O dia em que talvez eu tenha cometido algum crime

Da série: A vida inconsequente de um adolescente.

Antes de começar a história é bom ressaltar que qualquer possível crime cometido por mim naquela época já prescreveu, como vocês podem ver em:

Art. 109 do Código Penal — A prescrição, antes de transitar em julgado a sentença final, salvo o disposto nos §§ 1º e 2º do art. 110 deste Código, regula-se pelo máximo da pena privativa de liberdade cominada ao crime, verificando-se: (Redação dada pela Lei nº 7.209, de 11.7.1984)
 (…)
 V — em quatro anos, se o máximo da pena é igual a um ano ou, sendo superior, não excede a dois; 
 VI — em dois anos, se o máximo da pena é inferior a um ano.

Tudo começou em uma sexta-feira de carnaval, e acreditem, não tem álcool envolvido. Adolescentes já fazem merda o suficiente sóbrios.

Combinei com uns amigos de ir ao único lugar que o orçamento de um adolescente de quinze anos pode bancar no carnaval de uma cidade do interior: O centro da cidade, e suas incríveis festas promovidas pela prefeitura. E se você já foi em uma dessas festas você sabe que elas são um porre, principalmente quando se tem quinze anos.

Então compramos aqueles famigerados sprays de espuma, e fomos nos aventurar cidade adentro, pichando de mentira os muros da cidade, carros, e tudo mais que aparecia na nossa frente. Até que os quase dez reais em espuma acabaram…

Um dos meus amigos então disse:
 -Dúvida que eu acerte a lata no lixo do outro lado da calçada?
 E como todo adolescente querendo ver o amigo se ferrar, eu respondi:
 -DUVIDO! — E antes que eu terminasse de dizer a lata já estava no ar. E ele acertou o lixo.
 E eu, querendo mostrar que também era capaz falei:
 -Eu também consigo, querem ver?
 Cabe dizer aqui que eu nunca tive uma mira boa… E eles sabiam disso, então como todo adolescente querendo ver o amigo se ferrar, eles falaram em uníssono:
 -VAI ERRAR! — Me senti como o McFly sendo chamado de “chicken”.

Atirei a lata com toda a minha força em direção ao lixo, mas a merda veio em proporções gigantescas. A lata se desviou do caminho, e acertou em cheio o para-brisa de um carro preto, sem placa. O vidro trincou por inteiro, e o alarme tocou.

Fiquei paralisado, ouvindo o alarme no fundo da minha mente, quando um dos meus amigos grita:
-Fodeu! Corre João! — Então eu entendi a merda que eu tinha feito.

Eu nunca fui um bom corredor, os dois amigos que estavam comigo sempre corriam mais rápido, porém naquele dia eu corri tanto que deixei eles para trás. E sem noção nenhuma corremos em direção a minha casa, cujo bairro não tem tanto movimento, e seriamos facilmente descobertos.

Faltando um pouco pra chegar na minha casa paramos de correr, para não levantar suspeitas. Então notamos que um Uno branco estava nos seguindo, ele foi se aproximando bem devagar, até que ficou andando lado-a-lado conosco. Então o motorista disse:
-Eu sei o que vocês fizeram, e vocês vão se foder por isso, já chamei a policia.
-Que? Não fizemos nada. Você tá louco? — Falei com toda a cara-de-pau do mundo.
-Não tentem me enganar não seus merdinhas.

Então, sem combinar nada, nós viramos em uma rua em que era contra-mão para o Uno, e que estava passando alguns carros. E ele, sem escolha, fez o contorno para tentar nos pegar no final da rua. Assim que ele saiu de vista voltamos para a rua principal, em direção a minha casa. E num momento de lucidez resolvemos entrar em um beco meio escuro, e com algumas arvores, que era um pouco antes da rua de casa.

Foi o tempo de nos escondermos, então vimos passar o Uno e um carro de policia logo atrás. Olhamos a rua, e eles já estavam longe. Corremos, e só paramos na frente da minha casa, que estava toda trancada, pois meus pais tinham saído, e eu estava sem as chaves. E ignorando todo o meu bom-senso eu escalei o muro, e meus amigos também. Infelizmente minha camisa não sobreviveu ao processo.

Vimos o Uno passar, com o motorista olhando para todos os lados. E por sorte a minha casa estava totalmente apagada, então ele não nos viu sentados no canto da área.

Esperamos meus pais, que estranharam eu ter voltado antes deles, e ter pulado o portão, mas não questionaram o motivo. Meus amigos descansaram um pouco, e foram pra casa.

Até que mais tarde recebo uma mensagem de um deles:

“O cara do Uno estava aqui na padaria perto de casa, com a policia. Sorte que demos a volta no bairro”.
Fiquei sem sair de casa pelo resto do carnaval.
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