Patreon: ensinando que internet não é o reino do grátis

Do whuffie para o dinheiro de verdade

No início era a web. No mundo digital, grande mágica era fornecer acesso a quase qualquer coisa de forma gratuita. Ao invés de comprar um jornal, eu podia abrir o UOL; ao invés de comprar livros para pesquisar, eu tinha oCadê?, Altavista e depois o Deus Google; no lugar de pagar por uma ligação telefônica, eu podia usar mensagens no ICQ ou no MSN, até chegarmos no WhatsApp. A grande sacada da internet desde os primórdios era ser barata, tão barata que era quase grátis.

Daí a web cresceu e eu descobri, em uma longínqua Campus Party, que não era exatamente tudo de graça, mas em troca de.. “whuffies”. A gente se desfazia da visão “fazer dinheiro” e transformava-a em “criar capital social”, gerar reputação. O esquisito “whuffie”dava sentido a uma ideia muito compreensível para quem vivera uma semana acampada em um galpão de SP cheio de pessoas que se conheciam (ou se conheceram) por conta da internet: o dar e receber apenas por acreditar que ao compartilhar a informação podíamos nos tornar não apenas melhores, mas mais bem reconhecidos.

No entanto, infelizmente não dá pra pagar contas com whuffie, reclamação que Cris Dias já ouvia desde 2009 quando escreveu sobre o tema para o ebook “Para Entender a Internet”.

NÃO EXISTE ALMOÇO GRÁTIS, NEM JORNAL GRÁTIS, NEM CONHECIMENTO GERADO ESPONTANEAMENTE SEM TROCA DE VALORES

Reputação é bom, mas não pode ser a única coisa que uma iniciativa gera. E eu tenho esperança de que vamos encontrar uma boa saída para isso. Um dos formatos ainda rústicos desse possível novo jeito de criar valor real para as coisas digitais podem ser as plataformas de financiamento coletivo. É o caso do Kickstarter e Catarse, para projetos pontuais, ePatreon, para “serviços regulares”, funcionando como uma espécie de mecenato virtual.

O interessante é que isso me parece ter a ver com uma mudança cultural mesmo. Há alguns anos eu ouvi a expressão “votar com a sua carteira”, que explicava o jeito como os americanos estariam (supostamente) mais dispostos a pagar ou doar para pessoas e causas que eles realmente acreditassem, ou pagar por serviços que gostassem muito. Tenho percebido que talvez essa ideia esteja aos poucos chegando aqui no Brasil também.

Afinal, acho que todo mundo concorda que não existe almoço grátis, nem jornal grátis, nem conhecimento gerado espontaneamente sem troca de valores (tem ao menos o tal whuffie envolvido), e parece que aos poucos estamos chegando em um momento em que pagar pelo que consumimos não é mais ruim, contanto que o preço não seja astronômico.

Ou seja, talvez estejamos finalmente estamos seguindo alguns dos passos sugeridos pela Lei de Kim Dotcom para acabar com a pirataria e com essa vibe “internet grátis”:

  1. Criar conteúdo de qualidade;
  2. Fazer com que seja fácil adquiri-lo;
  3. Distribuir igualmente para pessoas de todo o planeta;
  4. Em formatos que possam ser consumidos em diversos dispositivos; e finalmente
  5. Com um preço justo.

Têm sido assim com uma série de serviços que criaram modelos freemium, nos quais é possível experimentar e pagar por funcionalidades extra ou pela remoção de propaganda, ou até em serviços que oferecem conteúdos exclusivos — estão aí Spotify, Netflix e Tidalque não me deixam mentir, isso sem nem mesmo mencionar as publicações com formatopay wall que foram surgindo durante os últimos 5 anos.

Mais recentemente têm sido oferecidos também aplicativos móveis que permitem ter acesso a uma grande variedade de revistas e publicações com uma assinatura fixa bastante razoável, como é o caso da Globo Mags e iba revistas, por exemplo. Você descobre que o preço que pagava antes era caro, mas que hoje é possível ter acesso ao mesmo conteúdo de qualidade por um precinho mais acessível. Porém, ainda por um preço — esse conteúdo sensacional não caiu do céu e alguém precisa ser pago para que ele seja produzido e chegue até você.

