Mas afinal, quem é a Geração Z?

João Malafaia
Sep 6, 2018 · 20 min read

Por Camila Campache Motta, Camila Martins Miguel e João Ferreira Malafaia Macedo, alunos do 1º JOB

A Geração Z descrita em poucas palavras por pessoas de diversas idades

Conectados, instantâneos, ansiosos, conversadores, multitarefa, obsessivos e com ressaca de internet. Essas, e muitas outras palavras, podem ser usadas para definir a Geração Z. Nascidos entre os anos 1990 e 2010, os Z’s vieram ao mundo junto com a invenção da internet e cresceram acompanhando os principais lançamentos do mercado tecnológico. Por se tratar de uma geração que está constantemente conectada, estamos falando de pessoas que estão sempre recebendo, criando e compartilhando informações e exatamente por terem a informação na palma das mãos, literalmente, essa geração tem mais acesso a conteúdos e discussões, o que dá uma nova visão de mundo que tende a ir contra ideais fortemente defendidos por gerações passadas, causando em um choque de gerações.

Muito além de quesitos cronológicos e pontuais, esta geração é definida também por questões sociais e ideológicas e é a finalidade deste trabalho mostrar essas questões, situando-as com as características mais marcantes da Geração Z.

Meninas Superpoderosas Geração Z — https://www.pinterest.ie/pin/243968504796695130/

Geração Z: quem são? Onde vivem? De onde vieram? O que comem?

Segundo a Wikipédia, “meme é tudo aquilo que os utilizadores da Internet repetem, simplesmente uma ideia que é propagada através da World Wide Web” (www), sendo uma unidade mínima de evolução cultural, tendo como característica a possibilidade de ser criado, recriado ou reutilizado por qualquer um.

Mas por que os memes estão nesta matéria?

https://giphy.com/stickers/john-travolta-H6KRGhgRMbBwA

As pessoas da Geração Z transformaram os memes em um sentimento, uma forma de expressão que vai muito além de uma ideia propagada, possuindo muitas vezes um caráter mais expressivo do que as próprias palavras, sendo considerado por alguns como a voz dessa geração. Os memes foram adotados como filhos dessa “geração nutella” que vive em redes sociais, gerando a possibilidade de unir diversas pessoas que individualmente se unem por um objeto comum, os memes.

Os memes podem ser usados como espelhos do emocional, sendo usado de forma icônica para representar alguns sentimentos. Porém, ultimamente os memes com aspectos mais tristes, ou como os internautas chamam “depressivos”, vem ganhando força na rede, de modo que tais sentimentos começaram a receber um tom de brincadeira, como se essa sensação de tristeza constante fosse algo normal. Vale a pena ressaltar que muitas vezes a pessoa se sente pressionada pela quantia de “memes depressivos”, de modo que sua constância influencie a algumas pessoas a pensarem que elas possuem certo transtorno mental, criando assim uma série de sintomas fantasmas que, de alguma forma, se encaixam nos sintomas compartilhados virtualmente.

https://br.pinterest.com/pin/730709108265288010/

Outro sentimento que é constantemente encontrado nos memes é a raiva, o qual muitas vezes se mistura com o preconceito e acaba por se camuflar no tom de chacota. Vídeos de pessoas se agredindo ou cometendo atos de violência ocasionalmente tornam-se memes, mas até que ponto tudo isso é engraçado? Para muitos, essa geração é considerada uma das mais violentas, principalmente na internet onde as discussões são muito frequentes. Muitas dessas discussões acabam então por incluir os memes que possuem um certo tom de provocação, onde se põe em prova também a bagagem cultural da pessoa, quanto melhor o timing do meme e a sua qualidade, maior será a moral dessa pessoa, ou seja, os memes tornaram-se parte do repertório desta geração.

