Por que as bailarinas negras sofrem mais?
Por Camila Miguel e João Malafaia
Como as dançarinas negras lidam com a pouca variedade de tons de pele em meias, sapatilhas e tutus — e a mudança desse cenário no Brasil e no mundo.

Ensaios que te exigem o máximo, estar em forma sempre, regular tudo que entra no seu corpo, exercitar sua flexibilidade ao limite. Ser uma bailarina por si só já parece uma tarefa bastante cansativa. Há também a necessidade de comprar o figurino, materiais e acessórios — e para algumas pessoas, essa etapa tem dificuldades adicionais. Se você não acha uma sapatilha, uma meia calça ou um tutu no seu tom de pele, como fica? Por essa situação passam muitas, senão todas, as bailarinas negras no Brasil.
Camilla Sant’ana tem 20 anos, estudou balé a vida toda e hoje cursa dança na UNICAMP, além de ensinar a arte para crianças em Piracicaba. Ela explica qual é a importância da roupa no mesmo tom de pele da bailarina. “A meia calça e a sapatilha iguais à pele criam uma uma linha que alonga o corpo da dançarina,” começa ela. “A bailarina parece estar dançando descalça nas pontas dos dedos, flutuando pelo palco.” As roupas em tons róseos e brancos, então, acabam por quebrar essa ilusão nas bailarinas de pele negra.
Por que rosa?
O balé clássico, dançado nas pontas das sapatilhas, é uma arte que existe desde o século 19. Mesmo tendo suas raízes na nobreza europeia branca, o balé se difundiu para o mundo todo e hoje é uma das principais danças aprendidas em todo o planeta. A meia-calça rosa foi instituída pelas russas, que precisavam se proteger do frio, mas não podiam acabar com a ilusão inicial do balé. “Elas têm esse tom de pele mais pro branco e cor-de-rosa, ou mais pra salmão, e nós brasileiras não temos essa cor,” explica Camilla.
Aqui no Brasil, as academias de balé acabam usando as roupas em rosa e branco por facilitar na comunicação e padronização das alunas. “É mais fácil eu falar pras crianças e pros pais ‘meia calça rosa e sapatilha rosa’.” Camilla conta ainda que, por se tratarem de crianças, os materiais não têm uma qualidade muito alta. Elas têm menos cuidado, então criar produtos mais caros e mais segmentados dificultaria ainda mais o acesso das meninas à dança.
A preparação para o palco
Ana Cristina Paulino é uma bailarina profissional de 26 anos. Atualmente ela trabalha na companhia Joburg Ballet, em Johannesburgo, na África do Sul. Ela explica o processo de preparação das roupas, principalmente das sapatilhas, para um espetáculo. Esse processo é como um ritual, cada bailarina faz ele da forma que preferir, mas tende a seguir um modelo.
Depois de escolher as sapatilhas é preciso costurar as fitas e o elástico, que ajudam no firmamento dos calçados aos pés. Em seguida vem a quebra das sapatilhas, o que as amacia e facilita na dança. Nesse processo, muitas táticas são usadas, como arrancar a palmilha, pisar na parte da frente dos calçados e bater as sapatilhas na parede. “Para elas moldarem no pé demora alguns dias” explica ela, “e tem que usar todos os dias, então no começo dói muito.”
A tarefa acaba aqui para boa parte das bailarinas, mas, novamente, as negras têm de dar um passo a mais: pintar as sapatilhas no seu tom de pele. Normalmente isso é feito com tinta de tecido ou uma base para o rosto mais barata, num processo que pode levar até uma hora por par. “Eu me lembro de madrugar pintando sapatilhas de ponta para usar em festivais no dia seguinte”, relata Ana. “Além disso, as bases que encontro no meu tom de pele são muito caras, então acabo comprando duas mais baratas para misturar e achar a cor certa”.