É PRECISO MERECER A PATRONAGEM

Em abril de 2015, depois de uma viagem que me deu diversos insights, decidi finalmente lançar a Interwebz, uma newsletter semanal que faz uma curadoria de links e conteúdos para se informar rapidamente. A Interwebz surgiu de uma vontade grande de continuar o trabalho que eu tinha aprendido nos tempos de Blue Bus e também como um hobby de final de semana. É algo que eu já fiz por ser meu trabalho e que eu faria também apenas por whuffie. No entanto, o patrocínio ajuda a viabilizar algumas pequenas melhorias no resultado final, como pagar por serviços premium, ter um caixa para aquisição de apps para resenhar ou até mesmo para fazer doações para projetos que eu acredite que tenham a ver com o propósito da Interwebz.

No início, segui os passos de Rodrigo Ghedin, um amigo que também havia lançado sua própria newsletter fechada para assinantes. A newsletter do Ghedin, chamada de Manual do Usuário, é um caso de um sucesso de nicho — ele conta hoje com cerca de 130 assinantes, que contribuem com valores diversos e garantem a ele um incentivo mensal em dólares e uma comunidade muito engajada e interessada no que ele tem a dizer.

NÃO ADIANTA TER UM PRODUTO LEGAL SE AS PESSOAS NÃO SOUBEREM QUE ELE EXISTE

No entanto, não foram necessárias mais do que algumas semanas para que eu entendesse que não adiantava ter um produto legal se as pessoas não soubessem que ele existia. Mais do que produzir o conteúdo, era preciso também divulgar a iniciativa, promover entre os amigos e colegas, fazendo com que as pessoas soubessem que aquilo existia e que era sim uma boa ideia pagar para ter acesso.

A minha experiência é praticamente um microcosmo, mas foi com ela que entendi que dá sim para ganhar algum dinheiro com o apoio dos seus assinantes. Nos primeiros 3 ou 4 meses, a Interwebz chegou a contar com cerca de 20 “patronos”, pessoas que pagavam quantias variadas na minha página do Patreon para terem acesso à newsletter que eu produzia toda semana.

No entanto, o que eu não tinha antecipado era a burocracia. Além das 4 a 6 horas que eu investia fazendo a curadoria do material que ia figurar na Interwebz e montando a newsletter no Mailchimp, ainda era preciso separar algumas horas para ficar checando quem havia feito uma assinatura no Patreon, verificar se a pessoa estava também cadastrada na mailing list do Mailchimp, conferir detalhes, comparar tabelas, criar uma planilha para ter tudo organizado… ufa! Esse sim era um trabalho mais chatinho e que por vezes acabava não sendo feito na agilidade que eu achava ser necessária.

Também existia o problema da “central de pagamentos”. O Patreon te avisa quanto cada um dos seus patronos já investiu no seu projeto e te manda um balanço mensal sobre a sua arrecadação. Em um desses balanços mensais, reparei que um dos meus patronos estava tendo o seu cartão declinado pelo sistema. Provavelmente poderia ter sido um bloqueio temporário, como permitem alguns bancos, a ocorrência de uma troca de cartão ou cartão de crédito fora da validade. Em um primeiro momento, achei que poderia acionar o patrono para pedir a ele que conferisse seus dados de pagamento, mas com o tempo esses episódios foram aumentando e se tornou um processo chato demais pedir a cada um deles que conferisse seu pagamento para o recebimento da newsletter.

Foi mais ou menos nessa época que reparei que além do fato de cerca de 20% dos meus patronos estarem com seus pagamentos sendo recusados, o meu alcance estava sendo prejudicado: ao invés de falar para um número maior de pessoas, eu estava conversando apenas com um pequeno punhado de assinantes pagantes, grande parte deles amigos e conhecidos, os quais eu não queria incomodar solicitando pagamentos. Resolvi perguntar a esse grupo o que eles achavam de expandirmos o alcance da Interwebz para quem quisesse assinar mesmo sem pagar, passando a manter o Patreon como um apoio independente da assinatura.

Para minha felicidade e enorme surpresa, 90% dos patronos toparam abrir a Interwebz para o público e assim foi feito. Desde julho de 2015, aos poucos fui abrindo a assinatura da Interwebz para quem se interessasse em recebê-la, e em setembro ~pivotei~ o modelo da Interwebz por completo, dessa vez seguindo os passos de Maria Popova, do Brain Pickings: o conteúdo bacana está disponível a quem se interessar, mas se você quiser “votar com a sua carteira” para manter a Interwebz, existem opções de colaborações recorrentes mensais e doações pontuais, de acordo com a possibilidade de cada um.

