NA PISTA COM AS SEREIAS ESPACIAIS

Álbum de Tupimasala faz poesia eletrônica sobre universo feminino

Tupimasala é composta por Hector de Paula (baixo), Samantha Machado (voz), Sabrina Homrich (bateria) e Adam Esteves (guitarra e sintetizador) | Divulgação

No meio da nova onda de futurismo que assola a moda, o cinema, as artes visuais e a música em alusão à uma vontade de fuga do planeta em retrocesso, surge o excelente “Vênus”, segundo álbum da banda Tupimasala, sobre o feminino e “o universo em expansão”, como concordam Adam Esteves e Samantha Machado, criadores da banda, em entrevista exclusiva para Shhh.fm com suas referências musicais, que você pode escutar aqui.

PROVOCAÇÃO PRA DANÇAR

Com sonoridades oitentistas e letras que surpreendem por sua poesia e força, o álbum — considerado o mais importante da eletrônica brasileira pela revista Billboard até agora — e se revela como um dos mais potentes desse primeiro semestre, dentro do que tenho batizado de Provocação MPB.

Explico. No atual cenário de questionamentos que exige posturas transparentes, respeitos horizontais e a construção de uma resistência intelectual frente à jihad tropical e sua propagação de preconceitos e violências relacionados a questões de gênero — como vemos tomar conta do país do golpe dentro do golpe — , todo ato inteligente e de posicionamento claro contra o retrocesso vigente ganha status de revolucionário e, portanto, educativo. É à essa provocação que chamo de nova Música de Protesto Brasileira.

A partir da potencialização do #lacre como forma de empoderamento da juventude negra e trans das periferias brasileiras — primeiramente chamada de Geração Tombamento — , essa nova postura da música eletrônica como ferramenta de questionamento e afirmação comportamental ecoa no novo álbum da banda formada por Adam Esteves (guitarra e sintetizador), Hector de Paula (baixo) Sabrina Homrich (bateria) e Samantha Machado (voz).

VÊNUS

Com produção do cantor e multi-instrumentista Pipo Pegoraro (Aláfia), mixagem do músico Zé Nigro (Curumin, Anelis Assumpção) e participação especial da vocalista Assucena Assucena (As Bahias e a Cozinha Mineira) na track “Cléo” — a primeira que grudou na minha cabeça — , esse é um álbum de alma e discurso femininos em total sintonia com a luta das mulheres no contexto contemporâneo.

Ao som de envolventes texturas eletrônicas, Vênus convida a dançar falando sobre sexualidade, violência, desejo, alteridade, sororidade, inquietude, independência, respeito e amor.

Concebido como uma opereta eletrônica para as pistas, o álbum é dividido em três atos — “Eclipse”, “Trânsito de Vênus” e “Estrela d’alva”. Todas suas tracks são nomes de mulheres e contam histórias que falam sem pudores de temas ainda considerados tabus, como depressão (“Branca”), masturbação feminina (“Gabriela”), violência policial (“Graça da Sé”) e uso recreativo da maconha (“Joana Paraná”), por exemplo.

"São mulheres reais e fictícias ao mesmo tempo e representam várias mulheres do dia-a-dia", explica Adam. "As personagens que a gente criou dentro deste trabalho são pautadas em mulheres reais, em conceitos e papéis femininos que a gente encontra pela vida, um pouco parte de mim, da Sabrina, de nossas mães…", complementa Samantha.

O melhor: tudo vem embalado por versos que grudam no ouvido e no corpo, que fazem dançar e refletir, que colocam a política sexual num patamar criativo e libertário. Solto. Sem amarras nem mimimis. 
 
Enquanto escrevo, escuto “Joana Paraná” e me balanço na cadeira, batendo pé, estalando os dedos, atento aos versos do álbum e lembrando do mestre Wally Salomão: “Eu piro / nesta pista de dança / eu piso / nesta pista de dança / eu giro / nesta pista de dança… Pista de sereias, pista de insones…”
 
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