Além das sapatilhas, a bailarina diz que, aqui no Brasil, é muito difícil achar meias para balé no tom de pele dela. Então, ela ou comprava meias normais, que possuem maior variedade de cor, mas que são mais finas e acabavam rasgando mais rápido, ou deixava as meias próprias para o balé de molho no chá mate, para que ficassem mais escuras. Os tutus, por sua vez, não precisam ser todos pintados, já que são parte do figurino padronizado.
Camilla expressa que os problemas em pintar os materiais vão além do tempo e esforço. “Também corre o risco de manchar”, diz ela, “sem falar que não é durável, porque a sapatilha perde a qualidade. Toda a vez que lavar ela desbota, e a tinta também deixa ela mais dura.” Já Ana acredita que o ato é um tanto quanto retrógrado, e que deveriam existir mais materiais para pessoas negras dentro do mundo da dança clássica. “Acho que mais marcas tinham que estar se revolucionando. Vemos muitas companhias de dança no mundo com os bailarinos principais negros, então eu acho que muitas marcas deviam olhar mais para a frente e correr no tempo.”
Um novo ato
Algumas poucas marcas mundo afora e no Brasil produzem materiais de balé clássico para a pele negra. É o caso da marca estadunidense Gaynor Minden. A loja vende sapatilhas nas cores rosa carne, cappuccino, mocha e espresso, sendo as três últimas variações mais escuras, tudo no próprio site.
Entretanto, por se tratarem de um produto profissional e importado, elas custam 140 dólares o par, algo em torno de R$560, menos impostos. Esse é um preço irreal para se pagar em sapatilhas, principalmente se levarmos em conta que uma bailarina profissional usa de dois a três pares por mês. “Quando eu era mais nova”, relata Ana, “eu tinha uma sapatilha a cada três anos, era o que a minha mãe podia pagar.” A bailarina agora recebe, mensalmente, três pares Gaynor da companhia onde dança, na África do Sul.
No Brasil, a Só Dança é uma marca de materiais para dança que também oferece produtos de balé para pessoas negras. André Araujo, gerente de marketing da loja, explica que a marca começou a vender os produtos por uma demanda natural do mercado, aliada a necessidade da marca de promover inclusão. “É de importância vital vender produtos mais inclusivos”, ele explica, “pois, como especialistas em dança, a gente busca atender às variadas demandas de bailarinos e bailarinas do Brasil, incluindo toda a sua diversidade.”
O reflexo na plateia
Além das questões físicas, Camilla também diz que a dança ainda é de difícil acesso para as classes mais baixas da sociedade. “Não é como a dança de rua que é mais da comunidade.” Ela diz, “e esses detalhes geram muito gasto, porque eu tenho que viajar pra comprar material específico e de qualidade e preciso gastar mais com tinta de tecido e base pra pintar minhas roupas.” Ainda segundo ela, o mercado não reflete a realidade do Brasil: “eu tenho alunas negras, existe esse público.” Afirma ela. “Eu observo academias que são cheias de alunas negras.”
Dentro desse contexto, a comunicadora Renata Vital tenta mudar a realidade do balé clássico, pelo menos na sua órbita. Ela participa há seis anos do projeto Entre Nessa Onda, que oferece aulas, incluindo de balé, para crianças das comunidades de Guarulhos, em São Paulo. “Meu papel vai além de apenas dar aula,” diz ela, “ajudo na evolução e no desenvolvimento, no convívio em equipe, ensino igualdade e que todas aquelas meninas podem ser o que quiserem.” Ela fala que já aconteceu um caso de racismo entre alunas durante uma aula, que foi repreendido imediatamente.
“É a dificuldade que os bailarinos negros têm que enfrentar na vida para poder apresentar um lindo espetáculo para o público.” Explica Ana, “quando a gente é reconhecido de verdade pelo nosso amor, pela nossa paixão, pela nossa dança, a gente não vê barreiras para poder estar lá no palco e encenar. É maravilhoso, hoje em dia a gente só agradece.”
