análogo do que a Bel diz em sua biografia em inglês = qualquer entrevistador imediatamente perguntará “…huh, so, did you graduate? Did you drop out? What’s your degree actually in?

ENQUANTO ISSO, em português ela diz sem titubear “TENHO CINCO DIPLOMAS”. Minha desconfiança, que até aqui modéstia a parte esteve correta sobre a Bel, é que ela julgou que brasileiros seriam mais burros/ingênuos em relação a essas coisas e que “vai colar”.

Uma vez que ter X majors e Y minors ABSOLUTAMENTE NÃO SIGNIFICA TER X+Y DIPLOMAS, está flagrante a contradição, e foi essa contradição que me motivou a pesquisar profudamente. E na pesquisa, minha hipótese se confirmou: ela não tem 5 diplomas.

Não me façam ter que explicar essa merda de novo, especialmente porque 1) eu estava certo, ela não tem 5 diplomas, e este é o ponto e 2) é irrelevante perante os outros achados do post. Essa idiossincracia acadêmica não é o ponto central da história.

(Postei o texto neste tal de Medium porque meu site tá caindo desgraçadamente desde que o publiquei. Isso que dá não ter 5 diplomas do MIT e não saber configurar servidor. Meu site é www.hbdia.com seja lá quando ele voltará ao ar, e estou sempre lá pelo Twitter como @izzynobre)

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Izzy Nobre’s story.