Podemos exemplificar essas discussões virtuais através da Guerra memeal. “A disputa teve como pivô a autoria do meme brasileiro “in brazilian portuguese we don’t say” (em português do Brasil nós não dizemos), que fez sucesso em 2015 ao fazer trocadilhos entre expressões inglesas e brasileiras. Usuários brasileiros do Twitter, Facebook e da Desciclopédia descobriram a conta “In Portugal We Don’t”, que existe desde novembro de 2015, e começaram a acusar os portugueses de roubarem o meme.”, como explica o site Desciclópedia (http://desciclopedia.org/wiki/Primeira_Guerra_Memeal). Neste contexto as ofensas ocorreram principalmente por meios de tweets e por memes, deixando explícito o caráter parental dos brasileiros com os memes.

https://twitter.com/milafairth/status/742719780038270976

Os memes cativam a todos por possuírem essa capacidade de se adequar a situação, dando a impressão de sempre estarem presentes da forma correta. Levando em consideração que a massiva maioria dos memes possuem cunho de comédia, a importância deles nessa geração só se reafirma. Em uma geração marcada pelo estresse e pela velocidade de informação, momentos de “escape” muitas vezes são direcionados aos memes, onde os internautas conseguem obter as risadas e ainda possuem a oportunidade de compartilhar o motivo dessas risadas com amigos e com uma diversidade de pessoas que se reúnem virtualmente pelos memes.

Mensagem do Akon conselheiro para os leitores:


Não se esqueça de dar um Like

Não gratuitamente, a marca mais forte da Geração Z é a tecnologia, que nos balançou o berço e que hoje podemos ousar dizer… nossa melhor amiga? Cada vez mais, e em todas as áreas da sociedade, o digital toma conta como avalanche e azar de quem não se adequar, pois ela veio para ficar! Com um público extremamente diverso e atenção de 80% dos Z’s, o YouTube se tornou a maior plataforma monetizada e de maior acesso hoje em dia. Com espaço para — literalmente — todas as áreas de atuação, Youtuber é uma das mais novas carreiras que veio com a geração ultra conectada. Com perfis em múltiplas redes sociais, existem também os Digital Influencers e Bloggers, que com características únicas e empáticas à seus respectivos públicos, se aliam ao marketing e revolucionam a ideia de compra e consumo. Assim, com mais de 4 milhões de inscritos e apenas 18 anos, Bibi Tatto encontrou sua carreira como Youtuber de games e vlogger.


Quem é você na vida real?

A vida da Geração Z está imersa na tecnologia, não há maneiras de se negar isso, somos uma sociedade que está conectada às redes 100% do tempo. Essa relação se tornou uma espécie de mutualismo extra biológico, no qual não conseguimos viver sem as redes sociais e tampouco elas conseguem se desenvolver e se espalhar no mundo sem a nossa ajuda. Com tamanha dependência, é natural que as fronteiras entre vida online e vida real acabem por ficar borradas e até mesmo inexistentes, quando a vida nas redes consome por total nossa vida fora delas.

Por sentirmos essa necessidade de estarmos sempre conectados e sempre a par de tudo que acontece, para não acabarmos excluídos, apelamos para uma super exposição da nossa vida. O que antes era visto com vida privada perde seu peso e sua necessidade e passa a ser, cada vez mais, uma vida exposta. Para Bauman, isso explica-se, pois na internet há um sentimento geral de competição, onde todos se expõem e vence quem tiver a melhor vida.

https://giphy.com/gifs/black-mirror-JIfcNVDifyPyo

Essa competição exacerbada acaba por levar a um grande problema: a exposição de uma vida que nem sempre condiz com a realidade. “Eu tenho pacientes que saíram de redes sociais porque invejavam aquela vida que é exposta, mas ali só está a sua melhor versão”, explicou a terapeuta Catarina Vidal “isso traz um mundo de ilusão fantástico de pessoas normais. A pessoa pode estar mal, deprimida, mas isso ninguém vê”.

Esse papel de quem expõe uma vida ótima é, muitas vezes, ocupado pelas e pelos influenciadores digitais. Em sua maioria mulheres, elas expõem uma vida repleta de viagens, maquiagens, roupas e acessórios de grife, corpos bronzeados e malhados e namorados galãs. Então essa vida virtual perfeita faz mal não somente para quem a vive, pois ajuda a esconder os problemas reais, mas como também pode prejudicar quem a vê, pois ao comparar uma vida com a outra, cria uma sensação de insatisfação e decepção, que pode muitas vezes acarretar no desenvolvimento de patologias psicológicas, como a ansiedade e a depressão.