CONVENIÊNCIA AINDA É A CHAVE

Em uma conversa recente com o @Interney, ele comentou que achava que se nas escolas os professores ensinassem a programar e a fazer conteúdo, as pessoas teriam mais respeito por quem faz essas coisas e achariam esses trabalhos mais valiosos. Concordo em partes, porque acredito que esse jeito de respeitar o trabalho alheio ter muito mais a ver com um processo de empatia do que com o de experimentação. Achar que cada um tem os seus desafios nas suas funções me parece mais produtivo do que criar métodos que façam todo mundo “experimentar” um pouquinho de todas as funções e carreiras que existem — inclusive porque, matematicamente falando, isso seria meio difícil de fazer.

Eu, por exemplo, não sei patavinas de música. No entanto, tenho um enorme respeito por quem consegue pegar instrumentos e criar as canções que embalam os momentos da minha vida e que são capazes de me fazer vibrar ou chorar apenas ao ouvi-las.

O problema é que “patronar” músicos ainda é um porre. Recentemente, estive em um show no SESC da minha cidade com o Móveis Coloniais de Acaju. Paguei meu ingresso módico e vi um show sensacional, com um vocalista que sabia exatamente como engajar as pessoas, que transbordou animação por quase 2 horas e que até permitiu que usassem o espaço do seu show para um pedido de casamento. Só coisas boas a dizer.

Ao final do show, fiquei interessada em “votar com a minha carteira” para que eles continuassem fazendo shows como aquele. Me dirigi até a lojinha para ver se algum item me agradava para comprar e ajudá-los…. e demorei apenas 15 minutos para desistir. A lojinha, de diminutas proporções, estava um caos de gente querendo comprar camisetas, CDs (quem ainda compra CDs????) e tudo o mais. Desisti. Voltei pra casa pensando quenão é possível que eles não tivessem uma lojinha online, não é mesmo? Pois eles tem. Mas ela está praticamente vazia, vendendo majoritariamente CDs, que é uma mídia que infelizmente (ou felizmente?) eu nem tenho como consumir aqui em casa, já que não tenho nem um leitor de CDs no apê.

Perambulei pelo site procurando por um botão do PayPal. Eu nem precisava de nada em troca, sabe? Eu poderia muito bem doar o valor de uma camiseta para eles pelo simples prazer de pensar que eu fiz a minha parte e contribui. Não encontrei em lugar algum e pensei se não haveriam mais pessoas como eu dispostas a clicar em um botão do PayPal para doar alguma quantia para a banda, como recompensa pelos bons momentos propiciados. Aposto que o casal que noivou ao som dos músicos do Móveis estaria mais do que disposto a agradecer dessa forma.

SE NÃO HOUVER FORMA OFICIAL, VAI HAVER A EXTRAOFICIAL

Nas últimas semanas, eu estava interessadíssima em assistir um filme nacional que estava em cartaz nos cinemas e que recebeu ótimas críticas. Para minha infelicidade, os únicos horários próximos da minha casa eram inviáveis para mim — 2 ou 4 da tarde dos dias de semana. Quem consegue tirar duas horas de lazer em pleno expediente hoje em dia? Por mais flexível que meu trabalho seja, eu não tinha como. E pasmem: os mesmos horários inexistiam nos cinemas em fins de semana. A alternativa era correr para a capital paulistana em um sábado ou domingo para … ver um filme (!).

HOJE SÃO POUCAS AS POSSIBILIDADES DE INCENTIVAR UMA PRODUÇÃO DE FORMA CONVENIENTE E QUE NÃO EXIJA O CINEMA COMO INTERMEDIÁRIO

Agora, imagine comigo: será que quem cresceu com a internet grátis é detido por uma dificuldade de distribuição da indústria fonográfica ou já é alguém que sabe circular nos guetos da ilegalidade digital?

Não seria impossível estar em dois tempos munido do filme em questão para assistir no conforto do sofá, com pipoca e guaraná. Essa mesma pessoa poderia terminar de assistir ao filme admirada pela qualidade da história, da produção, feliz pela forma sutil e ao mesmo tempo enfática que o tema foi tratado. E terrivelmente culpada por ter usado um caminho que provê ZERO incentivo a quem fez aquele conteúdo espetacular, simplesmente porque não havia um jeito fácil e conveniente de obter acesso legal e financiar aquela produção.

