A MODA AMARRADA EM NOME DO AMOR

Se o mundo precisa de causas, que dirá a moda. A estréia de À La Garçonne, marca de Fábio Souza com design de Alexandre Herchcovitch, nesta quarta-feira, 27, na #SPFWN41, levanta uma bandeira urgente na educação do consumo e da comunicação, propondo por meio do upcycling uma atualização de direcionamento criativo, na passarela do principal evento de moda brasileira. O Amor é tendência!

Imaginário das tatuagens de Fábio Souza enterram as caveiras do passado de Alexandre Herchcovitch. Fotos Olivier Claisse | Ag. Fotosite | FFW

Acima de todo o exercício de construção realizado em curto prazo por Fábio e Alexandre em esquema de ateliê — costurando em casa sobre materiais vintage, dando nova vida a tecidos parados, perfectos, uniformes militares de guerras passadas e borracha de câmara de ar, por exemplo — está a celebração da liberdade de criar e de vestir.

Alexandre volta a fazer o que sabe fazer de melhor: transgredir. Apresenta uma coleção de looks únicos, desordenados, como numa rua, resgatando memórias de seu estilo sem estar preso ao passado.

As cordas, âncoras e nós de marinheiro — do imaginário das tatuagens de Fábio — enterram as caveiras do passado de Alexandre, decorando jaquetas, bolsas e pastas. Não há nostalgia. Nem ansiedade do futuro. É pra hoje. É pra agora.

O desfile cirúrgico reflete o momento de transição profissional do designer. Vale lembrar que ele mal acabou de apresentar uma coleção de fast fashion para C&A e se joga num novo ciclo, negando, como a moda (e como sempre fez!), o que acabou de apresentar.

A diferença é que, agora, essa moda discursa um desejo de perenidade, de não-descarte, de durabilidade estética para peças impregnadas de memórias e livres de obrigações sazonais. Exatamente como pede À La Garçonne de Fábio: uma thrift store especializada em garimpo de mobiliário industrial vintage, que resgata seu DNA inicial de moda.

Soa como um grito de vitória pelos esforços de longas datas de Chiara Gadaleta em sua plataforma ECOERA de reflexão sobre a indústria, o pré e o pós-consumo. Ecoa sem sussurros, ainda que com sutileza ímpar, a fala das novas marcas que ressignificam a moda feita no Brasil, como Catarina Mina, Saissu, Flavia Aranha, Vuelo, Insecta Shoes, Gustavo Silvestre, Flávia Vanelli (Ratorói)… Nomes que representam inovação, cada um a seu estilo e proposta, se exercitando sobre o Novo Luxo.

O desfile tem ainda um tom educativo. Mais delicadeza e menos exibicionismo nas roupas que falam sobre o prazer de ser único sem perder de foco um pensamento de coletividade na reflexão em torno do impacto que a sua moda pode vir a ter sobre o mundo.

A igualmente cirúrgica edição de Mauricio Ianês mistura tudo, cores, silhuetas, volumes e proporções e mostra na fila final uma edição blocada em paleta (de)crescente: do preto ao azul, passando pelos cáquis, rosados, coloridos e cinzas, facilitando o olhar sobre a estranheza de quem por acaso não enxergou antes o sentido de coleção. Veja o vídeo aqui.

Sai de cena o niilismo juvenil, fertilizando terreno para um romantismo adulto, amarrado em nome do Amor, esse gesto de grandeza e encanto presente na condição de ser simples. Não é preciso muito pra ser muito. Basta amar.