A cultura da Geração Z, a cibercultura, promove uma quebra do estigma da invasão de privacidade, onde este se torna a evasão de privacidade. Não precisamos mais que as pessoas procurem saber sobre nós, nós mesmos facilitamos esse processo postando o que fazemos, gostamos, comemos e muito além na própria rede. A internet assumiu o papel de vida real, onde tentamos vender nossa imagem da maneira mais bonita possível. Somos ao mesmo tempo vendedor e mercadoria.


Como assim? Você nunca comeu brócolis?

100 gramas de brócolis: 2,8 g de proteínas, 0,4 g de gorduras totais, 33 mg de sódio, 316 mg de potássio… pera aí, BRÓCOLIS? Este vegetal em especial é uma grande aposta entre os vegetarianos e os veganos, graças a grande quantia de proteína que este possui, além de seu sabor apreciado por muitos.

O vegetarianismo e o veganismo vêm ganhando força nesta geração que possui uma maior preocupação com o meio ambiente e com a própria saúde. Mas no que se baseiam tais movimentos? O vegetariano não come carne, mas consome produtos de origem animal, diferentemente do vegano que além de não se alimentar com carne, não consome nenhum produto de origem animal.

De acordo com a pesquisa realizada, apesar de não contribuírem com o movimento, a maioria das pessoas nascidas entre 1990 e 2010 simpatizam com a causa.

(https://www.buzzfeed.com/hilarywardle/secrets-people-who-date-vegans-wont-tell-you?utm_term=.gmX2p61qw#.ae5ODKd7n)

De acordo com Caroline Soares, criadora do grupo do Facebook “Veganos Pobres”, tal distanciamento se deve a falta de informação e preconceito com a causa, além da visão errônea de que tais movimentos sejam elitistas. Ela ressalta que a mídia, os estabelecimentos e as marcas veganas mostram produto inacessíveis para as pessoas, sendo que o estilo de alimentação pode ser alcançado com produtos populares, o que é muito reforçado no grupo onde receitas autorais são compartilhadas, ou seja, ainda é necessário que ocorra uma desmistificação, a qual está sendo muito disseminada por ativistas desta geração, principalmente pela internet.

“Vejo mais como uma maturidade prematura. As crianças têm mais acesso à informação através da internet, então elas acabam amadurecendo, acabam virando porta-vozes de um movimento muito importante muito cedo e eu acredito que isso seja algo verdadeiro […]”, diz Caroline quando questionada se o vegetarianismo e o veganismo são uma tendência passageira nesta geração.



“Professor é agredido por aluno”

Nos dias atuais, ler manchetes como esta se tornou algo corriqueiro, sendo que suas aparições estão cada vez mais frequentes e graças a tal frequência acaba-se por esquecer que não há normalidade alguma em incidentes deste cunho. Nesta geração marcada por pessoas que cresceram sem a imposição de limites por pais e/ou responsáveis, atos de violência são a escapatória encontrada para ultrapassar as barreiras que as dificuldades constroem.

“Acredito que o modelo de educação atual não prioriza muito a formação moral do educando, apenas sua formação acadêmica” diz Hebe Cristina Silva, formada em letras pela UNICAMP que leciona em diversas escolas atualmente, a falta de disciplinas voltadas à área cultural tem um impacto muito grande na educação dessas pessoas, gerando uma lacuna em certas especificidades. Hebe afirma que a inserção de disciplinas com tais focos trariam grande benefícios aos alunos, podendo ajudar no desenvolvimento de um olhar mais crítico e analítico, além de acarretar uma bagagem cultural de grande valor.

Segundo a professora, as gerações anteriores a Z apresentavam maiores ambições em relação aos estudos, podemos citar como os maiores distratores desta geração: as redes sociais, smartphones, vídeo games, sendo que a quantia de horas que se passa conectado supera a quantia de horas de sono, o que afeta diretamente no rendimento em sala de aula, tudo isso somado aos transtornos mentais que estão cada vez mais presentes em crianças, tendo como resultado pessoas cada vez menos focadas.

Apesar da insatisfação das pessoas desta geração com a eficácia de modelo de ensino brasileiro, não são notadas mudanças nas salas de aula, esta luta não pode se tornar uma via de mão única onde apenas os professores, que apesar de não possuírem todo suporte de projetos governamentais, seguem na luta por um ensino de qualidade na medida do possível. A noção da importância dos estudos é algo que precisa ser mais enfatizado, num mundo onde os que têm a oportunidade não dão o devido valor e simultaneamente há pessoas que não possuem oportunidades tão boas e lutam diariamente pelos estudos. É um paradoxo.