Já ouvi muitos casos em que a pessoa busca outras formas de “compensar” pelo dano causado por consumir conteúdos ilegais — são eles a parte da audiência que está disposta a encontrar um botão de “DOE PARA ESTE FILME AQUI” e colocar lá os mesmos 50–100 reais que teriam gasto em um cinema. No entanto, hoje são poucas as possibilidades de incentivar uma produção de forma conveniente e que não exija o cinema como intermediário.

SAVE WALTER WHITE

Até mesmo Flynn, o filho de Walter White no seriado “Breaking Bad”, sabe do poder das doações. Elas podem não chegar aos valores extraordinários que a arrecadação para o professor de química chegou (entendedores entenderão), mas elas são uma saída interessante e viável para que quem quer colaborar com um determinado projeto, seja ele de conteúdo, imagem, áudio, ou o que for. É um jeito de também “votar com a sua carteira” para que aquilo possa vir (ou continuar) a acontecer.

“O financiamento coletivo está na ordem do dia, muita gente com projetos bons está buscando essa forma de captação, pois ela independe de aprovação de leis de incentivo e/ou edital”, explicou a minha amiga e produtora cultural Juliana Mara. “Nada impede que produtores vendam produtos do seu filme, por exemplo”, frisa ela, reforçando meu ponto de que seria muito útil poder fazer uma colaboração para o filme como uma forma de gratidão pela experiência.

DO FREEMIUM PARA O PATREON

A gente ainda não tem a fórmula secreta da resolução de problemas financeiros para meios digitais. Produtores independentes, artistas, criadores e a indústria fonográfica estão experimentando e testando para ver o que vai dar certo. Já vimos os modelos apoiados em publicidade, em parcerias com marcas, em apadrinhamento, pagamento direto, freemium e agora acredito que estejamos vendo o surgimento do modelo “patronado”, quando o acesso é gratuito e irrestrito e o financiamento vem de quem acredita ou gosta muito do que consome.

Um exemplo recente é o aplicativo Overcast, considerado um dos melhores para organizar podcasts. O desenvolvedor Marco Arment decidiu sair do modelo “freemium”, onde parte do serviço é entregue gratuitamente e funcionalidades avançadas são bloqueadas apenas para quem paga pelo uso, para se tornar “patronado”. Agora, todo mundo que quiser pode usar todas as funcionalidades do aplicativo de graça, e quem gostar e quiser ser um patrono pode fazê-lo através do próprio app.

PEDIR QUE AS PESSOAS COLABOREM, FAZER ALGO DE BOM E ESPERAR ALGO ALÉM DE RECONHECIMENTO EM TROCA É REALMENTE UMA ARTE

“A versão 1.0 do Overcast travava as funcionalidades mais legais atrás de um pagamento via app, que era feito por apenas 20% dos usuários. Ou seja, 80% dos meus clientes estavam usando um aplicativo de qualidade inferior. A versão limitada não era a versão do Overcast que eu usava, não era uma boa experiência e certamente não era o meu melhor trabalho. Na versão 2.0, eu mudei isso ao desbloquear tudo, para todo mundo, e deixar o app gratuito. Eu prefiro que você use o app de graça do que não o utilize, e eu quero que todo mundo experimente uma boa versão do Overcast”, explica Marco Arment, que na semana em que eu escrevo esse texto, conquistou mais de 350 novos patronos.

No Brasil, outras iniciativas funcionam no mesmo modelo, como é o caso de alguns podcast da casa B9, como o Mamilos e o Anticast, e o site Lugar de Mulher. Eles hoje arrecadam de USD 600 a 1.000, o que ajuda a viabilizar que os projetos continuem existindo e financiar as ideias bacanas de quem gerencia essas iniciativas.

Pedir que as pessoas colaborem, fazer algo de bom e esperar algo além de reconhecimento em troca é realmente uma arte, como Amanda Palmer já disse há tempos nesse lindo TEDabaixo.

E é você, que com a sua carteira aposta em uma ideia, apoia um projeto, é você que viabiliza essas coisas novas, esses projetos incríveis, aprendizados, melhorias, novas experiências. Foi esse apoio que me proveram todos os meus Patronos: me permitiram experimentar novas coisas, descobrir uma ferramenta, uma nova linguagem, um novo jeito de receber pelo que fazia. Aos meus patronos, fica esse texto que pode funcionar como o olhar da noiva estátua de Amanda: um profundo e carinhoso jeito de dizer muito obrigada.

Até mais, e obrigada pelos peixes!

Esse texto foi publicado originalmente no B9, onde sou colaboradora.

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