O SURREALISTA DO INSTAGRAM

Jackson Araujo
May 22 · 7 min read

Como a performance de Enantios Dromo atualiza Duchamp

O espaço depois do ato performático, que investigava relações com bruxaria

Cheguei ao trabalho artístico-performático-instagramático de Enantios Dromos pelo perfil da Matilda.My, agência especializada em marketing inclusivo e que se dispõe a realizar residências artísticas para se manter viva como um farol para os novíssimos questionamentos e abordagens da arte contemporânea em seus mais diferentes vieses, da pintura às provocações performativas sobre gênero, cor, corpo e identidade.

Ontem (21.05) fui assistir à performance que encerrava a ocupação de Enantios e seus questionamentos sobre não-binarismo, no meu ponto de vista, atualizando as compreensões sobre a arte do body modification para além do uso do artifício das roupas, dos corsets, das próteses ou ainda, das múltiplas cirurgias plásticas como as propostas pela artista francesa Orlan, dentro do que ela chama de Carnal Art. “ Tentei usar a cirurgia não para me aperfeiçoar ou tornar-me uma versão mais jovem de mim mesma, mas para trabalhar no conceito de imagem e cirurgia ao contrário”, como declarou em uma de suas muitas entrevistas espalhadas na web. Em outra de suas obras polêmicas, Orlan usou um biorreator para cultivar suas células entre as de outros humanos e animais. Sobre isso, ela diz: “Todo mundo tem medo do DIY genético. É crucial que os artistas trabalhem com essas tecnologias. É importante que trabalhemos entre ciência e arte”.

O ARTISTA

Aqui, no caso de Enantios, penso que o uso de testosterona em gel, aplicado na pele dos braços, ombros ou região abdominal para que a pele possa absorver o produto, se estabelece como o meio dentro de seu processo de performatividade de gênero, inaugurando uma versão mais fisiológica e menos estética para a body modification. “Hoje ele se identifica como um corpo trans não-binário e vem passando por um processo de hormonização. Há cinco meses faz uso de testosterona, o que tem causado mudanças significativas no seu físico, na sua voz e, consequemente, na maneira como enxerga o mundo à sua volta”.

“Eu não estou tentando chegar em nenhum outro lugar, eu não estou saindo de um feminino para ir para um masculino, eu estou justamente fugindo desse lugar binário. Binário para muito além do gênero, binário de tudo. O mundo todo a sua volta fala que existe uma possibilidade ou outra, quando na verdade existem muitas”, declarou ao site da Matilda.My.

Por meio desses questionamentos ao CIStema, o artista ganhou espaço expositivo nas salas multifuncionais da casinha do começo do século passado onde funciona a Matilda.My, cobrindo as paredes com vestidos de noiva encardidos e um vestido de prenda (a mulher que na tradição gaúcha faz par com o peão). Sim Enantios Dromos é nascido em Bagé, interior do Rio Grande do Sul, tem 21 anos e transita entre tempos, gêneros e espaços na eterna busca por sua verdade. “É uma busca de saber quem eu sou, de entender o que eu estou fazendo aqui, o que eu estou causando, o que as pessoas estão me causando, onde a gente se encontra e onde a gente se desencontra”, como está publicado no artigo que apresenta sua participação no projeto “Ilustres”, da Matilda.My. Leia aqui.

CORPOS LIMITROFIANTES

Agora o artista apresentado, voltemos ao ponto central dessa pensata: a performance “Corpos Limitrofiantes em Rito Dissidentes do CIStema e do Tempo”, onde o artista aciona elementos Duchampianos no espaço expositivo e no corpo performático, que podem ser lidos entre outros pontos como um comentário questionador sobre a falácia de romantizar a individualidade consciente ou a subjetividade do artista, um tema que também é um subtexto proeminente nos readymades eternizados por Marcel Duchamp, importante nome do Dadaísmo e também do Surrealismo.

Ao adentrar na sala escura e imersa em uma nuvem densa de fumaça de glicerina, os expectadores precisavam driblar uma série de fios que cruzavam o espaço onde aconteceria o ato performático. De algum modo, esse ambiente remetia à uma visão da instalação “First Papers Of Surrealism” (1942), uma exposição na época, foi o maior espetáculo surrealista já visto nos Estados Unidos, com obras de Paul Klee, Max Ernst, Marc Chagall, Pablo Picasso, Rene Magritte e Giorgio de Chirico, entre outros.

André Breton, organizador da exposição, pediu ao seu amigo Marcel Duchamp que propusesse um design para a instalação. Duchamp seguiu o tom da experiência sensorial que já tinha projetado anteriormente, para a Exposição Internacional Surrealista de 1938, em Paris, decorando o teto do salão principal da Gallerie des Beaux-Arts com 1.200 bolsas vazias de carvão e iluminando a sala com uma única lâmpada. Aos visitantes foram entregues lanternas para navegar no espaço preenchido com objetos de arte na forma de manequins, plantas e até mesmo um táxi, e portas giratórias que davam em lugar nenhum apenas para desorientar os espectadores. É que a “Surrealidade depende de nosso desejo por uma completa desorientação de tudo”, define Breton.