Nem direita nem esquerda

Seja pela conjuntura do país ou por uma nova ideologia criada com a Geração Z, se vê cada vez menos nesta geração o suporte de partidos ou de personalidades da política, e cada vez mais o hastear de bandeiras, de ideais. Percebe-se assim um certo desinteresse político, que poderia se explicar parte pela falta de representatividade na política e nos candidatos gerada pela polarização, perdendo assim na multiplicidade de projetos e ideias para o país.

O mesmo fenômeno de polarização se percebe no resto do mundo, com a acirrada disputa entre democratas e republicanos nas eleições americanas de 2016, que espelham a radical distância ideológica que divide a população norte americana ao meio, assim como acontece atualmente na delicada relação americana com a Coréia do Norte e China.

Assim, a juventude tem reagido de maneira resistente à políticas de caráter conservador e no Brasil se destacam os movimentos estudantis com caráter reativo, “Se a juventude teve um papel muito importante na resistência a ditadura e depois no processo de redemocratização, hoje possuímos o dever histórico de não deixar que a democracia frágil de nosso país, construída a duras penas e com uma série de limitações, seja destruída”, lembra Daniel, integrante do grupo Balaio de estudantes petistas da USP. Um exemplo claro foram as manifestações de junho 2013, que no início tiveram protagonismo estudantil contra o aumento da passagem, mas que com o tempo se tornaram despolitizadas e completamente tomadas pela mídia.

Às vésperas de uma eleição presidencial, num país imerso numa crise política e econômica, com 52,4% de jovens sem posicionamento político (segundo pesquisa) e com um aparente desinteresse em relação às questões políticas, a dúvida sobre o futuro político do país é preocupante e os debates nas ruas — e nas redes — ficam cada vez mais quentes.

Mais uma vez a internet se mostra como chave da questão, sendo palco de debates e discussões calorosas sobre geopolítica, e é desta maneira que a maioria dos jovens hoje se integram nas questões políticas, “Acho que o dinamismo, principalmente pela introdução da internet, algo inédito na sociedade e, consequentemente, no movimento. Hoje a integração e a rede de comunicação entre os movimentos se dá de forma muito mais rápida e ágil, podendo rapidamente saber o que está acontecendo desde o sul até o norte”, lembra Daniel, “A Geração Z tem uma particularidade que vem do avanço tecnológico, mais especificamente, a internet. Essa particularidade é muito importante para entender o modo de fazer política dessa geração, tendo seus bônus e ônus”. Na rede, há a “memeficação” de personagens políticos e por meio deles, o debate se desenvolve pelos jovens de maneira mais descontraída.

A visão sobre questões políticas passa por turbulências e falta de representatividade, e cabe à nova geração desenvolver a estrutura administrativa do futuro do Brasil e do mundo.


Cada um em sua caixinha

Geração Z, aquela que é vista pelas gerações anteriores como uma geração confusa sexualmente. Essa designação se deve principalmente ao crescimento do acrônimo LGBT+ e da diminuição do número de pessoas que se denominam heterossexuais.

De acordo com a pesquisa realizada em 2015 pela empresa britânica YouGov, menos da metade das pessoas da geração Z são heterossexuais. Pode-se dizer então que mais da metade dessas pessoas são confusas? Não.

“Essa necessidade de classificar e de excluir o que não pode ser colocado numa caixa, é algo que está muito presente na sociedade em que estamos inseridos”, diz Miguel Perez membro do coletivo LGBT+ da faculdade Cásper Líbero. “A ‘rotulação’ feita, principalmente pelas pessoas das gerações anteriores, dá a percepção de que cada um precisa ser como a sociedade espera e possuir as características que são estabelecidas previamente com esses rótulos”. O fato de que agora existem termos para descrever identidades variadas, mais e mais pessoas estão percebendo que elas se encaixam em outra “caixa” ou nenhuma “caixa”, e essa liberdade de poder assumir quem você é incomoda a muitos.

http://gagadaily.com/forums/topic/244317-chile-to-legalize-gay-marriage/

A pesquisa realizada com as pessoas da geração Z mostrou que a bissexualidade é uma das orientações mais recorrentes entre a geração. “A bissexualidade é atração sexual por mais de um gênero binário. Contrapõe-se às monossexualidades (heterossexualidade e homossexualidade). Não inclui todos os gêneros não binários mas sim apenas os gêneros binários, homem e mulher”, segundo definição da Wikipédia. Grande parte da invisibilidade dessa orientação se deve a essa dificuldade das outras gerações de colocar na “caixa” da sociedade uma orientação que não se encaixa nesses padrões, além da dificuldade de entender que tal orientação não é uma fase de curiosidade onde ocorrem experiências com homens e mulheres.

