Veganismo e vegetarianismo das quebradas

João Malafaia
Sep 6, 2018 · 4 min read

Que o vegetarianismo e o veganismo estão cada vez mais presentes na sociedade brasileira não é nenhuma novidade. O que há 20 anos se resumia a um grupo escasso de naturebas “diferentões” que sentiam pena dos animais, hoje trata-se de mais de 30 milhões de brasileiros, de acordo com o Ibope, que não somente excluíram a carne do seu cardápio, mas também estão criando maneiras alternativas de consumo e produção que não afetem os animais.

Entretanto, tal movimento ainda parece estar centralizado às elites, principalmente pela falta de acesso à informação pelas periferias. “Os veganos que me desculpem, mas pela minha perspectiva o veganismo ainda é um movimento muito elitista.” Assim me respondeu Stephanie Minucci, jornalista formada pela Énois e coautora do livro indicado ao prêmio Jabuti de 2017 “Prato firmeza: um guia gastronômico das quebradas”, que tem como objetivo listar e localizar restaurantes, lanchonetes, bares e carrinhos de comida bons e com preços acessíveis nas periferias paulistanas, quando lhe perguntei se ela achava que a atual onda do vegetarianismo e veganismo também se via presente nas quebradas. “Teve uma época da minha vida que eu só tinha arroz e linguiça para comer”, relata Steph, “como que eu vou chegar para a minha mãe e falar que eu vou parar de comer carne? Como que esse discurso vai entrar na cabeça dela?”

Muitas vezes quando se vai em um restaurante, bar ou lanchonete de periferia e se pergunta se existe alguma opção sem carne, após o estranhamento do atendente, ele ou ela dirá que eles têm opções com presunto, frango e peixe. Esse exemplo só serve para mostrar como, na maioria das vezes, não se tem conhecimento do que são o vegetarianismo e o veganismo em tais lugares.

Muito antes do enorme preço cobrado por alguns produtos veganos, como a proteína de soja, cogumelos, sementes de chia e de quinoa, em mercados e lojas especializadas em comidas naturais no Brasil, um dos principais problemas é o preconceito e a falta de acesso de quem mora na periferia à informação de que é possível ter uma dieta saudável e barata sem a presença da carne, que ainda é vista como alimento de luxo por muitas pessoas das favelas.

Por se tratar de um luxo, a carne também é vista como uma maneira de se colocar em uma classe econômica acima da qual se pertence. Se a pessoa da periferia tem a chance de comer uma picanha ou um filé mignon, nem que seja só uma vez ao ano, ela irá comer, pois por se tratarem de cortes mais finos, eles podem oferecer essa falsa sensação de ascensão social.

O grande problema do vegetarianismo e do veganismo é que eles passam a ideia de que são um movimento muito além das massas, de que são somente para acesso das elites. Os principais culpados disso são a mídia, os estabelecimentos e as marcas veganas, que mostram produtos produzidos com ingredientes muitas vezes desconhecidos e que têm um preço inacessível.

Mas é exatamente nas periferias, onde menos se sabe e, consequentemente, menos se fala sobre a dieta sem carne, que estão as feiras, os hortifrútis e os mercadinhos mais baratos. O quilo do brócolis, da couve e do espinafre, todos alimentos ricos em ferro e proteínas, é muito mais barato que o quilo da carne, por exemplo.

Com o intuito de quebrar esse mito de que é preciso gastar mais de 40 reais em um prato ou cozinhar tudo com óleo de coco, algumas pessoas e estabelecimentos trazem o veganismo e o vegetarianismo como uma bandeira acessível e fácil de ser hasteada. Dois exemplos são o restaurante Pop, na Consolação, que oferece um serviço de “coma o quanto quiser” por apenas R$ 15,00 por pessoa e o grupo no Facebook “Veganos Pobres”, que tem como intuito reunir pessoas veganas e vegetarianas de baixa renda, para que elas possam compartilhar umas com as outras receitas veganas baratas e dicas de onde comer e comprar sem gastar muito.

No “Prato firmeza” é apresentado somente um restaurante vegetariano. O Dr. Naturalle, localizado no bairro de Vila Ponte Rasa, na Zona Leste, conta com cardápios que variam durante a semana e, assim como o Pop, funciona com um sistema de “coma o quanto quiser” por R$ 14,90 às segundas, em função da campanha “Segunda sem carne”, e por R$ 19,90 nos demais dias. A simples existência de um restaurante vegetariano na periferia aproxima as pessoas do movimento pois lhes dá conhecimento do que ele é, de que é possível comer bem e com pouco dinheiro, que vegetariano não vive só de alface e que, mesmo sem carne, a comida pode sim ser saborosa.

O veganismo e o vegetarianismo apresentam-se então como um movimento não caro, mas elitista. É sim possível seguir uma dieta sem carne gastando pouco, sendo até uma opção mais barata que comer carne. Mas ainda se trata de uma ideologia elitista, não somente porque as regiões periféricas da cidade não têm total acesso à ela, mas também porque a maioria dos estabelecimentos que oferecem comidas vegetarianas e veganas se encontram em bairros de classe média alta e principalmente porque é criado um conceito de riqueza sobre esse estilo de vida por vermos quem são seus adeptos, o vegano não é o moço que trabalha na obra todo dia, não é a segurança que trabalha no turno da madrugada ou a faxineira que que mora no morro, o vegano é o artista, a patroa e a doutora. Nem nisso a periferia é representada.

João Malafaia

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Estudante de jornalismo, tagarela nato, metido a modelo de FW, usuário de meiota na canela e viciado em podcasts. Ah, e às vezes eu escrevo uns textos.