
Modelando a Desinformação
Este texto é uma tradução.
Originalmente publicado por Steven Novella em theness.com
Ao passo que mídias sociais transformam a natureza da informação e comunicação, é interessante pensar sobre como «informação» e «desinformação»¹ se espalham através dessas redes. Um artigo de 2015 tentou modelar o compartilhamento de informações por redes sociais para entender melhor o efeito de variáveis específicas.
O estudo: Fact-checking Effect on Viral Hoaxes: A Model of Misinformation Spread in Social Networks, não é uma análise do mundo real, mas um modelo matemático. Como todo modelo deste tipo, é simplificado para isolar algumas variáveis chave. Para o propósito deste modelo, tratam a «informação falsa» como um vírus. Pessoas expostas à desinformação são potencialmente infectadas. Aleatoriamente, serão «crédulas», acreditarão e compartilharão a desinformação, ou serão «céticas», verificarão os fatos e compartilharão a correção dos fatos.
No modelo, é possível variar a porcentagem de «crédulos» versus «céticos». Também é possível variar o tempo médio necessário para as pessoas esquecerem a informação e se tornarem novamente suscetíveis a infecção. Eles usaram um modelo estocástico, o que significa que a propagação da informação e o estado de «crédulo» ou «cético» é aleatório.²
Concluiu, como esperado, que quanto maior a concentração de céticos, maiores as chances de que o boato seja descartado. Se a concentração de céticos é muito baixa, o boato pode se tornar endêmico — pode persistir indefinidamente dentro da população. Interessante que a taxa na qual a desinformação se espalha não importa para este modelo.
Essencialmente, o que este modelo matemático mostra é que a presença de verificadores de informações (céticos) na rede de propagação de informação serve para desacelerar o compartilhamento de boatos, e se seu nível de atividade for suficiente, então é possível erradicar a desinformação e evitar que ela se torne endêmica. O fator crítico é simplesmente a porcentagem de céticos.
É interessante pensar sobre como esse modelo simplificado destoa da realidade ou, em outras palavras, qual é a estrutura das redes pelas quais a informação é propagada no mundo real?
A primeira coisa que penso é que a propagação de informação não é estocástica As pessoas tem redes de relacionamento e conexões de onde colhem informações. Além disso, canais de mídias sociais ‘personalizam’ cada vez mais a informação que é levada a seus usuários. Se você acessar sites que atendem «crédulos» em teorias de conspiração, você irá consumir outras informações relacionadas a teorias de conspiração.
No limite, esses efeitos resultam em “bolhas” (N.T.: no texto original, ‘Echochambers’ — câmaras de eco), nas quais as pessoas são intensamente expostas, através de suas redes, a informações peculiares de uma ideologia ou crença. Se você é anti-vacinas, será alimentado constantemente por uma dieta de propaganda anti-vacinas, até o ponto onde você estará vivendo numa realidade alternativa anti-vacinas.
Bolhas já estabelecidas têm seus próprios experts, seus próprios fatos, e sua própria interpretação de realidade que é constantemente fortalecida pela comunidade. Toda comunidade, inclusive céticas, criam bolhas em algum nível. Obviamente comunidades diferentes apresentam diferentes relações com a realidade — em transparência, conhecimento legítimo, e dedicação a um determinado processo de verificação de informações. Isso afeta mais a qualidade da informação do que a forma pela qual ela se espalha. Eu acredito que o nível no qual membros procuram informações e perspectivas fora de suas comunidades é uma característica que varia entre grupos.
Na verdade, eu acredito que pessoas são expostas a várias fontes de informações genéricas: Bolhas — informação que reflete uma ideologia ou comunidade específica; Notícias Personalizadas — informações que foram filtradas por suas preferências em algum nível, ou que é enviesada por sua ideologia (como canais de notícias conservadoras ou progressistas); Notícias Comuns — notícias que não dependem de sua crença e que simplesmente está disponível para o público em geral; Rede Pessoal — família e amigos próximos que irão te expor a informações.
Comunidades ideológicas servem como uma importante fonte de informações e verificação de fatos, que depois propagam para o público em geral. Também existem, obviamente, outros agentes hiperconectados — autores ou canais populares que amplificam significantemente a propagação de informações mais do que uma pessoa qualquer. Existe, em algum nível, uma competição entre comunidades «crédulas» e «céticas», agindo através de suas conexões para espalhar seu ponto de vista para o público em geral. Aqui, os números e nível de atividade importam.
Outro fator que os autores do modelo discutem como potencial para uma pesquisa futura é a noção de que «crédulos» e «céticos» podem não tratar dos mesmos assuntos ao mesmo tempo. Em outras palavras, comunidades «crédulas» podem se ocupar com algum tema antes que a comunidade «cética» o observe. O boato pode então se espalhar por um tempo até que os verificadores o percebam e depois o contenham.
Conclusão
Esse modelo é obviamente muito limitado em termos de descrever o que está de fato acontecendo no mundo real, o que os autores reconhecem. Ele demonstra matematicamente o que acredito que a intuição nos diz — verificadores céticos precisam corrigir a desinformação para limitar e potencialmente conter a propagação de informações falsas, ao menos para o público em geral. É possível que sempre existam populações onde boatos se tornarão endêmicos porque os hospedeiros são muito receptivos.
Muitas pessoas tem se lamentado por parecer que estamos vivendo num mundo pós-fato. As bolhas parecem estar ganhando. É assustador assistir a banalização da mentira e da descarada invenção de fatos que se encaixam com suas necessidades ideológicas.Ainda assim, existe uma resistência contra este comportamento. Talvez estejamos vendo a formação de uma nova divisão ideológica — entre aqueles que ainda se importam com fatos objetivos e um processo válido, contra aqueles que se sentem mais livres para inventar ou acreditar em qualquer coisa que suporte suas ideologias.
O modelo reforça o papel fundamental de céticos atuantes, e também do bom jornalismo e da boa comunicação científica. Precisamos cultivar e fortalecer as redes de verificadores e céticos. Precisamos salvaguardar o público da desinformação com o ensino do pensamento crítico. Nós precisamos unir os canais científicos com os canais em geral tanto quanto possível. Talvez também devamos repensar o modelo atual de seleção massiva de informações para o indivíduo.
Talvez seja muito tarde pra isso, mas parece haver a necessidade de canais de alta qualidade, transparentes e responsáveis que não estejam atrelados a nenhuma ideologia em especial, e que representem fontes válidas de informação. É necessário que exista um conjunto comum de fatos nos quais podemos todos concordar. Sem este ponto de partida, discussões construtivas são impossíveis. * * *
¹ «desinformação»: neste contexto, utilizamos o termo 'desinformação' para indicar a informação equivocada, e não simplesmente a falta de informação.
² mais precisamente: o modelo estocástico não caracteriza uma unidade para mais de 'uma rodada'. por exemplo, posso ser cético em relação a uma informação, mas crédulo em relação a outra. assim não existem no modelo agentes que sejam sempre mais ou menos céticos que outros.