De acordo com ‘O Globo’, 433 mortes registradas em 2017 eram de pessoas LGBT+’s, ou seja, independente do passar dos anos a LGBTFobia continua intrínseca a esse mundo, apesar da retirada da homossexualidade como doença da lista de doenças da OMS, os assassinatos, violências verbais e não-verbais, não aceitação, entre outros, continuam presentes.

Em contrapartida a toda essa negatividade, o movimento LGBT+ vem ganhando muita força com a adesão de várias pessoas desta geração, contando com o apoio de simpatizantes com a causa também. Todo o ódio recebido parece ser transformado em combustível para essas pessoas que lutam cada vez mais pelo o que são seus por direito. Afinal, não há nada mais lindo do que ser você mesmo.


Jovem, negro e orgulhoso

Mais da metade de população brasileira é negra, 53% para ser mais específico, então na teoria os índices deveriam ser divididos igualmente entre negros e brancos, mas a realidade está muito longe disso.

Nessa realidade que estão surgindo jovens negros, empoderados e orgulhosos que buscam lutar por uma igualdade que não esteja somente no papel, mas que também seja exercida na prática.

Um exemplo dessa luta é a paralisação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) no mês de maio. No começo do ano, uma professora negra foi contratada para substituir, provisoriamente, uma outra professora que havia saído em licença médica. A professora Márcia Eurico, que dá aula na área de serviços sociais, curso que tem uma maioria de alunos negros, mostrou aos alunos como era insignificante o número de professores negros na universidade, quando comparado com o número de professores brancos. A mobilização também foi aderida por alunos de outros cursos, que viram no movimento uma oportunidade para mudar o racismo enraizado na universidade. “Claro que tem aluno que é contra a paralisação, tem gente que fala que está pagando e que vai para lá para ter aula, para aprender. Mas eles não entendem que mobilização também é aprendizagem” explica Suelma Deus, assistente social e uma das representantes da SOWETO, uma organização negra de São Paulo. A mobilização que no início visava só o contrato permanente da professora Márica, começou a lutar por pautas maiores como a importância do ensino e da discussão social na formação superior.

A resistência e o orgulho negro também estão presentes na estética. Hoje os dreadlocks, as trancinhas, as estampas tribais e os turbantes têm um papel muito mais que embelezador para as jovens negras e os jovens negros, eles simbolizam suas raízes e mostram como, apesar das inúmeras tentativas de destruir sua cultura que tenham acontecido no passado, eles seguem na luta. Justamente por ter esse motivo mais profundo, o tema da apropriação cultural é muito trazido à tona hoje em dia. Não se trata apenas de uma branca usando um turbante, mas sim de toda uma indústria da moda que sempre deu, e ainda dá, preferência à modelos negras e que tira todo o valor simbólico de uma peça para vendê-la somente como uma mercadoria.

http://www.revistacapitolina.com.br/formation-povo-negro-eua/

A Geração Z de mulheres e homens negros vem mais empoderada e orgulhosa do que nunca, ostentando o black power, os adereços e as religiões de matriz africana e batendo de frente com os racistas.


Feminismo is the New Black

“Feminista: uma pessoa que acredita na igualdade social, política e econômica dos sexos”

De um movimento contracultural à uma onda mundial, o feminismo se tornou uma pauta recorrente, presente nas lojas, nas propagandas, nas ruas, na sua timeline, na palma da sua mão. Mas o que torna o feminismo tão forte hoje, que não o era apenas algumas décadas atrás?

Das bruxas da idade média, passando pelas sufragistas e hoje as famosas “feminazis”, a luta das feministas sempre passou a impressão de um movimento agressivo e demasiado revolucionário. Com a internet, a disseminação de informação em grande escala deixou de ser completamente monopolizada e vertical, permitindo, literalmente, que o mundo todo grite (ou digite) aos quatro ventos sobre o que bem entender. Com o hiperestímulo ao debate, a conversa e a troca de experiências, os ideais do feminismo que antes soavam como um bicho de sete cabeças, se tornam mais… palpáveis. Ou menos absurdos.

