O NOVO EXÉRCITO DE UNICÓRNIOS

Como a marca À La Garçonne veste a geração pós-millennial para inspirar juventude em seus consumidores perennials

Fila final do desfile À La Garçonne | Coleção 02–2017 || Foto original AGÊNCIA FOTOSITE | FFW

No desfile montado no histórico palco do Theatro Municipal de São Paulo, a dupla Souza Herchcovitch apresenta o seu megaliquidificador de estilos como linguagem de marca, fortalecendo assim seu propósito maior. Para além de ressignificar peças vintage, dar nova vida ao tradicional workwear e utilizar matérias-primas de estoque, À La Garçonne assume seu gosto por transitar entre a fluidez de gêneros e estilos que marcam a chamada Geração Unicórnio.

A começar pelos cabelos curtos e coloridos do casting de meninxs — tão naturais que se sobrepõem a qualquer artifício do sempre preciso styling de Mauricio Ianes — , a apresentação convida a uma reflexão que pode vir pautada pelo discurso potente do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, conduzindo a acreditar que a tal Geração Unicórnio, "se desenvolve em meio a uma reconfiguração da noção de identidade, a qual deixa de ser percebida como algo fixo, inflexível e sem alternativa, para ser observada como algo adquirido por um longo processo de construção diária, fruto de diversos sistemas de significação e representação cultural".

Alexandre sempre questionou noções de gênero em suas apresentações, muito antes dessa pauta se tornar algo irreversível nas discussões cotidianas sobre a #ModaProNovoMundo. Em suas falas, ele afirma que não se preocupa em fazer roupas masculinas ou femininas, mas para pessoas que se identificam com as peças que cria.

E isso fica muito claro não só nas escolhas de seu casting plural, mas também na forma como as roupas são vestidas e desfiladas por unicórnios majestosos, construções do imaginário Souza-Herchcovitch-Ianes.

Vestidos de renda convivem harmonicamente com camuflados, em tênis estampados ou saltos performáticos. Corpos masculinos, femininos ou tanto faz configuram um novo cardápio estético à disposição de quem quer (e pode) usufruir de um guarda-roupa tão fresh e inspirador.

É aqui que entra essa nova configuração Perennials, que nasce como contraponto à tendência de classificar as gerações por idade e características referentes a seu tempo (millennials/Y, Z). É com esse "novo" consumidor que ALG quer falar, gente que tem menos a ver com cronologia e mais com mentalidade.

Os Perennials não estão ligados a uma geração específica: são pessoas que não se definem por gênero, idade, etnia, classe socioeconômica. Mas gente que acumula a tecnologia dos mais novos — inclusive se reiventaram nos aplicativos e redes sociais — e conserva o bom senso (e o poder aquisitivo) dos mais maduros.

E assim, a moda segue seu fluxo e poder de influenciar e inspirar o sonho da eterna juventude, com soluções rápidas para os complexos desafios do tempo.

*Colaborou Luca Predabon.