O ESPAÇO DO ATO

A experiência de ver e participar da performance proposta por Enantios podem variar. Alguns podem ter visto os fios como guias, direcionando-os para o espaço onde aconteceria o ato. Eu preferi ver isso como uma metáfora para as complexidades da arte contemporânea, pensando que sua presença simbolizava literalmente as dificuldades e o desconforto a serem contornados pelo unitário para ver, perceber e entender o outro.

O espaço visto pela cortina rasgada depois do ato performático

A imagem da cortina teatral de veludo vermelha com furos como olhos mágicos — que aos poucos foram rasgados amplificando o campo de visão — separando o público do ato performático serviu para substituir a experiência irrecuperável da exposição em si. Nela, não há um ponto de entrada imaginativo para o palco teatral e comprime o espaço que nos permite ocupar na mesma área dos vestidos de bodas, as “pinturas” da exposição. Os fios ficam no caminho. É difícil chegar até a cortina vermelha diretamente disposta à nossa frente, quanto mais se movimentar livremente pelas salas da exposição, pois tornozelos e pernas se emaranham na teia de Enantios.

Como disse o próprio Duchamp sobre o uso dos fios: “Não foi nada. Você sempre pode ver através de uma janela, através de uma cortina, grossa ou não espessa, você pode ver sempre através de algo se você quiser, pois o objeto (ou o corpo) estará lá.”

Os vestidos de noivas da exposição que falam sobre o tempo e a ideia de um feminino anacrônico

Não se pode negar que a presença dos fios pode acionar uma série de confrontos: entre as obras e sua instalação, a instalação e seus espectadores, os espectadores e o trabalho. Sempre havia uma força ativa em qualquer experiência do espetáculo, sendo preciso dar um passo de lado e se agachar, inclinar-se e curvar-se para a locomoção. Mas, em vez de nos impedir de ver, a tentativa de Enantios — como em Duchamp — parece ter sido de estimular uma nova consciência sobre os processos de visão. E por quê não dizer, de visibilidade. É comum entramos em espaços de arte condicionados a um conjunto de coreografias prescritas — como manter certa distância dos objetos, olhar tudo de longe. Na performance em questão, essas regras pareciam querer ser quebradas, com o artista nos lembrando que a visão é corpórea — que ela é possível através da abordagem do corpo. Ele questiona o quê e como vemos, e também como os próprios espaços de arte ditam os assuntos e os processos de nossa visão. Uma bela metáfora com o CIStema que o artista e sua geração de colaboradorxs estão dispostxs a esmiuçar, questionar e transformar.

O CORPO COMO OLHO

Ao chegar perto da cortina e se dispor a desvendar pelos olhos mágicos furados no veludo o espaço performático ali colocado como um terreno de magia e transe, potencializado pelo piscar incessante das luzes estroboscópicas, da nuvem cada vez mais densa de fumaça de glicerina, da excelente trilha sonora composta por distorções eletrônicas climáticas com samples de David Lynch, envolvendo corpos desnudos — entre elxs, o artista Renan Soares — que se movimentavam em cena como bacantes em noite de lua cheia, outra obra de Duchamp se fez presente no imaginário: “Étant donnés: 1º la chute d’eau, 2º le gaz d’éclairage”, composta por uma porta de madeira com furos, através dos quais se podia ver uma mulher nua, segurando uma lâmpada de gás antiga contra uma paisagem de árvores, cachoeira e céu.

Assim, o artista nos obriga a uma nova coreografia, que revela sua preocupação com a visualidade. Enantios notoriamente evitou a retina, abraçando todo o corpo como olho. Algo muito próprio de uma geração que nasceu nas redes sociais e usa o Instagram como uma extensão narrativa visual de sua vida real, colocando-se como personagens de um peepshow intermitente à disposição de voyeuristas eletrônicos.

O interessante é pensar que separados de uma experiência física por uma cortina, possamos nos sentir excluídos e questionados sobre o que significa o desconforto de não fazer parte, estar à margem, frequentar as bordas.

Tudo isso ainda pode nos levar a um amplo questionamento sobre o atual momento cultural over saturado de imagens, muitas apenas preenchendo o espaço antes usado por diários escritos à mão, agora recheados em larga escala por imagens de recortes inacabados, propositalmente toscos como é a vida real para longe do photoshop e dos apps de facetune.

Ao final, nessa obsessiva reinterpretação do confuso ato de existir performaticamente a peça de Enatios Dromo pode transitar fluidamente entre um trabalho de pesquisa, uma reimaginação criativa e um sequestro da arte.

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