Muito se tem feito atualmente através de projetos que andam lado a lado com o debate e discussão sobre o tema, desde os pequenos grupos de debates e coletivos acadêmicos até movimentos como a Marcha Mundial das Mulheres, que nasceu em 2000 como uma grande mobilização de milhares de mulheres do mundo todo em uma campanha contra a pobreza e a violência, “A Marcha busca construir uma perspectiva feminista afirmando o direito à autodeterminação das mulheres e a igualdade como base da nova sociedade que lutamos para construir”, como explica a página do movimento na internet.

“Hoje somos uma organização muito envolvida com o movimento feminista e participamos da secretaria operativa da Marcha Mundial das Mulheres”, conta Carla Vitória, colaboradora da Organização Sempreviva Feminista (SOF), fundada em 1963. A SOF surgiu atuando com a saúde reprodutiva das mulheres e com o feminismo, com a luta contra a desigualdade entre homens e mulheres. Carla também ressalta a importância que a internet tem hoje de entrar em contato com meninas mais jovens, compartilhar ideias positivas sobre o movimento e esclarecer para quanto mais pessoas possível sobre o que se trata de fato a luta pela igualdade. Assim, Bibi Tatto, Youtuber de games, também comenta como é trabalhar neste setor majoritariamente masculino e como tem se dado a presença das mulheres na rede.

Fora do Brasil há acontecimentos como o #MeToo em Hollywood, que numa espécie de primavera árabe, causou o maior conjunto de denúncias de abuso sexual e assédio dentro de produções cinematográficas por atores e/ou diretores de maneira jamais vista. Personalidades como Emma Watson, que com sua forte influência lidera discussões promovendo a igualdade de gênero e o projeto He for She. Da mesma maneira, diversas cantoras e atrizes como Beyoncé, Rihanna e Meryl Streep se mostram extremamente positivas ao feminismo, nos lembrando da importância das mulheres no mercado de trabalho, de suas exaustivas jornadas duplas (até triplas), da sororidade e do lugar que a mulher realmente merece na sociedade.

“Eu não sou mandona, eu sou a chefa.”

Mas, como nem tudo são flores, por mais que se tenha dado largos passos atualmente rumo a igualdade, não se pode esperar uma resolução em poucos anos de uma situação sistemática e incrustada na história humana. Há ódio e ações retaliativas ao feminismo, há discórdias dentro do próprio movimento e muitas questões envolvendo o papel dos gêneros, que requerem debates intermináveis. Ainda vivemos num mundo onde marcas vendem a ideia de serem pró-feministas porém se utilizam de trabalho análogo ao da escravidão com suas costureiras; onde o salário para um mesmo cargo é 40% menor para mulheres negras em relação ao dos homens; que segundo dados da OMS, taxas de feminicídio aumentaram em todo o mundo em 2017 e novamente em 2018.

Por motivos como estes, o feminismo chegou dando chave de braço no sexismo e colocando a cara à tapa para dizer de uma vez por todas, “basta”. Esta é a cara da mais nova geração de mulheres que não aceitarão nãos como respostas. E adivinha só? Elas não estão sorrindo.

“As mulheres são o poder”

Sexo com insatisfação

Uma das características que mais marca a Geração Z é a da libertação sexual. Somos uma geração que está, mesmo que de maneira lenta, se desprendendo de rótulos, principalmente quando o assunto é a sexualidade. Como uma herança do Woodstock, na década de 1970, o amor livre é visto por essa geração como um direito intrínseco ao ser humano, nossa geração prega pelo amor entre homens, mulheres, entre mais de dois e também entre somente uma pessoa consigo mesma.

Porém essa libertação sexual vem acompanhada com uma constante insatisfação. “Cada vez mais as pessoas estão querendo ter mais parceiros e nunca estão satisfeitos, está havendo um ‘Estou com você, você é muito legal, mas você tem um problema então deixa eu trocar e vou com outro’ e sempre tem um problema, acho que o pessoal está tão ‘eu quero a pessoa perfeita’, até mesmo com relações sexuais”, disse a sexóloga Carine Saito.

