HACKEANDO A SPFWN44

Ao lado de um casting multidisciplinar, Natura e CemFreio confrontam diferenças para materializar signos que desenham e potencializam identidades, códigos de vida e pertencimento.

Quando em abril de 2016, escrevi aqui sobre como os corredores da Bienal durante a SPFW começavam a ser ocupadas por uma nova geração com potência para mudar as regras do jogo e fazer valer o zeitgeist — como é a Moda em sua verdadeira potência de narradora dos tempos––, nem pensava que hoje eu estaria dentro do mesmo prédio, atuando colaborativamente ao lado de um time de pessoas que rejeita a perfeição e adota suas próprias verdades como manifestos de suas crenças, belezas e éticas.

Ao lado de Apolinário, o estilista-ativista à frente do coletivo CemFreio, e de Natura, estamos imersos numa nuvem de reflexões que potencializam a influência de gente que busca cada vez mais autenticidade no seu visual e materializa por meio de seu discurso a importância de posicionamento num mundo cansado de “followers” do estilo alheio. 
 
Nesse cenário, é importante a atualização incansável do olhar criativo sobre a natureza dinâmica das transformações comportamentais, sinalizando para as marcas — enquanto mensageiras das novas mudanças e disseminadoras dos novos conceitos — respostas ágeis em seus discursos, ações e produtos. 
 
No lugar de simplesmente seguir uma estética massificada e estabelecida, sai na frente quem está aberto a captar a essência que existe por trás de cada sinal do tempo ou sorriso, de uma acentuada curva do corpo ou da cor inusitada de um cabelo: signos que desenham e potencializam identidades, códigos de vida e pertencimento.

Ao investigar e tomar conhecimento das atitudes pessoais que conferem cada vez mais importância à interdependência como fator determinante de uma era de afetos — a pós-modernidade, segundo Michel Mafesolli — abre-se a possibilidade de disseminação de um mosaico da beleza brasileira, que está sendo construído a partir da ideia de que pessoas, assim como marcas, sem propósito ou empatia, estão desconfiguradas da capacidade de celebrar a nova vida e a nova beleza, atributos que se desenham a partir da diversidade, da condição atemporal dos novos códigos de idade e autoestima e, sobretudo, do significado do papel de cada um no mundo — seja global, local ou pessoal.

Transparência e autenticidade são pilares fundamentais para a conexão com esse time multi (multidisciplinar, multiétnico e multitask), que consolidamos por meio de um convite feito por mim e Apolinário a pessoas que muito tem a dizer e a colaborar com esse processo de aprendizado e troca de experiências. Participam: Aíla (cantora e art-ivista), Jup do Bairro (rapper), Victor Stravinsky (dançarino), Luciana Queiroga (artesã), André Czarnobai (jornalista e tradutor), Túlio Custódio (sociólogo e curador de conhecimento à frente do Coletivo Sistema Negro), Bruno Capão (empreendedor social), Urias (cantora de música eletrônica-experimental), as consultoras de beleza Cintia Cortez e Juliethe Santos, Camila Guimarães (designer), Monalissa Oliveira (cabeleireira), Sirlene Santos (compradora de tecnologia digital para Natura), Alyne Veira (empresária), Amelia Malheiros (gestora da Fundação Hermann Hering), Matheus Pasquarelli (designer gráfico e modelo) e Romolo Cricca (digital influencer de maquiagem).

Desde segunda-feira (28.08.17), estamos juntos promovendo reflexões, mediadas pela facilitadora de conversas Valentine Giraud, a partir de uma série de falas reveladoras sobre beleza, moda e comportamento, assim como a exposição de valores éticos e estéticos a serem costurados como fonte de inspiração para a construção de uma imagem de moda feita sob o olhar preciso da stylist Igi Ayedun, em que haja uma coerência no todo, mas que cada pessoa mantenha sua própria configuração.

Como parte dessa ocupação, diariamente estamos hasteando uma bandeira no vão da Bienal com simbolos do sistema de escrita/comunicação gráfica Nsibidi, dos povos originários do sul da Nigéria, numa produção gráfica do Estúdio Margem.

Nosso maior desafio aqui é trabalhar colaborativamente, para entender as novas necessidades comportamentais, de modo a inspirar a experimentação de soluções que possam responder aos anseios de pessoas seguras de seu lugar e papel no mundo.
 
Estamos elaborando uma percepção atualizada sobre os valores que Natura defende em sua missão no sentido de ocupação do território da beleza, afinal, não existe padrão e as múltiplas manifestações dos corpos possibilitam diferentes leituras.

Sobre moda, especificamente, a participação de Apolinário/Cemfreio é uma afirmação sobre como novas marcas estão reagindo aos profundos questionamentos na ressignificação de papéis, produtos e processos, tendo a horizontalidade, a interdisciplinaridade, a afetividade e a transparência nas práticas criativas colaborativas como fio condutor de uma evolução que se faz urgente.

Tudo isso vai ser celebrado com um grande happening — O Brilho do Breu — no encerramento da SPFW, nesta quinta (31.08.17), o qual estamos chamando de ocupação, para conectar Beleza, Moda, Identidade, Atitude e Comportamento, potente canal estratégico de colaboração para a compreensão e participação em um novo mundo pautado pelas micropolíticas e seu potencial transformador.

Estamos hackeando a #SPFWN44.

E para lacrar esse momento, assista ao novo clipe de Aíla, "Lesbigay", "pela visibilidade lésbica, gay, trans, bi; pela potência e revolução da diversidade".