(Foto:Vivian Maier)

A tábula triangular

Jacinto de Tormes
Aug 28, 2017 · 4 min read

Em uma sala de um pequeno apartamento suburbano no coração de São Paulo, três velhas amigas se encontram novamente para jogar cartas e discutir temas que lhes lembravam de sua tenra adolescência e de suas mais breves experiências na vida antes de se casarem e tornar as suas vidas algo muito diferente daquele Álamo em que viviam.

Felippa, Luciana e Maria Alberta eram seus nomes, todas já com a totalidade ou a maior parte das cabeças cobertas por lisos frios brancos que combinavam com a tez clara que lhes constituia, falavam em alto e bom tom, sem medo da chegava de vizinhos, familiares ou maridos intrusos pois todos se encontravam em bares assistindo a um jogo de futebol. Misturavam brandy com licores a fim de criarem fracos coquetéis para que pudessem relaxar a musculatura enrijecida pelos anos que se passaram. Felippa ia um pouco além e pegava um pouco do Whisky do marido, um famoso Whisky de grande valor sentimental, ou só valia muito dinheiro e era isso o tornava importante para o marido, dividia o líquido com seus colegas de clube, rindo abertamente sobre o vinho barato que haviam tomado enquanto visitavam o nordeste, cagando de rir do sotaque local e de como a vida lá era boa e de como as camareiras mulatas eram gostosas demais pra deixar passar! Lembrava Felippa, algo que ainda machucava o seu âmago, de modo que seu rosto e corpo se contorciam involuntariamente.

Luciana puxava cartas e mais cartas por debaixo da manga a fim de vencer a partida de Truco, enquanto Maria Alberta se importava mais em arrumar o posicionamento de seus pequeninos e frágeis óculos, que miravam as cartas e a porta, a fim de trocarem de assunto caso ouvisse algum passo ligeiro percorrer a entrada do apartamento. Felippa…bom, já se encontrava em outra dimensão com o Whisky contudo tentava se manter na jogatina enquanto lhe surgiu o assunto, claro como a sua tez imaculada.

“Lembram-se do Carlito?”.

“Qual Carlito” disse Maria.

“Aquele alto, forte, mais escuro”.

“Mais escuro? Você diz aquele morenão?” Seus olhos já brilhavam mais que as pérolas que percorriam o seu fino pescoço.

“Aquele de cor?” disse Luciana.

“Sim, esse mesmo, cabelo escuro bem liso e barba por fazer” disse Felippa já impaciente com as interrupções.

“Achei que estava falando do irmão dele, aquele mais clarinho” disse Maria, confusa com assunto e tentando dividir a atenção entre a porta, as cartas e ao assunto que agora surgira.

“Ah, é tudo igual amiga, é preto, branco e índio, não ser pra quê inventar se é tudo mistura…é tudo exótico!” disse Luciana, rindo em meio a vermelhidão que agora percorria as tuas bochechas.

“Por isso que gosto deste país, que povo! Mas continuemos…certo dia vi ele passeando pelo bairro, acredito que estava voltando da padaria com o seu filho mais velho…” disse Felippa.

Luciana havia levantado as pálpebras e logo brevemente levantou as cartas, deixando o jogo de lado e chamando a atenção para si, sempre fora desde jovem alguém que gostava de deixar todos os pingos nos i´s.

‘’Sabe que essa é uma questão que sempre me intrigou amigas, um dia desses estava no restaurante com a minha família, e chamei o garçom como qualquer uma de nós chamaria sem algum problema…moreninho”.

Ao sinal afirmativo das suas amigas e confidentes ela continuou a traçar a história.

“Uma amiga de cor da minha neta começou a me olhar estranho, como se a tivesse desferido a maior das ofensas, sua mãe, também de cor logo se voltou para mim com um olhar estranho como se pudesse ali mesmo me esganar, se não fosse os demais convidados” disse franzindo a testa, como se ainda pudesse reviver aquele momento de surpresa.

Após alguns entreolhares estranhos Luciana continuou.

“Vem cá moreninho! Eu disse novamente, até mesmo o garçom começou a me atender mal, ignorando quando lhe chamava”.

“Mas onde já se viu, quem ele pensa que é?” disse Felippa “Achei que esse era um país de todos quando vim para cá”.

“Mas hoje o pessoal tá muito sensível, não podemos falar mais nada, vou chamar de quê então?!” concluiu Luciana.

Ao fundo agora aparecia a sombra da neta de Felippa, acabara de voltar de uma festa em sua agência publicitária e estava pouco desperta no momento porém havia ouvido a parte final da conversa e concordara dizendo;

“Hoje em dia a gente chama isso de mimimi vó, meu namorado hoje mesmo não quis conversar comigo porque achou um absurdo eu reclamar porque ele é muito vitimista, Nêgo acho que só porque tem um pouco mais de cor que eu, pensa que é o fim do mundo e que todo mundo trata ele diferente”.

“Tá tudo polarizado minha querida” disse Maria Alberta, voltando os olhos para ela com certa impaciência.

“Olha só o filho do Carlitos, nasceu negro de tudo, esse sim sofre!” disse a jovem gesticulando levemente com os finos braços.

(Esta que lhes conta este ocorrido é a morte que paira sobre a vida das almas condenadas, percorrendo os Peabiru desta vida, a procura de almas para levar, procuro geralmente por almas que estão intactas, estas porém já estão condenadas por um certo mal. Aquele de ser alheio ao seu tempo e as realidades que não lhes competem, que não lhes convêm).

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