Caminho

Jacidio
Jacidio
Jul 21, 2017 · 3 min read

Já ouvi dizer que a diferença do ser humano para os outros animais é a consciência do fim. A gente se engana pensando na eternidade, mas lá no fundo sabemos que estamos em uma estrada sem volta para o fim. Mas e ai, o que estamos fazendo com este caminho?

Alimentamos sonhos e vontades, queremos chegar, mas e o caminho? O que acontece quando a gente chega? Vivemos em uma eterna corrida atrás de algo e quando chegamos, parece que não era bem o que queríamos. Então, bóra pra próxima porque o mundo é da superprodutividade, dos contatos e olhares frívolos e do medo abrir janelas. É uma coisa tão louca, pois parece que nunca estamos preparados, que os sonhos não satisfazem e no final do dia sobra a solidão, até mesmo para quem parece ter tudo.

Sim, shows lotados, discos tocando, filhos, família e amigos… Mas alguma coisa dentro da gente não se acalma. No final das contas, a gente não se acalma, a gente não olha, tem medo de se mostrar vulnerável: “O que vão pensar de mim se eu disser isso? Se eu sorrir? Se eu elogiar (de verdade)? Se eu olhar nos olhos?”. Mas o que você vai fazer com você caso fique escondendo tudo isso ai dentro? A ansiedade de contar, a ansiedade da cobrança, a ansiedade de dizer como você é linda/o, de abraçar, do silêncio… Todos os impulsos guardados, pois achamos que não é o momento, pois não se pode mostrar sentimentos o tempo todo o tempo inteiro. A ansiedade para não ser ansioso.

E assim ficamos doentes, cansados, perdidos. Não importa quanto tempo você vai ficar acordado, não importa quantas horas de voo, não importa quanto dinheiro você tem — ou não tem — . Não importa. Quando colocamos a cabeça no travesseiro deveríamos apenas descansara para os próximos momentos, passos, caminhos, pessoas. O momento de aproveitar o que conquistamos e o que estamos conquistando, mas estamos presos pelo objetivo maior e melhor [mais rápido, mais dinheiro, banheiro maior. MENOS TEMPO] sem se dar conta de que os objetivos incríveis da vida não são os mesmos para todos. Nunca foram. Não somos padronizados, nunca fomos. Talvez ai esteja a graça de/do ser humano, a diferença. Mas tentamos entrar em fôrmas que não são nossas, o tempo todo. Somos empurrados para isso. Acreditamos na vida ideal, no emprego ideal, na família ideal, nas palavras ideais e deixamos que o nosso ímpeto humano, o rompante que vem da alma (a vontade de gritar, pular, beijar, chorar e sorrir) para trás, encaixotado no que um dia disseram que era excepcional. No final das contas isso não é socialmente aceitável, mas o que é a sociedade para te dizer quem você é?

Em todo caso, nós nos tornamos nossos próprios algozes por querer calçar sapatos que não são nossos. O corpo e a cabeça mandam sinais, mas a gente desrespeita, pois “se é bom pra todo mundo, por que não seria pra mim?”. Porque não somos todo mundo. Somos um e não importa se parece que ele tinha tudo, possivelmente ele não tinha o que ele precisava. Talvez tivesse o que queria, mas afinal de contas — em grande parte das vezes — o que a gente quer, não é o que a gente precisa. E por fim, depois de tudo, desses dias loucos, sem contato, sem conexão, sem presença, sempre ecoa uma das últimas frases de Chris Cornell para sua esposa: “Eu estou tão cansado”…

O caminho, precisamos aproveitar o caminho. Mas não qualquer caminho. Precisa ser o meu caminho. Precisa ser o seu caminho.

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