Mais um Silva

Nasceu de parto natural, quem puxou foi a parteira do bairro. Bairro, não: amontoado. Lá do lado do lixão, no espaço que sobrou pra erguer o barraco. Uma gambiarra feita com o que sobrou do lixão. Nada mal, tinha até televisão.

Pulou a catraca, foi pra cidade pela primeira vez. Viu de tudo, inclusive o que aprendeu com a TV. A vontade só aumentou, queria corrente no pescoço e nike no pé. Decidiu, então, catar lixo com o pai.

Voltou pra cidade com o dinheiro que conseguiu juntar, entrou na loja e escolheu o tenis. Deu pro vendedor tudo o que tinha, não sabia fazer conta. Pelo menos, naquele dia aprendeu que não dava nem pra camelô.

Foi quando se viu diante de um muro um pouco mais alto que ele. Do outro lado rolava uma festa de gente rica e bonita. Pulava pra ver a festa, não via muito, pois logo seus pés estavam de volta ao chão, mesmo assim era o suficiente pra querer estar do lado de lá.

Pulou a catraca, voltando pra casa veio uma ânsia, dor no peito, tristeza. Tudo junto, de uma vez. Sabia que catando lixo não seria possível entrar na festa. Deu meia volta, nunca se despediu da família. A decisão estava tomada, se matriculou na escola do crime.

Começou com correntes de prata, celulares, carteiras, qualquer coisa. Ganhou a atenção de um pessoal, por causa de sua mão leve. Foi acolhido e o pessoal o levou até o topo do morro. Quando desceu a primeira vez vendeu tudo, na segunda vez não precisava mais vender nada, tinha quem o fizesse. Só recolheu o seu dinheiro e voltou ao topo do seu morro.

Chegou ao cargo máximo, tinha rua batizada com seu nome. Aprendeu direitinho com a TV o que precisava pra ser feliz. Agora dentro da festa, do lado de lá do muro com corrente de ouro no pescoço, nike no pé, rodeado de gente bonita e bem vestida, cantava a vitória cheio de dinheiro. Mais pobre do que nunca.

Voltando pro topo do seu morro, não precisava mais pular a catraca. Cometeu o maior erro de sua vida: esqueceu de pagar a propina. Ninguém viu, ninguém ouviu, ninguém sabe de nada. Foi só mais um Silva que a estrela não brilhou por muito tempo.

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