O FETICHE DE RONALDO FRAGA

Estilista faz show nostálgico para falar de amor e empatia

Cena final do desfile de Ronaldo Fraga — Fotos: AGÊNCIA FOTOSITE | FFW

Primeiro veio o convite virtual disparado pelo whatsapp. Com um cartão postal nos tempos de Internet, Ronaldo Fraga convidava em tom de cinema mudo: "As praias desertas continuam esperando por nós dois".

Como bom contador de histórias que é, o estilista sabe atiçar a curiosidade e se utilizar das plataformas digitais para subverter o esperado nas redes, trocando glitches, gifs e afins por mensagens, digamos, mais afetivas.

Depois do cartão postal em tom romântico anunciando o que viria a ser uma coleção de linha praia, Ronaldo envia o release igualmente videográfico pelo zap-zap, um minidoc com sua voz narrando a inspiração do novo trabalho, "os banhos de mar da década de 1920".

"O uso da praia como espaço público de lazer e de convívio social, que tornou-se hábito e depois moda" encontrou na #SPFWN44 o Parque do Ibirapuera como local para atualização de contexto e cenário. Praia de paulistanos, área de convívio entre famílias, galera do rolêzinho, skatistas, patinadores, bikers, atletas de fim de semana, o parque simboliza muito do que Ronaldo viria a falar em seu desfile, mix de cinema antigo e teatro de revista, em linguagem um tanto Juarez Machado.

Com sua habitual ironia e quebra de protocolos, Ronaldo fez jornalistas, curiosos, convidados e fãs se acomodarem numa longa fila de espreguiçadeiras sob um sol escaldante para assistir à sua parada de gêneros, estilos, cores, corpos e gerações.

Num momento em que a moda — posta na encruzilhada pelo excesso de rapidez na disseminação de novidades, assim como pelo cansaço e falta de criatividade potencializada por followers do estilo alheio — , Ronaldo reafirma seu compromisso natural pelo respeito às historias pessoais dos outros como linguagem estética tantas vezes datilografada nas páginas de suas emocionantes passarelas.

Ele já anunciou um dia que a moda estava morta, agora cria um novo recorte para reafirmar o que disse de um jeito novo, lúdico e empacotado como um mosaico nostálgico de tipos, ao som de marchinhas que criam uma pausa no tempo e um convite para a reflexão.

Resgato aqui frases ditas por ele e que anoto no meu caderninho eletrônico, pois são sempre palavras que soam como pedaços de uma crônica construida a cada temporada e mudança de estação. “Para sobreviver, é preciso nascer de novo. Sempre. Acho que esse renascimento está muito ligado à ideia de existir. Às vezes, penso que tudo é muito mais simples do que a gente acredita. Precisamos olhar os valores e as relações perdidas e revalorizar ideias e formas que foram sendo esquecidas com o passar do tempo”.

Ronaldo é como a natureza. Uma árvore sempre dará as mesmas flores e os mesmos frutos, às vezes mais perfumados e suculentos, mas sempre serão jambos, jacas ou jabuticabas. Por isso, vale lembrar que o que estão querendo disseminar como uma mania sazonal — a pluralidade dos corpos e o fim dos padrões — , em Ronaldo já está tatuado há muito tempo.

PRAIA SUPERSÔNICA

Ao divulgar a construção supersônica de sua linha de moda praia, uma visível evolução do universo pictórico vintage que desenha seu estilo, Ronaldo já deixava claro, ainda que nas entrelinhas, que seu discurso outra vez seria sobre pessoas e não sobre roupas.

Esse é o fetiche do cara: GENTE!

Dia desses escutei ele dizer: "Tentar entender o ser humano, a história do homem na terra pelas suas escolhas de cor ou o que ele julgou pelo corpo e seus pequenos códigos, isso é uma boa história".

O sol esquentou, a conversa na espreguiçadeira foi aos poucos sendo substituida pelo som da banda mineira Já Te Digo, especialista em Pixinguinha, escutada ao longe como um rádio sintonizado num tempo passado contraposto ao discurso tão atual quanto futurista na passarela.

Modelagens vintage para costuras tecnológicas de alta-precisão empoderam a moda que não precisa mais falar sobre roupas e sim sobre pessoas, sejam poliamoros@s, trans, gord@s, gays, feminist@s, branc@s, negr@s, ruiv@s, sararás, albin@s, tatuad@s, atletas biônic@s, magrel@s ou andrógin@s. Tudo junto e misturado como mostra o encerramento do show numa fila que celebra a pluralidade e as possibilidades dos pares.

Afinal, no final, tudo é sobre Amor e Empatia.

Veja as fotos do desfile aqui no FFW.