A MODA É UMA QUESTÃO DE TEMPO

Tempo é o convite e a reflexão proposta nas diversas instalações da exposição “Fora da Moda”, que inaugurou ontem (05.04) no Sesc Ipiranga e fica até outubro, em constante transformação.

Detalhe da instalação "Lista de Cenas”, de Karlla Girotto

A exposição "Fora da Moda" é sobre pausa para o excesso, para o consumo desenfreado, para a roupa sem propósito, para o discurso sem proposta, para a imagem sem ação.

Espalhadas pelo Quintal do Sesc estão intervenções, instalações e obras de nomes reconhecidos pela mídia especializada, que se propõem a pensar a moda fora das passarelas: Fause Haten, Karlla Girotto + sua gang criativa do G>E , Junior Guarnieri e Simone Pokropp (Casa Juisi) e Fernanda Yamamoto, além do escultor Laerte Ramos e sua instalação “50% Off”, com 300 tênis hiperrealistas só para o pé esquerdo, sinalizando que está faltando algo e é bom investigar.

“50% Off", de Laerte Ramos

Tudo é mesmo uma questão de tempo. O tempo jogado fora nos métodos desenfreados de produção que aqui se transforma em tempo de construção. É como pensar numa viagem. O que vale é o processo, o caminho. Chegar ao final é aguardar o previsível. Aqui não! A imprevisibilidade contrasta e se contrapõe às engrenagens estabelecidas de lançamento modal, de sazonalidade, das imposições do bom gosto chancelado pelas passarelas e pela mídia especializada — ali ausente neste momento tão importante de reflexão sobre os novos formatos de apresentação e lançamento de coleções.

TEATRO FERRAMENTA

Paulo Borges estava lá. Que bom! O homem que construiu a estrutura de um calendário oficial para a moda brasileira e que se vê diante do grande impasse que rege a indústria global, estava registrando tudo da performance “Morte e Vida de Uma Boneca de Moda”, de Fause Haten, estilista que rompeu com o formato tradicional de desfile e se dedica a experimentações conceituais e teatralizadas para manter vivas reflexões e paixões sobre roupas e suas emoções.

Fause Haten na performance "Morte e Vida de Uma Boneca de Moda"

O galpão “A Fábrica do Dr. F” funciona como uma réplica de seu espaço criativo em Pinheiros, com roupas expostas, um palco para performances e belas construções feitas a partir de bordados e peças de seu acervo, que deixam de ser vestidos e passam a ser vestíveis como máscaras.

O teatro da moda precisa de máscaras e Fause nos dá as suas versões. É pura seda e alfinetadas, lembrando o título da peça de Leilah Assumpção interpretada por Clodovil nos idos de 1984, costureiro que, como Fause, se entregou aos prazeres do teatro, colocando em xeque valores de autoimagem e expondo suas angústias mais profundas no palco. “Correndo riscos”, como bem frisa Fause em seu discurso.

RISCOS E GOLPES

É tempo de correr riscos, rabiscar novos formatos, apostar em estratégias inovadoras e encontrar “Frestas”, como quer Fernanda Yamamoto, a designer que se jogou no sertão da Paraíba para rever métodos de produção e entender o desacelerar do tempo como fio condutor de um novo tecido social, reflexão inevitável sobre o Brasil Profundo que tantos temem em aceitar nesses duros dias de golpe.
 
 Fernanda apresenta suas texturas sertanejas de design apurado em videomapping criado com a artista Bianca de Oliveira. Mas como toda a exposição é uma obra em construção, o espaço do videomapping será vestido com tecido construído no ateliê da estilista a partir de fragmentos de tramas manuais.

MERGULHO EM ÁGUAS PROFUNDAS

Karlla Girotto parte de uma reflexão sobre “A Dama do Mar”, texto original de Henrik Ibsen já adaptado por Susan Sontag e agora atualizado pela artista. Ela faz parte da primeira geração de estilistas que trocou o chão de fábrica pelas artes visuais, como seus contemporâneos Rita Wainer e Adriano Costa, ícones da moda underground praticada no início do milênio e que hoje se destacam em plataformas artísticas. Cada um na sua, muito bem, obrigado.

"A Dama do Mar, uma Atualização", de Karlla Girotto

Voltando à Karlla. Ela resgata dos seus tempos de “passarelante” na SPFW, a imagem do vestido fluido-flutuante preso por balões de gás. Sua Dama do Mar navega ao vento como um espectro dark, convidando a mais uma pausa para a observação do que pode estar contido (ou conter) uma roupa. Vazio, balouçante, querendo se libertar, serve como metáfora desse tsunami em que os pensadores da moda mergulham para romper com as velhas estruturas, já tão sem sentido.

"O Estrangeiro Está de Pé no Fundo do Palco", de Karlla Girotto

Karlla vai além com sua jangada flutuando sobre a piscina do Sesc, presa por balões que, com o passar do tempo — sempre ele — vão perdendo o gás até pousar a embarcação sobre as águas azulejadas. A instalação se chama “O Estrangeiro Está de Pé no Fundo do Palco”, onde Karlla cita Orson Welles e seus jangadeiros cearenses que partiram do Mucuripe rumo ao Rio de Janeiro para pedir a Getúlio Vargas melhores condições de trabalho. Cai como uma luva dentro de questionamentos bastante atuais sobre trabalho escravo, hegemonia norteamericana e transparência sobre processos e métodos de produção.

"O Estrangeiro Está de Pé no Fundo do Palco", de Karlla Girotto

Em “Lista de Cenas”, uma chocante parede negra estampada com mar, ondas, maremotos e geleiras desenhados a giz pela artista, Karlla vai aos poucos disponibilizar todo o material gerado até outubro, como um caderno de notas aberto sem pudor enquanto durar a exposição. De novo, o tempo, que serve de motivo ainda para a instalação “Linha do Tempo”, da Casa Juisi, com fotos e textos d’As Gêmeas Carolina e Isadora Krieger, estilistas do underground paulistano que migraram para outras plataformas de expressão.

"Linha no Tempo", de Casa Juisi | Fotos Carolina Krieger Poesias Isadora Krieger | Direção de arte Luciano Schmitz

Será preciso tempo também para acompanhar a “Ocupaixão Baixa Costura”, do G>E (G maior que E), o grupo multidisciplinar de artistas coordenado por Karlla Girotto na Casa do Povo, formado por talentos que estudam a moda como ferramenta criativa para expressão de identidades, habilidades e processos autorais para além das roupas.

O contâiner do G>E

Sempre aos domingos, até junho, eles estarão lá compartilhando seu ateliê de criação em espírito barracão de escola de samba para desenvolvimento coletivo de uma série de acessórios e objetos, compondo imagens de moda de uma celebração final. São eles: Ad Ferrera, Danielle Yukari, Fábio Malheiros, Gabriela Cherubini, Gustavo Silvestre, Tathiana Kurita. Direção de produção: Gabriela Gonçalves (Corpo Rastreado). Produção executiva: Viviane Gelpi.

É o tempo marcador de identidade e construtor de narrativas dizendo: Está Fora da Moda não ter tempo.

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