A principal causa dessa constante mudança de parceiros parece ser, ironicamente falando, o amor próprio. Nós da Geração Z reforçamos muito a ideia de que é preciso se amar acima de tudo e de todos, então quando não estamos satisfeitos com algo em uma relação, especialmente na cama, tendemos a desistir e buscar por alguém que possa nos dar o que procuramos. O problema é que muitas vezes não sabemos o que estamos procurando, como enfatiza a sexóloga “Ocorre uma procura de uma coisa que você nem sabe o que é, isso que eu to percebendo ‘Eu queria uma coisa mais diferente no sexo’ ‘O que?’ ah não sei, diferente’ e então a pessoa vai tentando várias coisas ‘Agora é com menino, agora com menina, agora com grupo, agora vou vestido de mulher ou vestido de homem’ ”. Então essa insatisfação acaba levando a novas descobertas e também a descobrirmos o que realmente queremos.

Como se vivêssemos constantemente dentro do dilema do “Deus me livre mas quem me dera”, estamos fazendo parte de relacionamentos cada vez mais rasos e curtos, dormindo com mais e mais pessoas, passando a imagem de que não queremos nada sério com ninguém, quando na verdade tudo que queremos é alguém que seja capaz de entender o que procuramos e que também possamos ser assim para essa pessoa.


Nunca mais eu vou dormir

Todo dia nós “recebemos” 24 horas para serem usadas da maneira que bem entendermos e, na maioria das vezes, tendemos a aproveitá-las ao máximo para que sejam bem produtivas. Entretanto, algumas vezes parece que 24 horas não são o bastante para a montanha de coisa que precisamos fazer, então acabamos por rearranjar essas horas para tentar encaixar nelas tudo que a nossa agenda demanda.

O que você faz da meia noite às seis da manhã? Nada, só dorme certo? Então é nessas horas de ócio, que já são poucas, que encaixamos nossas obrigações que não couberam no resto do dia.

Em uma pesquisa realizada por nossa equipe pudemos observar que mais de 40% dos pesquisados, todos da Geração Z, dormem menos de seis horas por noite, quando o recomendado seria de, no mínimo, oito horas.

O que também aparece como um dos principais fatores para a diminuição de horas de sono na Geração Z são os aparelhos eletrônicos e as mídias sociais. “Eu não consigo me desconectar da rede social, não consigo me desconectar das informações” explicou a terapeuta Catarina Vidal, e ainda mostrou como o uso excessivo das mídias está agora desencadeando em problemas maiores que a falta de sono, “o transtorno de dependência digital é um estudo hoje em dia, porque a internet tá em tudo, aquilo rouba o seu tempo, é um dos fatores que rouba você da sua vida e de você mesmo.”

A Geração Z é muito curiosa, junte isso com tudo o que queremos e temos que aprender e temos várias horas de sono comprometidas.


Nosso papel

Assim como em todas as gerações anteriores, a Z também sente a necessidade de deixar a sua marca mas, diferentemente das outras gerações, temos preocupações mais fortes que nossas antecessoras. Temos este forte desejo de mudar o mundo, para melhor obviamente, e queremos deixar esse pensamento como uma herança positiva para as gerações que estão por vir.

Você não sente, não vê

Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo

Que uma nova mudança em breve vai acontecer

O que há algum tempo era novo, jovem

Hoje é antigo

E precisamos todos rejuvenescer

[…]

No presente a mente, o corpo é diferente

E o passado é uma roupa que não nos serve mais

Elis Regina já dizia em 1976 na música Velha Roupa Colorida, é de nossa natureza mudar e adaptar-nos às mudanças que nos são propostas. A Geração Z vem como uma nova roupa, mais ajustada ao tempo atual e à todas as suas especificações, sejam elas sociais, econômicas, alimentares ou ambientais. Uma roupa que não será jogada fora pelas próximas gerações, mas ajustada, recortada, rasgada e mudada, mas sempre presente no guarda-roupa.

Meninas Superpoderosas Geração Z — http://theppgz.wikia.com/wiki/File:Ppgz2.gif
João Malafaia

Written by

Estudante de jornalismo, tagarela nato, metido a modelo de FW, usuário de meiota na canela e viciado em podcasts. Ah, e às vezes eu escrevo uns textos.

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